Em Amanhã Amanhã e Ainda Outro Amanhã, Sam e Sadie vão se encontrar e reencontrar, uma amizade cheia de altos e baixos, videogames e muita nostalgia
Um dos grandes hypes de 2022 – e que está sendo transformado em longa-metragem pela Paramount – Amanhã, Amanhã, e Ainda Outro Amanhã, da autora Gabrielle Zevin (tradução Carol Christo) e publicado pela Editora Rocco, é quase um romance de formação, acompanhando a relação de amizade entre Sadie e Sam por cerca de 30 anos – tudo começou com um hospital e um jogo de videogame.

Amanhã, Amanhã, e Ainda Outro Amanhã
- Autoria:
- Gabrielle Zevin
- Editora:
- Rocco
- Ano de lançamento:
- 2022
- Gênero:
- Ficção / Literatura Estrangeira / Romance
- Páginas (nº):
- 400
- Título original:
- Tomorrow, and tomorrow, and tomorrow
A história vai acompanhar Sam Masur e Sadie Green, dois estudantes universitários no final do século XX: ele é um estudante de matemática de Harvard, ela, de Ciência da Computação no MIT. Os dois se encontram na estação de trem, quando, por um impulso, e em nome dos velhos tempos, Sam decide chamar pela amiga. Eles não se falavam desde a infância…
Os dois se conheceram quando tinham 11 anos na sala de jogos de um hospital. Sadie estava visitando a irmã, e Sam, se recuperando do acidente de carro que matou sua mãe e o deixou com o coração partido e o pé em pedaços. Desde o acidente, ele não conversava com ninguém, mas não resistiu a uma companhia para jogar Super Mario Bros.
Semanas se passaram, e os dois seguiam jogando e conversando. Até que Sam descobre um dos motivos desse interesse, se ressente e rompe a amizade. Vão se reencontrar anos depois, na estação de trem.
É amanhã, amanhã, e ainda outro amanhã. É a possibilidade de renascimento infinito, de redenção infinita. A ideia de que, se você continuar jogando, pode ganhar. Nenhuma perda é permanente, porque nada é permanente, nunca.

RESENHA DO LIVRO AMANHÃ, AMANHÃ, E AINDA OUTRO AMANHÃ DE GABRIELLE ZEVIN
Sam e Sadie descobrem que o que os uniu – os jogos – ainda são um elo forte. Os dois estão cursando as disciplinas finais, Sadie comenta sobre um jogo que fez em uma disciplina, e os dois vão pensando em pontos que gostariam de encontrar – é o início de Ichigo, um jogo que venderia muito e transformaria a vida deles para sempre.
Tendo como aliado Marx, o colega de quarto de Sam, os amigos vão se tornar sócios, e a partir daí, vamos ver o relacionamento dos três entrar numa espiral de encontros e desencontros, sempre tendo como conexão os jogos – mais que isso não posso te contar!
Eu não sou exatamente uma fã de games – sou do tempo do Atari, e passar para uma manete com mais que um botão foi demais para minhas habilidades (não ria, pode ferir meus sentimentos). Talvez por isso tenha ficado bem receosa para ler esse livro. Entretanto, o hype permaneceu, e não resisti. A primeira coisa que tenho para te contar é que, se você também não é um entendido desse mundo, não vai ter problema em se conectar com o conceito do livro
– Sammy – Sadie começou. Nós estávamos juntos. Não é possível que você não saiba disso. Quando sou sincera comigo mesma, as partes mais importantes de mim eram suas.

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Amanhã, amanhã e ainda outro amanhã trata muito da construção dos jogos, desde a concepção teórica, até visual. Mas não exagera, de tal forma que é possível acompanhar. A autora é fã de games, então é fácil de entender tanto da construção quando do sentimento para quem gosta desse mundo. É tão bem-feito que me senti com vontade de jogar, principalmente Ichigo.
Aliás, as discussões que a autora traz são fantásticas. Lembre-se que é uma história que começa no final do século passado. A presença feminina era bem reduzida, com certeza não por falta de vontade, mas pela irrelevância que se dava às mulheres. Tanto que Ichigo é um personagem que Sam e Sadie não sentiram necessidade de definir o gênero, mas que, após fazer sucesso, foram pressionados a definir como menino, afinal, “jogos com protagonistas femininas não vendem”. Ainda, Sam sempre recebia mais atenção que Sadie, como se ele, e apenas ele, fosse o criador. Isso a frusta, se torna um peso, e ela demora muito até mesmo a perceber esses sentimentos. São as primeiras fissuras no relacionamento dos dois.
Também tem a questão da identidade cultural de Sam e Marx, ambos asiático-americanos mestiços. Mesmo Marx sendo mais descolado, ambos compartilham um sentimento de não pertencer a lugar nenhum: nos EUA são vistos como orientais, mas eles já não têm nenhuma relação com a terra de seus pais.
Ele olhou para Sadie e pensou: É isso que é uma viagem no tempo. . É olhar para uma pessoa e vê-la no presente e no passado ao mesmo tempo. E esse meio de transporte só funcionava com aqueles que conheciam por um tempo significativo.

O LIVRO É UM ACONCHEGO, UMA POSSIBILIDADE DE RECOMEÇOS
Preciso falar de Marx. É ele a cola que mantém a Jogo Sujo – empresa fundada por eles – e os amigos juntos. É um personagem leve, atento, fiel. Sabe aquele amigo que a gente quer por perto? Ele sabe dos problemas de saúde de Sam, e fica atento a ele; é quem intercede em caso de desavenças entre os dois amigos; é quem tem um olhar afiado para descobrir novos parceiros. O arco dele é um dos mais emocionantes do livro.
E por falar na saúde de Sam, outra discussão levantada: ele tem muitos problemas com sua autoestima relacionados a sua deficiência. Seu pé, após o acidente, precisou de muitas cirurgias, e chegou um momento que ele não quis mais. Se retraiu, se fechou, nem mesmo Marx conseguiu tirá-lo de sua concha, e isso teve um impacto significativo na forma como se permitiu se relacionar com Sadie.
Amanhã, amanhã e ainda outro amanhã é um livro que foi me conquistando aos poucos, que foi me fisgando de tal forma que, depois de pouco tempo, não consegui largar mais. Luto, deficiência, dependência emocional, relacionamentos homoafetivos, saúde mental, é a história de um garoto e uma garota que não é um romance, ainda que romântica. Sobre dores, desafetos, as mudanças e os recomeços – como um jogo, sempre é possível recomeçar! Recomendo, porque é uma das minhas leituras favoritas desse ano!










