Flores para Algernon é um livro clássico, nascido de um conto publicado em 1959 e transformado em um romance, já em 1966. Ganhador de prêmios e adaptado três vezes para filmes e uma vez para um drama japonês, apenas em 2018 o livro ganhou sua tradução para o português e foi lançado pela Editora Aleph.

Eu poderia escrever uma resenha imensa, com detalhes, spoilers e citações e mesmo assim, nada poderia preparar os leitores para o choque e o estado de arrebatação em que entramos ao ler o livro de Daniel Keyes. O que podemos presenciar nessas páginas é uma história comovente.

Embora no começo de Flores para Algernon possa ser até irritante tentar ler com os erros de grafia do personagem, rapidamente me afeiçoei a Charlie. Escrito na forma de diário e do ponto de vista do protagonista, o mergulho em sua mente é inevitável. E a profundidade que podemos extrair disso é enorme, delicada e, honestamente, cruel.

De fato, após o estranhamento inicial da leitura, passamos a um ponto de imersão na realidade de Charlie, uma pessoa com grande deficiência intelectual. E passamos a perceber como todos nós, enquanto sociedade, tratamos pessoas assim. O coração fica em pedaços quando vemos Charlie chamar de amigos as pessoas que zombam dele diariamente.

QUOTE FLORES PARA ALGERNON

Em contrapartida, Charlie é doce, amigável e honesto, o que nos aproxima mais do personagem de forma a enxergá-lo melhor. Sem o véu de sua falta de intelecto para nublar a paisagem. Facilmente percebemos, com essa leitura, o quanto podemos julgar alguém por fatores que fogem à responsabilidade da própria pessoa.

Tanto quanto é amável, o protagonista é também esforçado. Mais do que qualquer coisa, Charlie deseja ser inteligente. Desde muito pequeno acostumado a ouvir que precisava se esforçar, aprender e evoluir, ele vincula todos os seus problemas à deficiência. Frequentemente, repete que tudo será diferente quando for inteligente.

Não apenas esforçado, como também corajoso, ele opta por fazer a cirurgia proposta. O resultado é imprevisível, visto que é um experimento. Mas nesse ponto, já estamos envolvidos demais no livro e passamos a torcer por Charlie. Torcer para que a cirurgia funcione e ele possa ser a pessoa inteligente. Torcer para que ele passe a ser respeitado e tratado da forma correta, por seus “amigos”, empregadores e mesmo pelos médicos do experimento.

Sem dúvida, Flores para Algernon é completamente viciante. Depois que se pega o ritmo, o que mais queremos é saber mais, não apenas sobre o experimento, mas sobre a vida de Charlie. Quais suas próximas atitudes? Como sua mente pode se ampliar? Que nível de inteligência e conhecimento ele pode atingir?

A capacidade de gerar empatia que o autor consegue trazer é fascinante. Nos coloca em uma posição de grande reflexão sobre a sociedade, sobre nós mesmos e sobre nossos comportamentos enquanto seres humanos. Mesmo 50 anos depois, o tema ainda permanece muito atual e relevante.

Em sua nova persona, após a cirurgia, Charlie ainda é capaz de despertar essa empatia. Começamos a ver o mundo de sua nova perspectiva e, eventualmente, somos ultrapassados por ele em inteligência. Em meio às novas emoções e percepções do personagem, é fácil notar que a inteligência emocional nem sempre acompanha o progresso intelectual.

Apesar de o conhecimento ajudar Charlie a perceber melhor o mundo ao seu redor e mostrar-lhe a verdadeira face das pessoas com quem convivia, ao mesmo tempo, o conhecimento também abre uma porta de infelicidade em seu mundo. A incompreensão por parte dos outros, o isolamento e a solidão são dolorosos. Visto que as pessoas geralmente têm medo do que não compreendem, é assim que o dócil Charlie passa a ser visto: com temor.

Em suma, acompanhamos sua progressão através das páginas. Sua escrita se modifica, os erros ortográficos somem, dando lugar à sentenças bem estruturadas. Sua mente se modifica. Traumas do passado vêm à tona e nosso protagonista passa a lutar com algo completamente diferente da deficiência intelectual, um novo tipo de rejeição.

Seja como for, o romance de Daniel Keyes é uma das obras mais tocantes que já li e, sem dúvidas, me tirou completamente da minha zona de conforto. Apesar de muito fluida, a leitura não é leve. Não é fácil. Flores para Algernon É um livro denso, profundo e melancólico. Impossível terminar a leitura sem se sentir absolutamente devastado e sem ar.

________________________________________________________________________________________________________________

Título: Flores para Algernon
Data da primeira publicação: abril de 1959
Autor: Daniel Keyes
Número de páginas: 288
Gêneros: Conto, Ficção científica, Romance epistolar, Romance psicológico
Adicione à sua lista no Skoob
Onde comprar: Amazon