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ENCARCERADOS – JOHN SCALZI | RESENHA

21 outubro, 2019 por

 ENCARCERADOS - JOHN SCALZI

Encarcerados é um livro de ficção científica, publicado originalmente em 2014 pela Tor Books sob o título de Lock In. Em 2018 o mesmo chegou as livraria Brasileiras pela mãos da Editora Aleph  e desde então vem conquistando fãs de sci-fi. Encarcerados é o primeiro livro da Série Lock In, que já conta com três volumes. Foi escrito por John Scalzi, um dos principais nomes da ficção científica contemporânea, ganhador dos prêmios Hugo e Locus. Em 2015, ele fechou um contrato com a Tor Books para publicar 13 livros em 10 anos.

Com grande público, fãs e crítica, Scalzi é colocado no mesmo patamar do maestral Michael Crichton (que já apareceu por aqui) e outros grandes escritores de sci-fi. Assim, ele nos traz um mundo que é distópico, em teoria, mas que também nos parece muito próximo, por motivos diferentes. Talvez por abordar assuntos muito atuais, como inteligência artificial, robótica e relacionamento humano com autômatos.

“Meu segundo dia no trabalho começou com mais sangue do que eu poderia prever.”

 ENCARCERADOS - JOHN SCALZI

Além disso, somos apresentados a uma nova doença: a Haden. Derivada da Gripe Comum, a Haden é uma doença que matou milhões de pessoas e deixou outros milhões presos no próprio corpo, uma vez que ela promove a perda de movimentos, “desconectando” o cérebro do resto do corpo do paciente. O corpo funciona normalmente, cumprindo suas funções fisiológicas básicas, mas não responde mais ao sistema nervoso e, por isso, esse estágio da doença é chamado de “encarceramento”.

Os acontecimentos de Encarcerados se dão anos após a descoberta da doença e grandes avanços médicos e científicos para que se pudesse lidar com os efeitos da melhor forma possível. O resultado é uma sociedade em que seres humanos coexistem com robôs, feitos para dar movimento e uma vida normal aos portadores da Haden. Chamados de C3, em homenagem ao ciborgue mais conhecido e amado da ficção (o C3PO de Star Wars), esses robôs/ciborgues povoam a sociedade do livro com tranquilidade.

“Meu pai lida com milionários e bilionários diariamente, o tipo de gente que tem egos do tamanho da sociopatia […] O tipo de pessoa que acredita que é o predador alfa perambulando em um universo de ovelhas. Meu pai os leva até a sala de troféus e seus olhos ficam do tamanho de pires de tão arregalados, e eles percebem que qualquer merda que estejam fazendo é uma ninharia se comparada ao que meu pai já fez. […] É por isso que mamãe, quando quer ser indiscreta, refere-se à sala de troféus como “consultório do veterinário”. Porque é onde o meu pai leva as pessoas para arrancar as bolas delas.”

O personagem principal, Chris Shane, é um dos afetados pela doença. E ele também é, agora, um agente do FBI. Encarcerados tem início juntamente com seu novo emprego. O que nos leva a, sim, um romance policial. No começo, fiquei um pouco receosa com a mistura de gêneros. Mas claramente o autor domina tudo com perfeição. O roteiro, porém, pode ser um pouco previsível: padrão de romances policiais. Toda aquela coisa de mistério, assassinato, conexões com outros fatos, perigos, tiros, ligar os pontos.

Por outro lado, Encarcerados inova com a junção do roteiro policial em um universo distópico e tecnológico. Além disso, a forma como Scalzi retrata essa nova sociedade e conduz a história ocorre de forma muito natural e, como consequência, a ambientação do leitor se dá de uma forma quase instantânea. E digo isso porque é muito comum começarmos um novo livro num novo universo e, por algum tempo, ficarmos perdidos e sem entender muito bem como tudo funciona.

“Fazer as pessoas mudarem porque você não pode lidar com quem elas são não é o caminho. O que precisa ser feito é que as pessoas parem de olhar apenas o próprio rabo. Você diz “Cura”. Eu ouço “Você não é humano o bastante”.

Contudo, assim que comecei Encarcerados e à medida que fui lendo, percebi o quanto as minhas dúvidas foram completamente sanadas antes mesmo de eu poder pensar muito nelas. Assim que eu começava a pensar “mas e…”, a resposta já estava ali, prontinha. Por isso, a leitura flui de uma forma muito fácil e em um ritmo bem rápido. Às vezes, demoro um pouco para pegar o ritmo de um livro e o começo costuma ser um pouco arrastado. Mas, nesse caso, fui bastante surpreendida porque em pouco mais de uma hora e meia consegui chegar em quase metade do livro.

A parte interessante nisso tudo é que, apesar de a história progredir rapidamente tanto no ritmo de escrita quanto no fluxo de acontecimentos, o autor consegue conduzir tudo de forma que não deixa a sensação de estar faltando algo, ou de estar acontecendo tudo rápido demais. E, inegavelmente, esse é um traço de escrita muito importante que Scalzi é capaz de trazer à narrativa. Em momento nenhum tive a impressão de estar em um momento estagnado, em que a história se arrasta.

“Ninguém pediu para ficar preso no corpo. Sei que eu não pedi. Eu era um adolescente quando fiquei doente, e todas as coisas que eu amava fazer foram tiradas de mim. […] Mas, quando continuei, comecei a perceber que a Haden não era uma sentença de morte. Era apenas outra maneira de viver. Comecei a ver beleza do mundo que nós, hadens, estávamos criando, milhões de nós, em nossos espaços e da nossa maneira.”

 ENCARCERADOS - JOHN SCALZI

Acima de tudo, é importante lembrar que Encarcerados também traz grandes discussões não apenas sobre a interação e o relacionamento entre seres humanos e autômatos, o uso de IA e tecnologia, mas também sobre políticas públicas. De forma sutil, Scalzi fala do preconceito, da violência e da dificuldade que as pessoas com deficiências vivem. Ele ainda consegue casar todo o seu enredo com personagens profundos e muito ricos em representatividade, sob a forma de uma nação indígena, sexualidade diversificada e mulheres poderosíssimas.

De forma envolvente, ele costura tudo isso com um cenário futurístico bizarro e uma investigação policial. O resultado é um livro muito envolvente e extremamente bem escrito. E, acredito que por tudo isso, devo um “muito obrigada!” a John Scalzi. Não apenas pela boa leitura, mas pelos temas atuais e pertinentes que traz. Pela representatividade que tantos livros se esquecem de trazer. Mas acima de tudo, pela forma natural com que é capaz de falar sobre todos esses temas.

Um ponto ligeiramente negativo que marcou um pouco a história, para mim, é que o livro parece um pouco roteirizado. Talvez tenha sido já intencional da parte do autor, mas muito me soou como um livro já pronto para ser adaptado por Hollywood. O que, obviamente, eu adoraria! Mas enquanto livro, talvez isso tenha deixado os detalhes sobre sentimentos e expressões um pouquinho rasos. Ainda assim, não é algo que prejudique ou atrapalhe a leitura. Fica mais como um detalhe, mesmo.

O final, porém, deixa um pouco a desejar. Poderia ter sido melhor trabalhado. Ficou para o finalzinho de Encarcerados , mesmo, a resolução dos crimes e dos problemas enfrentados. Podia ter sido melhor. Podia ter ganhado uma atenção maior. O gancho para outros volumes já estava presente, mesmo ali, mesmo sem um suspense final de “será que isso vai ser resolvido?”. E, naturalmente, e não fiquei surpresa ao descobrir que outros dois livros da série já foram publicados pela Tor Books (mas ainda não chegaram ao Brasil).

Mesmo que pudesse ter melhorado um outro aspecto da narrativa, John Scalzi entrega um trabalho excelente. A leitura cumpre o seu papel de divertir e distrair, mas não para por aí. Causa reflexões e sentimentos controversos, traz a atenção do leitor para problemas atuais e contextualizados. E, ainda, se supera na criação de um universo próximo ao nosso, mas completamente único. Não existe um ponto de “mas”, não existe crítica ruim quanto ao livro. Scalzi, mais uma vez, surpreende e brilha em uma história completa e complexa.

“ – Não é um protesto eficaz se não tirar as pessoas do sério.”

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Título: Encarcerados
Autor: John Scalzi
Editora: Aleph
Número de Páginas: 328
Ano de Publicação: 2018
Gêneros: Drama, Ficção científica, Romance policial
NOTA: 5/5
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6 Comentários

  • Mara Santos
    novembro 05, 2019

    Não sou muito de ler livros deste gênero, mas sempre me chama a atenção. Esse me chamou muito a atenção, a história parece ser incrivel. Dica mais do que anotada!!

  • PS Amo Leitura
    novembro 01, 2019

    Gente, que leitura incrível. Já tinha visto algumas pessoas falando dele, mas nunca parei para realmente ler uma resenha. Acho ótimo quando estamos pensando em algo e a resposta está logo ali, na nossa frente. Isso vale muito a pena! Anotei a dica 😉

    Beijos,

  • Marijleite
    outubro 30, 2019

    Oi, amei conferir sua opinião, ótima resenha. A capa desse livro me chama a atenção mas eu ainda não sabia sobre o que era, achei super interessante essa coisa das pessoas encarceradas, com um corpo e cérebro que não “conversam” mais, fiquei bem curiosa para fazer a leitura.

  • Kênia Cândido
    outubro 28, 2019

    Olá tudo bem?

    Este é um livros que tenho muita vontade de ler e sempre fico adiando a compra dele. Especialmente por ter um cenário policial e distópico. Adorei saber que a leitura diverte e surpreende. Vou tentar adquiri-lo o mais rápido possível.

    Bjos

  • Apesar de não ser um estilo de leitura que costumo fazer, as poucas que fiz amei. Esse tipo de enredo estimula o leitor a refletir sobre assuntos do seu dia a dia e em como a tecnologia poderia ajudar, melhorando ou não essa realidade. Amei a dica e quem sabe ano que vem eu não embarque em enredo mais a esse estilo. Amei suas impressões. Parabéns pela leitura.

  • Michelle
    outubro 26, 2019

    Olá, a obra é novidade para mim, mais gostei muito da abordagem, de forma geral me parece um livro bem completo, dica anotada por aqui!