1984, de George Orwell, foi o livro que me apresentou o significado do gênero ‘distopia’. Conheci o livro no início dos anos 2000, e lembro-me que devorava a edição emprestada por um amigo (o mesmo já se perdeu com o passar dos anos), entre as viagens de ônibus coletivo por Curitiba a fora.

O mais interessante nisso tudo é o motivo de eu ter me interessado por essa leitura, sendo que nunca havia ouvido falar no autor ou na obra. Quer saber? Simplesmente porque eu nasci no ano de 1984. Motivo bobo, né? Ainda mais quando se descobre depois que o livro foi escrito em 1948 – e esse título se dá pela inversão dos dois últimos algarismos!

“Guerra é Paz. Liberdade é Escravidão. Ignorância é Força.”

George Orwell nos coloca em contato com a ideia de uma “agência nacional”, chamada de o Grande Irmão (Big Brother), que nos assiste – e nos escuta – o tempo todo. Temos regras a serem seguidas de forma rígida, mediante correr sérios riscos se for comprovado o descumprimento de tais leis.

O Big Brother no caso possui dispositivos de altíssima tecnologia em cada lar, de cada cidadão. As guerras existem a todo tempo, e para todos os lados. E se não bastasse essa vigilância constante por meio da tecnologia, o condicionamento da mente dos vizinhos, colegas de trabalho, conhecido e/ou amigos os fazem eternos informantes.

Aprendemos em 1984 que a verdade é mutável. Ela é muito sensível àquilo que a “agência” acredita ser necessário para aquele momento. O que o Grande Irmão julgar ser a verdade pois a verdade se tornará automaticamente.

Documentos são reeditados, reimpressos, e reorganizados com alteração no que antes era verdade e hoje, já não existe mais. Fotos e fatos são adulterados, e à partir dessa alteração, virarão a nova verdade a qual se deve acreditar como verdade maior e absoluta. Quem comanda é o Ministério da Verdade, com seu ‘controle de realidade’.

“Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota prensando um rosto humano para sempre.”

1984 - GEORGE ORWELL

Orwell nos mostrou que o Grande Irmão é onipotente e que esse ‘Partido’ é infalível. Não há como lutar contra, se posicionar ou mesmo se rebelar. Pois, você jurará de pé junto a verdade que a agência mandar você acreditar. Isso é irrevogável! Porém, para termos aquele equilíbrio, no romance 1984 nós temos Winston Smith, o nosso ‘herói’.

Ele vive em um mundo totalitário. Ele reescreve os artigos de jornais como meio de vida (para que as notícias sejam coerentes com o posicionamento do ‘Partido’). É através dos olhos de Winston que poderemos enxergar outras realidades dentro de toda a opressão causada pelo Big Brother.

Para ele, o óbvio e o verdadeiro deve ser defendido acima de tudo o mais. Ele acredita e defende a liberdade de escolha e de se acreditar, porque se sabe, que 2+2 = 4, mesmo que o ‘Partido’ te mande acreditar que 2+2 = 5.

Vivendo na chamada Oceania (os continentes foram realinhados e revididos na realidade de Orwell), Winston trabalha em contato com o Ministério da Verdade – aquele lugar onde tanto as datas como os fatos são manipuláveis conforme a verdade da vez.

O que podemos enxergar a qualquer tempo nessa distopia, é que o passado ficará sempre sendo lembrado como um período de escuridão e um lugar muito ruim para se estar. E que graças a atuação do ‘Partido’, os dias atuais são um bom lugar para poder se viver (mesmo que tudo seja escasso – roupas, alimentação, liberdade de ir e vir e falar…).

“Liberdade é a liberdade de dizer que dois mais dois são quatro.”

Em 1984 Orwell buscou escrever sua figura de um führer infalível, já que o mundo estava permeado por seres como Stalin e Hitler. O autor acreditava que estávamos sempre tendo que nos encaixar em uma verdade proferida por pessoas com características desses dois supracitados. O romance de Orwell acabou por se tornar uma espécie de manual que expõe situações como o totalitarismo, a força da mídia em manipular a opinião pública e a história, bem como a ‘verdade’, e o constante estado de vigilância sobre a população.

Não podemos deixar de ressaltar, ou esquecer, a todo tempo que 1984 é uma obra ficcional. Uma história realmente impressionante, e que embora tenhamos a impressão de ser um romance profético, nada mais é que a concatenação de ideias de um autor que usava o pseudônimo George Orwell.

“A massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa.”

 

Em 1984 Winston e sua amada/amante Julia, buscam a chamada liberdade através de atos considerados como rebelião pelo ‘Partido’. Através de uma narrativa contagiante e envolvente, Orwell consegue prender a atenção do leitor à suas páginas, pois quase acreditamos estarmos lendo uma obra de não-ficção.

Seria seu manifesto? Talvez. Só consigo perceber que 1984 foi contundente em 1949 (quando foi lançado), ele me impressionou no início dos anos 2000 (no fim da minha adolescência), e ele continua sendo extremamente real, possível e atual há poucos dias do ano 2020. Duvido que o autor sequer imaginou a expressão que sua obra poderia alcançar e o quanto poderia perdurar.

Em um mundo onde o ‘Partido’ controla e doutrina tudo, não há muito o que se esperar. E eu que já li e li de novo essa obra, sempre me pego ansiosa pelas decisões e escolhas de Winston, bem como de Julia também. Quem começa se rebelar secretamente, acaba por ser investigado e exposto.

E o que poderá acontecer com nosso protagonista uma vez que sua rebeldia o coloca super próximo de pessoas diretamente ligadas com o que ele mais repudia? Por mais que Winston se questione, e busque se lembrar o que realmente é real nesse mundo que é reescrito e reeditado a todo tempo, isso será possível? Ou ele será condenado pelos crimes de pensamento?

“Em geral, quanto maior a compreensão, maior o engodo; quanto maior a inteligência, menor a saúde mental.”

“O método final do Partido para destruir o pensamento não-ortodoxo é limitar a própria linguagem, e Orwell se deleita com os verbos e substantivos viscerais que o Partido não permite. Para mim, o que é mais fascinante em 1984 é a maneira como nos mostra quão dependentes somos da linguagem para nossa memória e compreensão coletiva, e o poder da linguagem para empoderar. 1984 nos deu um novo vocabulário para identificar e resistir ao controle político da informação, com termos como polícia do pensamento, Big Brother, pensamento duplo e crime de pensamento.” (Por Caroline Norrington, em tradução livre)

Assim, finalizo por aqui essa resenha a respeito de uma das obras de ficção mais influentes escrita na história conhecida. Esse é um dos livros que cito quando me perguntam: Se você pudesse escolher só um livro para ser impresso no mundo, qual seria?

Em suma, a resposta é 1984 por sua importância, por seu valor contemporâneo e quase futurístico. Por ser a obra de um autor que enxergou um mundo praticamente possível, sem ter ferramentas para isso. Leiam 1984, e debatam 1984.

“O Grande Irmão está de olho em você.”

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Título: 1984
Autor: George Orwell
Ano: 2009
Páginas: 416
Editora: Companhia das Letras
Gênero: Distopia, Ficção, Literatura Estrengeira
Nota: 5/5
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