Em a Guerra do velho: Um grupo militar formado por homens e mulheres com mais de 75 anos tem como objetivo defender as colônias de terráqueos espalhados pela galáxia.
Guerra do velho é o primeiro livro de uma série com seis – todos publicados no Brasil – e três short-stories cuja linha do tempo se passa entre as histórias principais e complementam a leitura. O autor é John Scalzi, e foi publicado no Brasil pela Editora Aleph em 2016. O livro traz uma premissa curiosa: nesse mundo, as pessoas se alistam nas Forças Coloniais de Defesa quando completam 75 anos.
Estamos muitos anos à frente, de tal forma que o ser humano já conquistou o espaço e colonizou outros planetas. Claro que essa expansão inevitavelmente nos faria encontrar outros seres sencientes, e nem sempre a relação entre os povos é pacífica. Por isso foi criada a FCD (Forças Coloniais de Defesa), uma organização militar cujo objetivo é proteger os assentamentos humanos contra alienígenas inamistosos – sejam eles nativos ou invasores.
A FCD conta com alistamentos na terra, e tem o fato inusitado de recrutar homens e mulheres com mais de 75 anos. Há muitos segredos em torno desse recrutamento, a começar pelos termos. Uma vez que se aceite fazer parte da FCD, a pessoa renuncia a todos os seus bens, tem um tempo para se despedir e resolver qualquer pendência e, depois disso, é considerado legalmente morto. Não há retorno para quem assume o compromisso.
Nosso segundo problema é que, quando encontramos planetas adequados para colonização, com frequência são habitados por vida inteligente.

RESENHA DO LIVRO GUERRA DO VELHO DE JOHN SCALZI
John Perry é um senhor estadunidense que se alista. Sua esposa já é falecida, e John não vê muitos motivos para permanecer na terra. Ele não tem ideia do que o espera, mas se despede junto ao túmulo da esposa, se desfaz dos seus negócios, e se prepara para descobrir parte do mistério em torno da FCD. Acima de tudo, qual o sentido em recrutar pessoas que já estão fracas e à beira da morte?
John embarca, conhece outros idosos, conversam, riem das próprias limitações, e se autodenominam os Velharias. Enquanto estavam a caminho do seu treinamento, especulam a forma como podem ser mais bem aproveitados, apesar da idade. Tinham muitas teorias, mas nenhum deles passou remotamente próximo – e não vou te contar, porque me surpreendeu. Após passar pelo procedimento misterioso, começam efetivamente com os treinamentos, e se deparam com o mal-humorado e ranzinza Sargento Ruiz, que vai levá-los ao limite. A partir daí, serão batalhas, perdas e aprendizados.
Eu não poderia começar essa resenha sem mencionar o óbvio: esse livro é uma clara homenagem à Tropas Estelares, de Robert Heinlein (que possui um filme homônimo, lançado em 1997). O próprio autor menciona a homenagem ao final do livro, apesar de muitos apontarem pontos díspares entre as obras. Scalzi inovou e trouxe frescor para uma narrativa considerada, entre outras coisas, sexista. Já disseram que a obra de Heinlein não envelheceu bem…
Entretanto, o objetivo aqui é Guerra do Velho, e já posso te adiantar que esse é um livro de ficção científica mais sentimental, bem-humorado e reflexivo que eu já li. Tem problemas, claro, acima de tudo porque insiste em trazer personagens que são recrutados no mundo inteiro, mas a origem parece sempre apontar para os Estados Unidos.
As pessoas se alistam porque não estão prontas para morrer e não querem envelhecer. Alistam-se porque a vida na Terra não é interessante depois de uma certa idade. Ou se alistam para ver um lugar novo antes de morrer.

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Guerra do Velho é um livro de grandes escalas. A começar pelo transporte, que leva o nome de Pé de feijão, por perfurar os céus até plataformas de onde efetivamente partirão nas grandes naves. As explicações sobre a impossibilidade da existência desses ‘elevadores’ já trazem uma ideia das muitas tecnologias que estarão por vir. As explicações científicas estão presentes, mas não são detalhadas ou cansativas, servem apenas para informar.
Depois temos o treinamento. Eu não faço ideia de como funciona um treinamento militar, mas não acho difícil imaginar um Sargento Ruiz que, apesar de estereotipado, deixa claro a ironia do papel. Mas o palco é totalmente de John Perry. Ele é um homem comum, que faz amigos rápido, que orbitam em sua gravidade. Líder nato, logo no início atrai a atenção do Sargento, e mesmo no treinamento demonstra ser articulado e com uma grande inteligência tática. Talvez perfeito demais… Eu realmente gosto dele, mas poderia ser menos infalível.
Outro ponto que trouxe um certo incômodo foi a forma como a FCD frente alienígenas. John até questiona algumas coisas, e seus superiores estão sempre lembrando que ele acabou de chegar, não dá para querer ficar na janela… essa é uma guerra que se desenvolve há algum tempo, e por isso não há explicação sobre como chegaram nos termos atuais – que são basicamente atirar antes, e não perguntar nada depois. A guerra parece ser a única relação entre os humanos e os outros.
Os senhores, recrutas, são ainda mais estúpidos do que eu imaginava – Ruiz declarou. – Ouçam uma coisa agora: nunca houve um militar na história inteira da humana raça que foi para a guerra equipado com mais do que o mínimo que precisava para combater seu inimigo. A guerra é cara. Custa dinheiro, custa vidas, e nenhuma civilização tem uma quantidade infinita nem de um, nem de outro. Então, quando lutarem, conservem. Vão usar e se equipar apenas com o tanto que precisarem, nunca com mais.

O FOCO É SOBRETUDO EM JOHN
Que livro fluido… mesmo com os problemas, eu li rápido e terminei com sede. Os diálogos são engraçados, ágeis, com uma pitada de vergonha alheia em alguns momentos (dizem que escritores de ficção científica são péssimos quando se propõem a escrever cenas picantes. Devo concordar!). A relação entre os Velharias é rápida, mas se aprofunda, ainda que eles se separem e voltem a se agrupar ao longo da narrativa. As conversas sobre o café da manhã, as brincadeiras com o médico do grupo, até mesmo as poucas interações com as raças alienígenas são ótimas. É uma Space Opera que diverte e critica. Ri muito!
Apesar de muitos personagens integrarem a história, o foco fica mesmo em John. Eu queria saber mais de alguns deles, mas estão ali apenas orbitando. Mas, ainda assim, o autor conseguiu trazer diversidade, porque ainda que se trate de uma história militar, as mulheres estão presentes em igual posição, e mesmo personagens LGBTQIAP+. Poucos, mas presentes.
Guerra do Velho é sobre alienígenas, guerras, colonização. Mas é sobre envelhecer, e como é difícil ficar solitário. Acima de tudo depois de viver uma vida ao lado de quem se ama. Por tudo isso, todas as batalhas enfrentadas por John a partir do momento que integra a FDC o modificam. Ele cria novos laços, reordena seus objetivos, e fica em paz com sua perda. Enraizado nos tropos militares clássicos, com muito sangue, entranhas e corpos pelo caminho, é um livro com uma história adorável. Você pode ler como livro único, porque tem um final relativamente fechado, mas deixa muitas possibilidades no ar!
Esse é um dos motivos pelos quais as FCD selecionam idosos para se tornarem soldados. Não é porque vocês todos estão aposentados e são um peso para a economia. É também porque vocês viveram o bastante para saber que há mais na vida do que a própria vida. A maioria de vocês criou famílias, teve filhos, netos, e entende o valor de fazer algo além de seus objetivos egoístas. Mesmo se nunca se tornarem colonos, ainda vão reconhecer que as colônias humanas são boas para a raça humana, algo pelo qual vale a pena lutar. É difícil enfiar esse conceito na cabeça de alguém com 19 anos. Mas vocês são experientes. Neste universo, o que conta é a experiência.










