Pieces of a Woman é um filme do diretor Kornél Mundruczó, mais conhecido pela repercussão de Deus Branco, e que vai discutir perda e superação.

O longo acompanha a trajetória do casal Martha (Vanessa Kirby) e Sean (Shia LaBeouf), prestes a ter o primeiro filho. O casal optou pelo parto assistido, em casa, e quando entra em trabalho de parto, uma doula é chamada. Mas a situação se complica, e o bebê não resiste. A partir daí vamos acompanhar o luto dos dois, com uma sobreposição fotográfica ao clima, já que a estória se inicia no final da primavera, e chegando rapidamente ao inverno.

O primeiro ato traz um plano único de cerca de 20 minutos justamente no trabalho de parto, quando Sean e Martha passam por todo o atordoamento de do momento. É possível perceber como os dois esperaram por isso, e de como Sean se vê impotente com o desdobrar dos acontecimentos. A doula não era a primeira opção do casal, mas vai conseguindo dar confiança, e o foco nesse primeiro momento acaba criando laços entre o espectador e os três personagens.

PIECES OF A WOMAN

É quando Vanessa Kirby brilha – não é por menos o prêmio de Melhor Atriz do Festival de Veneza 2020. Ela consegue infundir toda a angústia no momento do parto, passado a trazer um olhar perdido, sem saber o que fazer após perder seu bebê. E mais uma vez a fotografia dá sua contribuição, quando as plantas da casa murcham e vão permanecendo por ali, e mesmo suas unhas bem-feitas começam a descascar – sim, detalhes pequenos, mas que fazem tanto sentido num luto tão doloroso.

Resta saber de quem é a culpa. Primeiro dela, por se sentir menos ao não conseguir ter seu bebê no colo. Depois, principalmente porque a mãe de Martha se mostra mais combativa, a culpa recai sobre a parteira. E a perspicácia do primeiro ato nos torna testemunhas de todo o ocorrido, e tomamos partido.

É um luto tocante, apático, que chega a causar incômodo – e que para mim, soou forçado. É uma dor paralisante, que tem reflexos em seu casamento. E aí entramos na atuação de Shia LaBeouf, cujos caminhos foram escolhas óbvias demais – se volta para o alcoolismo e consumo de drogas, bem como um relacionamento extraconjugal – a meu ver – forçado.

Muitas metáforas entremeiam Pieces of a Woman: seja a ponte em construção na qual Sean trabalha, e que pretendia atravessar com a filha, seja a maçã, que surge quando Martha sente esse cheiro na filha, até quando coloca sementes para germinar, e que vão ainda surgir como árvores no final do filme.

Uma discussão sobre o tempo do luto, sobre caminhos, sobre a perda da mãe, e também do pai, da família, da doula, todos passando pelo luto a sua maneira, mas sempre sozinhos.
Muitos pontos que poderiam ser melhor aproveitados, mas que acabaram sendo suplantados pelo brilhantismo do momento inicial que não teve fôlego para entregar um final à altura.

Pieces of a Woman traz uma história universal, ao expor a forma como cada um passa pelo luto, como a mulher se sente diminuída ao não ‘cumprir’ seu papel na sociedade, e de como buscar a justiça pode ser diferente para cada um. E sobre sororidade – afinal, são as mulheres que brilham em Pieces of a Woman. E somente elas poderão juntar seus pedaços!

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Pieces of woman

Data de lançamento: 4 de setembro de 2020 (mundial)
Disponível: Netflix
Elenco: Vanessa Kirby, Shia LaBeouf, Ellen Burstyn
Duração: 2h6min
Gênero: Drama
Diretor: Kornél Mundruczó
Roteiro: Kata Wéber