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Resenha do livro A cabeça cortada de Dona Justa, de Rosa Amanda Strausz

Resenha do livro A cabeça cortada de Dona Justa, de Rosa Amanda Strausz

Uma história de amor envolvendo crenças religiosas, família, poder, ancestralidade em uma escrita envolvente e cativante. O livro A cabeça cortada de Dona Justa, é perfeito para entrar no realismo fantástico. Dona Justa, é, com certeza, uma personagem encantadora.

A cabeça cortada de Dona Justa

Autoria:
Rosa Amanda Strauz

Editora:
Rocco

Ano de lançamento:
2022

Gênero:
Fantasia / Ficção / Literatura Brasileira / Romance

Páginas (nº):
256

Resenha do livro A cabeça cortada de Dona Justa

O livro A cabeça cortada de Dona Justa, da autora fluminense Rosa Amanda Strauz já ganhou pontos comigo por ser nacional e se passar no Rio de Janeiro. Apesar de ter tido leituras muito boas, essa foi a leitura mais envolvente que eu tive este ano. Rosa me cativou nessa narrativa falando sobre uma sesmaria que foi cedida por um português há muitos anos para um cirurgião-barbeiro francês, após alguns de seus serviços com a Dona Justa, sua companheira. No entanto, a narrativa é contada sobre a perspectiva da própria Dona Justa mostrando toda a sua árvore genealógica e em como ela está “morta”. Apesar de não ser exatamente morta, como pensamos. Não ainda, e tudo o que aconteceu em sua vida até chegar na sesmaria que amaldiçoada, já que nenhuma plantação vinga, nenhuma galinha põe ovos e é completamente infestada de cobras.

A narrativa inicia com a Dona Justa mostrando uma senhora de 72 anos, chamada Margarete, ou Margô, recebendo uma carta de uma propriedade (herança) deixada para ela e animada para um encontro que ocorrerá entre as elas para falarem um pouco da dívida de sua família que já dura 150 anos.  Margô, tentada a descobrir qual o paradeiro desta sesmaria que foi deixada para ela, decide ir visitar o lugar. Antes de aprofundar, é importante mencionar que a Margô vive tendo sonhos estranhos com sua boca sendo invadida com gosto de pedra de barro. Mas essa informação só faz sentido quando você lê o livro e percebe o porquê desses sonhos.

Eu confesso que as primeiras páginas de A cabeça cortada de Dona Justa já me convenceram de que seria uma boa leitura, porque eu queria entender o que estava acontecendo e em como a narradora iria se encontrar com a Margô (camaradas, e que encontro, viu). Após chegar na fazenda, ela sente que tem algo de estranho naquele lugar, assustadoramente estranho. Mas decide seguir os seus instintos e ir atrás de mais informações.

“Vai começar a chover.
Vai começar a chover.
E o rio vai encher.
Aí, o rio vai encher”

pag. 17
Resenha do livro A cabeça cortada de Dona Justa

Árvore genealógica: a linhagem de Dona Justa  

O livro, A cabeça cortada de Dona Justa, é divido em várias partes que se conectam no fim. É aquele momento em que sua cabeça quase explode e você fica incrédulo com os acontecimentos e só consegue pensar “sim, agora tudo isso faz sentido”. Principalmente no momento em que aparece Mudinha e sua filha, Benzadeus. Pode ser que em algum momento o leitor ache uma informação meio dispersa, mas ela sempre serve para algo mais a frente durante o livro.

Apesar de não ser explícito, eu senti que cada parte retrata sobre alguma dessas benzedeiras e as tradições que passam de gerações em gerações. Além disso, separar várias histórias que se cruzam depois, fez com que o livro não ficasse cansativo e mais atraente para você entender como que todas essas narrativas se entrelaçam no momento final.

No início do livro tem uma árvore genealógica que mostra como que cada parente da Dona Justa nasceu. Assim, o leitor não fica perdido e compreende a ausência de alguma informação que não é posta.

Uma coisa para tomar cuidado durante a leitura é com as personagens que aparecem, pois, como se trata de uma árvore genealógica, aparece várias pessoas que você precisa se atentar para não confundir ninguém durante a leitura. Mas como no início, ao lado da planta da sesmaria tem as datas de nascimento e falecimento, descendentes, etc, facilita bastante.

“Tem gente que diz que a cidade é amaldiçoada porque nasceu grudada na Fazenda Policarpo. Nada que presta nasce lá, nenhuma plantação vinga, nenhuma galinha bota ovos grandes. Tudo é mesquinho e mirrado.”

pág. 58
A cabeça cortada de Dona Justa

Quem comandava a sesmaria em A cabeça cortada de Dona Justa

Como dito anteriormente, que a sesmaria foi doada ao cirurgião-barbeiro francês, chamado de Mossiê. Ele tinha muitos planos com aquelas terras, apesar de ela não parecer muito frutífera. O livro se passa no período colonial, então, aparece algumas questões sobre a colonização e escravidão. Tanto, que além das terras, o Mossiê recebe alguns escravizados para trabalhar em sua plantação. Nesses momentos, percebe-se uma visão muito colonial e em como o francês, só tratava os escravizados bem, porque a Dona Justa cobrava e reprimia suas atitudes. Apesar de todos os seus esforços para manter a plantação, o casal percebe que nenhuma plantação vinga naquele lugar.

Acreditando que seria uma boa ideia, o Mossiê decide ir atrás de um capataz chamada Policarpo, que é experiente com plantações de café. Tudo parecia estar perfeito, se não fosse o receio da Dona Justa, que sempre ajudava os escravizados, e todos que vivem ali na fazenda. Mas o francês não se importou. Com a chegada do capaz, alguns escravizados começaram a sumir, eram tratados de uma forma horrível, o que não agradava a benzedeira, que tentava aconselhar seu companheiro.

Com o tempo, vendo tudo o que estava se passando naquele ambiente, a Dona Justa decide construir seu próprio espaço, afastada da fazendo para fazer suas coisas e manter-se segura de quem quer que fosse. Dona Justa foi muito certeira em construir esse lugar, porque ele vai ser o único espaço que não será amaldiçoado.

“A autoridade espiritual ou moral de uma pessoa não precisa de reverências para ser legitimada. Ela se revela sozinha”

pág. 103
A cabeça cortada de Dona Justa de Rosa Amanda Strausz

Os escravizados na sesmaria do francês

Com a ida dos escravizadas para à fazenda, aparece uma personagem muito interessante (a minha preferida da narrativa) e que logo tornou-se grande amiga de Dona Justa: a curandeira Iyalodê, sacerdotisa de Daomé, sempre disposta a ajudar os seus, além disso, e é possível ver que todos os escravizados têm uma grande admiração por ela.

Durante a leitura, uma parte que chamou bastante a minha atenção foi a forma em como as duas curandeiras se davam bem e puderam trocar experiências e costumes. Eu gostei muito de ver as juntas. No momento em que o Policarpo põe suas mãos em Iyalodê, desrespeitando (calma, isso não é spoiler!) a sacerdotisa, é a terra que acaba pagando o preço, e, consequentemente, Dona Justa, já que ela também era dona das terras, e suas futuras gerações. No entanto, muitas coisas acontecem e, é claro, que a curandeira não abandonou a sua amiga. Tanto que ela sempre esteve presente e ajudou bastante, mesmo quando ela se foi.

Após esse ato do capataz e mais algumas situações, a fazenda foi infestada por cobras, começou a chover sem parar e nenhuma plantação vingou naquele lugar.

Durante 150 anos, todas as sete gerações de Dona Justa deixaram sua marca por onde passaram e todas puderam seguir em paz. Branca, Dona Cria, Mudinha, Benzadeus, Jurema e Bento foram muito bem construídos. Apesar de não ter gostado muito do desfecho que a autora deu para Benzadeus, era uma personagem que poderia ter sido muito bem elaborada e desenvolvida. Da mesma forma Bento, mas, no mais, todas as gerações foram essenciais para a construção da narrativa de A cabeça corta de Dona Justa.

Por isso, mesmo com o rosto contraído de dor, em vez de baixar a cabeça, como faziam os cativos assustados, olhou fundo nos olhos do homem. E o que havia no fundo de seus olhos era o fogo de muitas gerações de sacerdotisas, uma força sobrenatural, capaz de fazer até mesmo um brutamontes como Policarpo hesitar.

Pág. 150
Resenha do livro publicado pela Editora Rocco

As manifestações na sesmaria

Durante a leitura, fica logo evidente que Policarpo queria a Fazenda do francês, mas falta de aviso não foi. Tudo o que aconteceu com o fazendeiro, já tinha sido avisado pela Dona Justa. Então, já era de se esperar que muitas coisas ruins pudessem acontecer com ele. Eu não me senti mal pelo personagem, porque deu para perceber que ele não era uma boa pessoa. O fazendeiro não me desceu desde o seu aparecimento, quando ele começou a ter algumas atitudes com alguns escravizados foi a gota d’água para eu não gostar dele.

Mas de um modo geral, a autora falou de assuntos tão importantes! Falou de culturas diferentes, tradições, em como o amor pode cegar às vezes, mas é importante manter os seus valores. O valor da família e de manter quem você ama por perto, respeitar as pessoas, além da religiosidade que é muito presente na narrativa. Enfim, é um livro que eu claramente indico para as pessoas e para quem quer se aventurar no mundo do realismo fantástico brasileiro.

Dona Justa e Iyalôde entraram na minha lista de personagens preferidos. Gostei muito de como ambas foram construídas, apesar de que eu também senti falta de um aprofundamento nas tradições da curandeira. Mas as partes que ela aparece e ensina algo para Dona Justa sempre é impecável. Não vou cansar de dizer que A cabeça corta de Dona Justa foi a melhor leitura que eu tive este ano.

Ivalodê. Tornei a ouvir a risada da sacerdotisa e meu coracão voltou a disparar. Assim como muitos cativos, a filha do Daomé trazia marcados no rosto e no corpo os sinais que distinguiam seu povo. No caso dela, além das marcas tradicionais, havia também as da iniciação religiosa. E eram justamente aquelas marcas que estavam estampadas no tecido da pequena bolsa que
Pedro me entregara.

Pág. 165
Contracapa do livro A cabeça cortada de Dona Justa

Sobre a autora de A cabeça cortada de Dona Justa

Com uma escrita muito fluída e super cativante, Rosa Amanda Strausz instiga o leitor para esse mundo do realismo fantástico. A autora nasceu em Niterói e, atualmente, vive no Rio de Janeiro. Este foi o primeiro livro dela que eu li, e realmente foi uma leitura muito boa. Eu fiquei impressionado na forma como a escrita, mesmo sendo uma história que se passa séculos atrás, foi bem leve e muito acessível para quem quer começar a ler sobre realismo. Eu comecei a leitura e nas primeiras páginas já queria terminar a leitura. Fazia muito tempo que eu não lia um livro tão bom e tão instigante. Ainda sobre a autora, ela formou-se em Jornalismo pela UFRJ. É escritora, editora e apesar de não ter lidos outros livros, já quero saber mais sobre sua escrita.

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