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A FILHA PERDIDA, UMA REFLEXÃO SOBRE A OBRIGAÇÃO DA MATERNIDADE

A FILHA PERDIDA, UMA REFLEXÃO SOBRE A OBRIGAÇÃO DA MATERNIDADE

“A Filha Perdida” entrou no catálogo da Netflix no último dia 31 de dezembro, e desde então vem gerando discussões e reflexões. Trata-se de uma adaptação do livro homônimo da autora Elena Ferrante, lançado no Brasil pela editora Intrínseca em 2006. Apesar de algumas alterações na história original, o filme da diretora e roteirista estreante Maggie Gyllenhaal mantém uma estrutura forte e toca em questões delicadas da nossa sociedade, tudo isso estando bem amparado por um elenco de peso.

A Filha Perdida

Data de lançamento: 31 de dezembro de 2021
Duração: 02h 04min
Direção: Maggie Gyllenhaal
Atores: Olivia Colman, Dakota Johnson, Jessie Bucley, Paul Mescal, Ed Harris, Peter Sarsgaard.
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Distribuidora: Netflix

Conhecemos Leda, uma professora universitária e tradutora de 48 anos que está passando férias em uma ilha grega. Em seu primeiro contato com o local, começa a observar sua “vizinha” Nina com a filha Elena. O carinho e atenção trocados entre mãe e filha despertam sentimentos em Leda, que passa a refletir sobre questões de sua própria vida.

No entanto, a amizade entre as duas mulheres acaba acontecendo através do sumiço de Elena na praia quando, ajudando nas buscas, é Leda quem a encontra. Durante esse episódio a garotinha acaba perdendo sua boneca Neni, o que a deixa inconsolável. Mas nós sabemos o que aconteceu, a boneca não sumiu, quem a pegou foi a própria Leda e ela passa cuidar dela como se fosse uma criança, relembrando de fatos e memórias do seu passado.

Filme A Filha Perdida

 

“A Filha Perdida” é um filme incômodo, feito para provocar. O resultado não poderia ser diferente, ou você ama ou odeia. Acompanhamos uma protagonista que apesar de ser mãe de duas meninas, nunca se sentiu uma mãe natural. A maternidade não foi uma experiência tranquila e transformadora para Leda. E isso a atinge em cheio quando presencia a relação entre Nina e Elena. Inicialmente, ela enxerga em Nina a mãe que deveria ter sido para suas filhas, o carinho e a atenção que deveria ter dispensado a elas… Mas com o passar dos dias, ela enxerga na jovem mãe alguns dos mesmos problemas enfrentados por ela.

Ainda hoje é inconcebível para a nossa sociedade que uma mulher não tenha o desejo de ser mãe. Existe todo o pré-julgamento de que as mulheres que fazem essa escolha se tornam amargas, solitárias, incompletas… A maternidade existe basicamente como um nível que precisa ser alcançado, que é cobrado, e nesse filho ainda nem nascido se projeta toda uma imensa expectativa de felicidade.

 

Obviamente, existem sim muitas mulheres que nasceram para ser mães! Que encontram assim uma vocação, um prazer e um transcender de suas relações e sentimentos. Porém “A Filha Perdida” vem conversar e normalizar a hipótese de, às vezes, isso não acontecer. Do surgimento natural do instinto materno não ser real. Vemos nos flashbacks de Leda que ela não se sentia ligada às suas filhas, que a rotina de mãe não a preenchia e que por isso se julgava muito como egoísta e cruel.

Leda guarda o segredo de ter abandonado por um período as suas filhas, quando tinham 05 e 07 anos, para seguir em busca de sua carreira profissional e seus desejos pessoais. E em seu coração, apesar de ter retornado, ela sabe que não se sentiu mal por isso, se sentiu realizada. Consequentemente, vemos a protagonista atualmente em sua meia idade, com uma carreira sólida, passando férias sozinha na praia. É natural se questionar e até esperar que ela esteja infeliz e depressiva, mas não é esta a mulher que encontramos. Leda não odeia as filhas, ela odeia ter sido obrigada a deixar de ser ela mesma depois que virou mãe. A obrigação de se anular, de perder sua voz, suas vontades, prazeres e, literalmente, “padecer no paraíso”!

O filme naturalmente não funcionaria se o protagonista fosse um homem, o pai. E nesse ponto encontramos a maior questão do filme. Por que é tão aceitável para o homem abandonar seus filhos, sua casa, sua esposa, e para a mulher gera tanta estranheza e julgamento? Por que é tão intrínseco à mulher a maternidade e o cuidar dos filhos, sendo que para o homem isso é opcional? O próprio marido de Leda a deixa dias sozinha com suas filhas devido à sua alta carga de trabalho, o que inclusive a sobrecarrega e desgasta. Mas quando ela decide se dedicar ao seu lado profissional, a palmatória é incisiva. Ser pai, definitivamente não requer renúncias!

A atriz Olivia Colman (A Favorita) está, mais uma vez, brilhante no papel principal. Ela consegue passar facilmente as dúvidas, inseguranças e conflitos da protagonista, sendo assim, acredito que tenha conseguido com esse trabalho mais uma indicação ao Oscar. Nina é interpretada por uma quase irreconhecível Dakota Johnson (Cinquenta Tons de Cinza), que também dá um show de atuação. Além delas também temos no elenco Jessie Bucley (Estou Pensando em Acabar com Tudo), Paul Mescal (Normal People) e Ed Harris (WestWorld).

“A Filha Perdida” é um convite à reflexão e quebra de tabus. Segue uma linha sem muita ação e/ou reviravoltas, mas mantém o expectador preso tanto nos desdobramentos da situação na praia, entre Leda e Nina, quanto nos flashbacks da protagonista. Os amantes do Oscar devem ficar de olho aqui, pois existem grandes chances de indicações, principalmente por já ter chamado à atenção de outras premiações.

Comente este post!

  • Lilian Farias

    Eu queria ler o livro antes de assistir a adaptação, mas receio que não será possível em virtude de minha curiosidade maior que o mundo hehehehehe até tentei ler a versão digital, mas preciso da física que não disponho. Existe realmente um peso social para que a mulher seja mãe, como se fosse nossa única função, mas, sejamos resistentes ao nosso desejo e ao caminho que traçamos. Sou do grupo sem filhos <3

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  • Camille Pezzino

    Oi!
    Eu achei sensacional, não sabia nem do livro, nem do filme, fiquei interessada em assistir, pelo menos, a adaptação. Eu acho que não funcionaria com um homem, justamente porque o patriarcado prediz que o homem é livre dos elos pela falta de conexão com o crescimento do bebê na barriga, entende? O que não faz sentido. O ato da maternidade/paternidade tem a ver com o elo que se cria após a gestação. Mas, é uma desculpa esfarrapada para isentar o homem. Achei a proposta sensacional e fiquei muito curiosa, obrigada pela indicação!

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  • Debora Sapphire

    Bem impactante saber dos assuntos que são abordados. E interessante como desde que entrou no catálogo da Netflix no último dia 31 de dezembro, já vem gerando todas essas discussões e reflexões em geral. Acho necessário esse convite à reflexão e quebra de tabus que traz.

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  • Erika Monteiro

    Oi Karina, tudo bem? Vi o lançamento na Netflix, inclusive assisti o trailer e achei a proposta bem interessante. Falar sobre maternidade é um assunto que divide opiniões justamente porque algumas pessoas creem que a maternidade é algo inato à mulher. No entanto, sabemos por experiência que algumas mulheres não têm o dom ou o desejo de serem mães. Eu, por exemplo, nunca tive essa vontade. Sempre sou questionada pela minha mãe quando darei uns “netinhos” mas não é um desejo que faz parte de mim. Comecei a trabalhar cedo, viajar, então sempre dei mais atenção à minha vida profissional. Já minha irmã foi mãe cedo e se sente realizada. Apesar de sermos irmãs pensamos bem diferente. Essa é a beleza da vida respeitarmos as decisões de cada uma. Um abraço, Érika =^.^=

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  • Val

    No meu caso, eu detestaria ser mãe. XD
    Eu não li o livro más fiquei curiosa em ver o filme. Se gostar, parto pra leitura. Pior que eu vía a galera comentar sobre a autora más nunca parei de fato pra ver do qué se trataba esse livro e a tetralogia dela… xD

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  • Carol Nery

    Amiga, adorei sua crítica. Você sempre incisiva e enfática. Sei analisar do longo mexe com nossas emoções, deixando-nos assim prontos para assistir ou para correr.
    Eu li uns comentários sobre o filme. Vi gente descendo a lenha, vi muitos elogios e reconhecimento…
    No fim das contas, ainda não sei se vou querer ver por agora.

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