Periféricos traz uma pequena cidade rural da América do Norte encontra uma Londres pós apocalíptica em meio a armas, drogas, terrorismo, viagens no tempo…
William Gibson é um dos principais nomes da ficção científica, que ajudou a criar um subgênero conhecido por cyberpunk, com enfoque em “alta tecnologia e baixa qualidade de vida”. 30 anos depois de seu grande sucesso, Neuromancer, Gibson publica Periféricos, que foi lançado pela Editora Aleph em 2020, e com uma adaptação para o Prime Video.
Flynne Fisher mora com o irmão, Burton, e a mãe numa área rural dos Estados Unidos, atolados em uma recessão econômica. Por isso, poucos empregos estão disponíveis, e restam alguns subempregos, como o trabalho com a fabricação de drogas, impressões 3D, e jogos de vídeo game, que acrescentam um pouco de dinheiro para essas famílias.
Burton é um veterano de guerra, que atua em um jogo de realidade virtual. Mas, por conta de um outro compromisso, pede a irmã que o substitua em um dia. Flynne tem certa habilidade com realidade virtual, e aceita a troca. Mas, percebe que as definições são realistas demais, e como se fosse pouco, presencia um assassinato durante o jogo. Ela se assusta e sai rapidamente, e percebe que alguém viu seu avatar. Bom, é só um jogo, não é mesmo?
Em uma trama paralela, conheceremos Wilf Netherton, que vive numa Londres tecnológica, e entre outras esquisitices tem os chamados ‘periféricos’, corpos sem consciência que podem ser alugados. De alguma forma Wilf tem conhecimento do assassinato que foi presenciado por Flynne, e é assim que os dois núcleos passarão a se integrar.
Os dois sabiam que ela sabia que isso era mentira, mas ela achou que era assim que ficavam as coisas quando alguém que você conhecia matava pessoas e você não queria que ele fosse pego por isso. Eles estavam contando a ela a história como precisava ser contada, e contando de um jeito que não exigiria que ela contasse algo além da verdade em relação ao que eles contaram a ela.

RESENHA DO LIVRO PERIFÉRICOS DE WILLIAM GIBSON
Neuromancer sempre esteve na minha lista de livros desejados, por isso quando vi uma nova publicação do autor – o livro originalmente foi lançado em 2014, trazendo uma capa belíssima pela Editora Aleph – acreditei que poderia ser uma boa porta de entrada para o cyberpunk. Bom, depois de ler Periféricos, ainda não me recuperei o suficiente para ler Neuromancer. Periféricos é de uma complexidade narrativa que facilmente pode espantar até o mais cascudo leitor do gênero. Fiquei completamente perdida nos primeiros 20% do livro, e aproveitei a série do Amazon Prime Vídeo para jogar uma luz nessa história.
Depois que entendi que são dois núcleos, e que não necessariamente estão na mesma linha do tempo, ficou mais fácil prosseguir na leitura. Ajudou o fato de os capítulos serem curtos, deixando a leitura mais veloz, ainda que não necessariamente fluida. Queria muito um glossário, tenho certeza de que me ajudaria a entender melhor a proposta do livro – ao mesmo tempo que entendo a falta dele, porque estou me segurando para não te contar do que realmente se trata essa história.
Ainda que perdida, vale adiantar que o livro mistura à toda tecnologia e escassez de recursos, uma boa investigação, e ainda viagens no tempo – não necessariamente como concebemos esse conceito – além de personagens curiosos e bem cinzentos.
Ash explicara antes que periféricos, quando sob o controle de IA, pareciam humanos porque o rosto, programado para registrar de forma constante diferentes microexpressões, nunca estava realmente parado. Na ausência disso, ela dissera, eles se transformavam em objetos excepcionalmente perturbadores.

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UM MUNDO PÓS APOCALÍPTICO RECHEADO DE TECNOLOGIA
Dois mundos que colidem. O mundo de Flynne poderia ser o nosso mundo, alguns poucos anos à frente. Com uma economia incipiente, e com recursos naturais extraídos até o ponto limite, resta mesmo poucos trabalhos. Guerras distantes deixaram alguns jovens com transtorno pós-traumático, e alguns ainda sem partes do corpo, como é o caso do amigo de Flynne, Conner. Esses jovens cuidam das mães e dos irmãos, percorrem as estradas do campo e bebem muita cerveja.
O mundo de Wilf é misterioso, cheio de tecnologia avançada (vestível, implantada, virtual). Ele bebe demais, dorme com seus clientes e flerta com o fracasso. Um mundo que passou por um evento que mudou completamente a forma de viver e de se relacionar – com os outros, com os recursos, com o mundo. O mais bizarro talvez sejam os periféricos, corpos que podem ser alugados, um ciberorganismo altamente avançado.
Em capítulos curtos e agitados, Gibson liga os dois núcleos. Flynne descobre que as pessoas que ela vê no mundo de Wilf são placebos tecnológicos com a finalidade de trazer certa realidade para esse mundo pós apocalíptico – uma Westworld para narcisistas e oligarcas que comandam a cidade.
Nada disso está acontecendo porque qualquer um de nós é quem é, o que é. Acidente, ou começou com um, e agora temos pessoas que podem até ser capazes de suspender leis básicas da física, ou de quaisquer formas de finanças, fazendo o que quer que estejam fazendo, quaisquer que sejam seus motivos. Então poderíamos ficar ricos ou ser assassinados, e tudo seria apenas colateral.

DOIS MUNDOS, MUITOS CAMINHOS PERCORRIDOS
Comentar mais alguma coisa poderia estragar a sua experiência. Mas reafirmo que os primeiros capítulos me deixaram com a sensação de luta constante para prosseguir e tentar encontrar vislumbres de entendimento. É difícil, e o autor não está preocupado em te explicar – é quase que um passo de fé. Persevere e poderá vislumbrar a sua genialidade. Em vários momentos, duvidei da minha inteligência…
A segunda metade do livro traz uma enxurrada de personagens, e o mistério em si parece meio esquecido no meio de tanta informação, tramas políticas, traições, tentativas de assassinato, combinações e conspirações. Mas, como já havia persistido, consegui acompanhar todos os caminhos.
Os personagens são frios, distantes, mas acredito que a ideia de Periféricos seja mesmo nos fazer pensar sobre os muitos caminhos que podemos escolher, avaliar os erros, e entender que nossas escolhas nos trouxeram a este presente. Ainda que uma leitura difícil, em alguns momentos até mesmo impalatável, aborda os muitos mundos que podem existir, com uma crítica feroz sobre a sociedade. O autor é tão genial que a bagunça do enredo até passa despercebida, com arcos que se encerram sem muita profundidade, mas com tantas discussões que até se torna um passeio glorioso. Não é para os fracos – e talvez mesmo os fortes não saiam inteiros.











