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A GUERRA DA PAPOULA TRAZ O LADO SOMBRIO DO SER HUMANO

A GUERRA DA PAPOULA TRAZ O LADO SOMBRIO DO SER HUMANO

A Guerra da Papoula traz a história de uma garota que traz um olhar sem filtros sobre a brutalidade da guerra e da violência e como suas consequências deixam um efeito duradouro em gerações.

Primeiro volume da trilogia de mesmo nome, o livro de estreia da autora R.F. Kuang, uma fantasia adulta inspirada na história militar da China, nos conflitos sino-japoneses e na ascensão de Mao Tse-Tung ao poder, resultando numa estória sangrenta e apaixonante. Eleita pela revista Time como uma das cem melhores fantasias de todos os tempos, chegou ao Brasil pela Editora Intrínseca.

A Guerra da Papoula

 

Autoria:
R. F. Kuang

Editora:
Intrínseca

Ano de lançamento:
2022

Gênero:
Fantasia

Páginas (nº):
512

Título original:
The Poppy War
Classificação indicativa: +18
Aviso de conteúdo: Capacitismo, Abuso (emocional e físico), Vício, Crueldade com animais, Assédio moral, Drogas, Genocídio, Massacre, Misoginia, Assassinato (incluindo crianças), Racismo, Estupros com descrição gráfica, Estupros de menores, Automutilação, Tortura, violência (inclusive contra crianças), Guerra, Classicismo, Colonização.

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PERSONAGENS DE A GUERRA DA PAPOULA

Fang Runin, ou Rin, é uma garota de pele escura que foi criada por pais adotivos no sul do Império Nikara, num vilarejo do interior. Ela trabalha na loja da família – que vende, entre outras coisas, ópio – e quer muito mudar de vida, acima de tudo quando sua ‘família’ decide que um casamento arranjado é uma ótima forma de se livrar da menina.

Entretanto, Rin tem outros planos. Ela pretende integrar a Academia Militar em Sinegard, um centro de formação de soldados para o exército imperial. Para isso, precisa passar pelo Keju, um teste dificílimo e, como ela não tem recursos para se preparar, convence um professor a aceita-la como aluna. Passa noites em claro numa preparação contínua, e consegue a maior nota do vilarejo. Ela é admitida na academia, ainda que tentem acusá-la de trapacear.

Apesar de acreditar que sua vida seria melhor depois de ingressar na Academia, Rin vai descobrir que sua condição social e a cor da sua pele continuarão sendo motivo de preconceito por parte de seus novos colegas. Entretanto, ela é resiliente, e acaba descobrindo, junto ao professor mais esquisito da academia, que ela pode ter um poder adormecido dentro de si, mas que despertar esse poder pode ter sérias consequências.

O Keju não significa nada declarou Rin, mordaz. – É só um ardil para manter os camponeses sem educação onde sempre estiveram. Se você passar no Keju, então encontram uma maneira de expulsar você, de qualquer forma. O Keju mantém as classes mais baixas anestesiadas. Deixa a gente sonhar. Não é uma maneira de subir na escada social, é uma maneira de manter pessoas como eu no lugar em que nasceram. O Keju é como uma droga.

RESENHA DO LIVRO A GUERRA DA PAPOULA DE R.F. KUANG

RESENHA DO LIVRO A GUERRA DA PAPOULA DE R.F. KUANG

O livro traz unicamente o ponto de vista de Rin, uma protagonista que cresce muito ao longo das páginas. Ela é uma típica anti-heroína, uma órfã que foi criada por uma família cruel. Para escapar desse destino, ela manipula um professor para lhe dar aulas particulares. Na Academia, enfrenta todo o preconceito com obstinação, e se mostra disposta a sacrificar o que for para se graduar. A Autora já comentou em entrevistas que Rin é uma representação de Mao Zedong, filho de um próspero camponês, que fundou a República Popular da China e cujo governo foi responsável por muitas mortes, com estimativas variando de 40 a 80 milhões de vítimas. Rin é uma alma imperfeita pela qual é fácil torcer, especialmente porque é crível, qualquer um de nós poderia cometer os mesmos erros adolescentes.

Gosto do mundo cinza da autora, com uma gama de personagens que caminham numa linha tênue entre o bem e o mal. Um personagem que te cativa logo no início pode tombar com a perda gradual de seus ideais, ao mesmo tempo que temos arcos de redenção que me levaram a torcer por personagens que odiei por grande parte do livro. Essas surpresas são bem-vindas, e dão muito frescor e fluidez.

Entre os outros personagens, quero citar Jiang, um professor bem insano (só conseguia pensar no Mestre dos Magos e suas frases sem sentido), Nezha (filho de uma tradicional casa militar, treinado para ser o melhor, mimado e preconceituoso), Altan (melhor aluno da academia, nunca perdeu uma luta), Kitay (aluno que se aproxima de Rin, e que traz muitos pontos de comparação entre a vida dos dois, com boas discussões sobre meritocracia). A maioria dos arquétipos escolares comuns (valentão, mimado, personagem rival, professor aparentemente louco etc.) estão lá apenas para serem subvertidos.

A Sinegard de Kitay era cheia de maravilhas, completamente acessível e cheia de coisas que pertenciam a ele. A Sinegard de Kitay não era assustadora, porque ele tinha dinheiro. Se tropeçasse, metade dos donos de loja da rua iriam ajudá-lo, torcendo para receber uma gorjeta generosa. Se alguém afanasse suas moedas, ele voltaria para casa e pegaria outra bolsa. Kitay podia ser uma vítima da cidade, porque tinha o luxo de fracassar.

R.F. KUANG autora do livro RA GUERRA DA PAPOULA

UMA CONSTRUÇÃO HSTÓRICA ROBUSTA

Não é novidade que a autora se inspirou na história militar da China, mas fiquei tão impressionada que fui pesquisar. Foi fácil perceber que a Primeira e a Segunda Guerras da Papoula foram inspiradas nas Guerras do Ópio; o Império Nikara seria a representação da China; Speer pode ter sido inspirado por Taiwan (aliás, parece que Kuang usa Speer como um exemplo sobre como territórios individuais são tratados como peças de xadrez por burocratas governamentais); a Federação de Mugen é o Japão imperial, os Hesperianos são europeus e a Terceira Guerra da Papoula é a Guerra Sino-Japonesa/Segunda Guerra Mundial, quando o Japão invadiu a China. Quando temos todo esse painel histórico, o livro ganha mais profundidade ainda.

Aliás, a maior parte dos gatilhos desse livro são inspirados justamente no que ficou conhecido como o Massacre de Nanquin. As cenas mais brutais foram, nas palavras de Kuang, “retiradas diretamente dos livros de história”. O estupro de Nanquim é muitas vezes referido como “O Holocausto Esquecido” porque não foi falado até os anos 1980 e 1990. Em um período de 6 semanas, mais de 300.000 soldados e civis chineses foram torturados, estuprados e assassinados na cidade de Nanquim. Assustador sobrepor os horrores descritos no livro como sendo uma representação de fatos. Imaginar que seres humanos fizeram aquilo, é de embrulhar o estômago. E, ainda que esses eventos sejam tratados com respeito e sejam uma parte importante e necessária da narrativa, os leitores provavelmente terão dificuldade em tirar este livro da cabeça.

Além do aspecto histórico, temos o sistema mágico de Kuang, com xamãs usando transe e narcóticos para atrair deuses com a finalidade de emprestar alguns de seus poderes, muitas vezes a um preço terrível.

Porém, Rin conhecia a verdade agora, e aquilo lhe dava poder.

Contracapa do LIVRO A GUERRA DA PAPOULA DE R.F. KUANG

UMA FANTASIA ADULTA IMPECÁVEL – AINDA BEM QUE TEMOS MAIS DOIS LIVROS PELA FRENTE

Aproximadamente a primeira metade do livro se passa na academia militar, onde os alunos aprendem cinco matérias, entre elas estratégia, tradição e treinamento em artes marciais. O livro tem um salto temporal, e três anos depois chegamos à segunda metade do livro, com muitas cenas de impasses políticos e batalhas. O livro explora a corrupção do poder, o desejo da vingança e as partes mais sombrias da humanidade, com um retrato muito real de atrocidades, dependência de drogas e genocídio. Entenda que minha intenção ao reforçar esses pontos não seja para afastar o leitor. Pelo contrário, é um livro com um quê de educativo, acima de tudo quando nosso momento atual traz à tona tanto ódio. Precisamos sempre estar atentos ao que aprendemos ao longo de nossa história.

Por tudo isso, A Guerra da Papoula é uma fantasia moderna, adulta e avassaladora. Kuang tem um estilo descritivo e narrativo impecável, ao mostrar vários lados de uma questão, sem tentar persuadir o leitor sobre qual caminho é o certo. Existe um? A conexão que criamos com os personagens é forte, e o impacto dos acontecimentos ao longo do livro vai colocar à prova essa ligação. E se está procurando romance… Rin ama e luta pelo amor, mas não há romance.

Enfim, achei o livro perfeito, e não vejo a hora de ler a continuação, A República do Dragão. É impressionante saber que se trata de um livro de estreia, e com certeza pretendo ler mais obras da autora. Inclusive, a editora já anunciou Babel, uma fantasia em volume único, também para esse ano. Kuang parece não ter limites…

A guerra não determina quem tem razão. Ela determina quem sobrevive.

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