“Laranja Mecânica” é um dos meus clássicos favoritos e acredito que deveria estar na lista de muita gente. Longe de ser um livro superficial, aborda temas fortes e reflexivos, além de ser uma exemplar crítica social em vários aspectos. Uma história que influencia e é referenciada até hoje na cultura popular.

Alex DeLarge é um jovem de 15 anos que faz parte de uma gangue de delinquentes londrinos, seus drugues. Com Georgie, Pete e Tosko, ele comete crimes de ultraviolência pelas noites da cidade, dentre eles roubo, agressão, estupro e assassinato. Sempre sob o efeito de drogas sintéticas (ingeridas no leite), o grupo é extremamente agressivo e sem freio.

Porém, um dos ataques acaba dando errado e Alex é preso. No presídio é usado como cobaia em um novo tratamento, que promete a cura da violência juvenil. Sendo assim, ele é forçado a assistir, imobilizado, cenas de extrema violência equanto recebe injeções de substâncias que causam enjoo. O objetivo do tratamento Ludovico, como é chamado, é condicionar Alex a sentir aversão a tudo que remeta a agressividade.

LARANJA MECÂNICA - ANTHONY BURGESS

Após o fim do tratamento e dos testes, Alex é libertado e precisa se adaptar à sua nova condição. Mas ele agora é praticamente um zumbi, sem controle de suas ações. Nem mesmo escutar Beethoven, de quem sempre foi grande admirador, ele consegue. Qual então é o preço da paz? É correto anular todas as escolhas de alguém para garantir que ele não escolha o mal?

Dividido em três partes, “Laranja Mecânica” é contado em primeira pessoa pela visão de Alex. Na primeira é feita a descrição das ações da gangue, então cuidado com detalhes em cenas fortes caso tenha problema com isso. Na segunda, temos o relato do período de Alex na prisão e a descrição das bizarras sessões do tratamento Ludovico. Já na terceira parte, temos a libertação do jovem e sua “reintegração” na sociedade.

Todos os personagens são muito bem trabalhados e descritos, a começar por Alex, cujo nome vem do latim “a-lex” (sem lei). A gangue utiliza uma linguagem peculiar, uma gíria dos adolescentes chamada de nadsat, que possui palavras que misturam o inglês e o russo. Então, como a história é contada por Alex, é normal ficar confuso e não entender o que ele diz.

LARANJA MECÂNICA - ANTHONY BURGESS

Acredito que essa tenha sido a intenção do autor, criar incômodo e uma enorme estranheza no leitor em relação aos jovens delinquentes. Ao final do livro existe um glossário com significado de todas as palavras utilizadas, mas eu sinceramente acho que ele não deve ser consultado, para uma melhor experiência. Até porque, Alex repete várias vezes algumas expressões e você passa a compreendê-las no decorrer da história. Um paralelo bem interessante com o desenvolvimento do próprio protagonista, que inicialmente você não compreende e sente repulsa, mas pode chegar até a se sensibilizar por ele.

“Laranja Mecânica” é uma crítica social em várias camadas. A principal delas é ao Behaviorismo, área de estudo da Psicologia usada como base para criação do Tratamento Ludovico. De acordo com o Behaviorismo, o livre arbítrio não existe, pois nossas escolhas não são totalmente determinadas por nossa vontade. São influenciadas pelo meio em que vivemos (cultura, ciclo familiar, genética…).

Ao tirar o livre arbítrio de Alex, foi tirado o seu direito de escolher o mal, porém ele também perdeu a capacidade de escolher o bem. Somos todos fruto de nossos erros e acertos, aprendemos com nossas falhas e através delas descobrimos o correto. Mas Alex não pode fazer isso. Suas atitudes eram extremamente repulsivas e dignas de punição, mas essa deveria mesmo ser sua anulação completa? Não existe oportunidade para o aprendizado ou amadurecimento, apenas o condicionamento?

Isso tudo remete ao maravilhoso título do livro: Laranja Mecânica. Uma expressão cockey (dialeto Londrino) que significa bizarro, estranho. Ao associar a laranja, algo natural e vivo, a uma condição mecânica, temos como resultado algo controlado, que não pensa por si mesmo. Uma união que causa anulação de características.

O autor também critica em sua obra a superlotação e violência encontradas por Alex dentro do presídio, que por si só já comprometeriam sua correção e reabilitação. Aborda ainda a relação do jovem com seus pais e sua criação permissiva. Sendo assim, eis a questão mais uma vez: seria a anulação e condicionamento dos jovens a única alternativa, ou outros fatores poderiam ser analisados?

Escrito em 1962 por Anthony Burgess, “Laranja Mecânica” faz parte das consideradas quatro principais distopias: “1984” de George Orwell, “Fahrenheit451” de Ray Bradbury e “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley. O autor escreveu o livro intencionalmente dividido em 21 capítulos, uma referência à maioridade e amadurecimento. Porém, sua editora não achou o último capítulo “coerente” e o publicou sem ele. Em 1972, foi criada a icônica adaptação cinematográfica do diretor Stanley Kubrick, e ele também seguiu a história dos 20 capítulos por acreditar estar completo. Mas depois se pronunciou dizendo não concordar com o que acontece no capítulo 21.

O filme é um marco e é muito fiel à obra. Dificilmente eu digo que um filme é tão bom quanto livro, mas este certamente é o caso. No entanto, esteja preparado. Se o livro é forte e violento, o filme consegue ser muito mais! Ele foi indicado a quatro categorias do Oscar, três do Globo de Ouro e sete do BAFTA.

Em 2012 foi publicada pela Editora Aleph essa edição lindíssima em comemoração aos 50 anos da história. Com vários extras, texto completo, diagramação impecável, capa dura e uma jacket linda e resistente, o livro é com certeza um item indispensável para os fãs do gênero.

“Laranja Mecânica” é narrado em uma época imprecisa, mas não muito distante da nossa. No entanto, se formos considerar que foi escrito há mais de 50 anos, vemos como suas questões são atemporais.

São várias as referências feitas até hoje à história e com certeza isso continuará. Por exemplo: alguns episódios de “Os Simpsons” onde Bart é comparado a Alex; o álbum da banda Sepultura chamado “A-lex” e o da cantora Lana Del Rey chamado “Ultraviolence”; palavras de nadsat na letra de “Girl Loves Me” do David Bowie; o clipe “Welcome To The Jungle” da banda Guns n’ Roses; além do relato do ator Heath Ledger de ter se inspirado no personagem principal para compor seu premiado Coringa de “Batman, o Cavaleiro das Trevas”.

Então deixo para vocês a indicação e os questionamentos: está certo o que foi feito com Alex? Privá-lo de suas escolhas seria a única forma de garantir que ele não fosse violento? Com a justificativa de paz, é certo tirar o livre arbítrio de alguém?

“É melhor ser mau a partir do próprio livre arbítrio do que ser bom por meio de lavagem cerebral científica”.

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Laranja Mecânica

Título: Laranja Mecânica
Autor: Anthony Burgess
Ano: 2012
Páginas: 352
Editora: Editora Aleph
Gêneros: Ficção científica, Literatura Estrangeira
Esta edição especial de 50 anos em capa dura e impressa em duas cores (preto e laranja), inclui:
Ilustrações exclusivas de Angeli, Dave McKean e Oscar Grillo
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