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LARANJA MECÂNICA – ANTHONY BURGESS | RESENHA

24 dezembro, 2019 por

LARANJA MECÂNICA - ANTHONY BURGESS

“Laranja Mecânica” é um dos meus clássicos favoritos e acredito que deveria estar na lista de muita gente. Longe de ser um livro superficial, aborda temas fortes e reflexivos, além de ser uma exemplar crítica social em vários aspectos. Uma história que influencia e é referenciada até hoje na cultura popular.

Alex DeLarge é um jovem de 15 anos que faz parte de uma gangue de delinquentes londrinos, seus drugues. Com Georgie, Pete e Tosko, ele comete crimes de ultraviolência pelas noites da cidade, dentre eles roubo, agressão, estupro e assassinato. Sempre sob o efeito de drogas sintéticas (ingeridas no leite), o grupo é extremamente agressivo e sem freio.

Porém, um dos ataques acaba dando errado e Alex é preso. No presídio é usado como cobaia em um novo tratamento, que promete a cura da violência juvenil. Sendo assim, ele é forçado a assistir, imobilizado, cenas de extrema violência equanto recebe injeções de substâncias que causam enjoo. O objetivo do tratamento Ludovico, como é chamado, é condicionar Alex a sentir aversão a tudo que remeta a agressividade.

LARANJA MECÂNICA - ANTHONY BURGESS

Após o fim do tratamento e dos testes, Alex é libertado e precisa se adaptar à sua nova condição. Mas ele agora é praticamente um zumbi, sem controle de suas ações. Nem mesmo escutar Beethoven, de quem sempre foi grande admirador, ele consegue. Qual então é o preço da paz? É correto anular todas as escolhas de alguém para garantir que ele não escolha o mal?

Dividido em três partes, “Laranja Mecânica” é contado em primeira pessoa pela visão de Alex. Na primeira é feita a descrição das ações da gangue, então cuidado com detalhes em cenas fortes caso tenha problema com isso. Na segunda, temos o relato do período de Alex na prisão e a descrição das bizarras sessões do tratamento Ludovico. Já na terceira parte, temos a libertação do jovem e sua “reintegração” na sociedade.

Todos os personagens são muito bem trabalhados e descritos, a começar por Alex, cujo nome vem do latim “a-lex” (sem lei). A gangue utiliza uma linguagem peculiar, uma gíria dos adolescentes chamada de nadsat, que possui palavras que misturam o inglês e o russo. Então, como a história é contada por Alex, é normal ficar confuso e não entender o que ele diz.

LARANJA MECÂNICA - ANTHONY BURGESS

Acredito que essa tenha sido a intenção do autor, criar incômodo e uma enorme estranheza no leitor em relação aos jovens delinquentes. Ao final do livro existe um glossário com significado de todas as palavras utilizadas, mas eu sinceramente acho que ele não deve ser consultado, para uma melhor experiência. Até porque, Alex repete várias vezes algumas expressões e você passa a compreendê-las no decorrer da história. Um paralelo bem interessante com o desenvolvimento do próprio protagonista, que inicialmente você não compreende e sente repulsa, mas pode chegar até a se sensibilizar por ele.

“Laranja Mecânica” é uma crítica social em várias camadas. A principal delas é ao Behaviorismo, área de estudo da Psicologia usada como base para criação do Tratamento Ludovico. De acordo com o Behaviorismo, o livre arbítrio não existe, pois nossas escolhas não são totalmente determinadas por nossa vontade. São influenciadas pelo meio em que vivemos (cultura, ciclo familiar, genética…).

Ao tirar o livre arbítrio de Alex, foi tirado o seu direito de escolher o mal, porém ele também perdeu a capacidade de escolher o bem. Somos todos fruto de nossos erros e acertos, aprendemos com nossas falhas e através delas descobrimos o correto. Mas Alex não pode fazer isso. Suas atitudes eram extremamente repulsivas e dignas de punição, mas essa deveria mesmo ser sua anulação completa? Não existe oportunidade para o aprendizado ou amadurecimento, apenas o condicionamento?

Isso tudo remete ao maravilhoso título do livro: Laranja Mecânica. Uma expressão cockey (dialeto Londrino) que significa bizarro, estranho. Ao associar a laranja, algo natural e vivo, a uma condição mecânica, temos como resultado algo controlado, que não pensa por si mesmo. Uma união que causa anulação de características.

O autor também critica em sua obra a superlotação e violência encontradas por Alex dentro do presídio, que por si só já comprometeriam sua correção e reabilitação. Aborda ainda a relação do jovem com seus pais e sua criação permissiva. Sendo assim, eis a questão mais uma vez: seria a anulação e condicionamento dos jovens a única alternativa, ou outros fatores poderiam ser analisados?

Escrito em 1962 por Anthony Burgess, “Laranja Mecânica” faz parte das consideradas quatro principais distopias: “1984” de George Orwell, “Fahrenheit451” de Ray Bradbury e “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley. O autor escreveu o livro intencionalmente dividido em 21 capítulos, uma referência à maioridade e amadurecimento. Porém, sua editora não achou o último capítulo “coerente” e o publicou sem ele. Em 1972, foi criada a icônica adaptação cinematográfica do diretor Stanley Kubrick, e ele também seguiu a história dos 20 capítulos por acreditar estar completo. Mas depois se pronunciou dizendo não concordar com o que acontece no capítulo 21.

O filme é um marco e é muito fiel à obra. Dificilmente eu digo que um filme é tão bom quanto livro, mas este certamente é o caso. No entanto, esteja preparado. Se o livro é forte e violento, o filme consegue ser muito mais! Ele foi indicado a quatro categorias do Oscar, três do Globo de Ouro e sete do BAFTA.

Em 2012 foi publicada pela Editora Aleph essa edição lindíssima em comemoração aos 50 anos da história. Com vários extras, texto completo, diagramação impecável, capa dura e uma jacket linda e resistente, o livro é com certeza um item indispensável para os fãs do gênero.

“Laranja Mecânica” é narrado em uma época imprecisa, mas não muito distante da nossa. No entanto, se formos considerar que foi escrito há mais de 50 anos, vemos como suas questões são atemporais.

São várias as referências feitas até hoje à história e com certeza isso continuará. Por exemplo: alguns episódios de “Os Simpsons” onde Bart é comparado a Alex; o álbum da banda Sepultura chamado “A-lex” e o da cantora Lana Del Rey chamado “Ultraviolence”; palavras de nadsat na letra de “Girl Loves Me” do David Bowie; o clipe “Welcome To The Jungle” da banda Guns n’ Roses; além do relato do ator Heath Ledger de ter se inspirado no personagem principal para compor seu premiado Coringa de “Batman, o Cavaleiro das Trevas”.

Então deixo para vocês a indicação e os questionamentos: está certo o que foi feito com Alex? Privá-lo de suas escolhas seria a única forma de garantir que ele não fosse violento? Com a justificativa de paz, é certo tirar o livre arbítrio de alguém?

“É melhor ser mau a partir do próprio livre arbítrio do que ser bom por meio de lavagem cerebral científica”.

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Laranja Mecânica

Título: Laranja Mecânica
Autor: Anthony Burgess
Ano: 2012
Páginas: 352
Editora: Editora Aleph
Gêneros: Ficção científica, Literatura Estrangeira
Esta edição especial de 50 anos em capa dura e impressa em duas cores (preto e laranja), inclui:
Ilustrações exclusivas de Angeli, Dave McKean e Oscar Grillo
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7 Comentários

  • Kathlen Oliveira
    janeiro 05, 2020

    Oi,
    Primeiramente esta edição é uma lindeza! Não li esse livro, não tive a oportunidade ainda, porém ao longo do ano, estudando para vestibulares, vi várias redações citando esse livro e o quão perfeitamente ele encaixa em temáticas pertinentes.
    Após a leitura da sua resenha e a bagagem que trago sobre ele, espero em breve realizar a leitura dessa obra.
    Beijos, Kathlen.

  • Debora Sapphire
    janeiro 05, 2020

    Adorei saber que esse clássico: Laranja Mecânica, é um dos seus favoritos! Além de estar longe de ser um livro superficial, pois aborda temas reflexivos e fortes. Acho isso ótimo! Essa é primeira vez em que eu leio algo contando mais a fundo sobre a narrativa dessa obra, e fiquei bem interessada. Vou procurar conferir depois sim.

  • Alice Mendes
    janeiro 05, 2020

    Oi oi,
    Eu sempre li resenhas da obra, porém, nunca entendia direito sobre o que se tratava a história em si. Fiquei extasiada em como o autor pode ser detalhista em cenas fortes (como a injeção de drogas e algumas “torturas). Não sei se leria a obra, mas fiquei muito chocada com a forma que a sua resenha foi minimalista e sem dar spoiler. Não pretendo ler o livro nesse momento, mas vou lembrar da sua resenha quando for ler futuramente.

  • Rafaella Viegas
    janeiro 05, 2020

    Oiii tudo bem??

    Acredita que nunca li e nem vi o filme??
    Adquiri essa edição linda a pouco tempo e estou bem ansiosa para realizar essa leitura.
    Adorei sua resenha e me convenceu ainda mais.
    Bjs Rafa

  • Maria Valéria
    janeiro 02, 2020

    Olá, Karina. Eu tenho essa mesma edição da Aleph. É realmente linda e maravilhosa… Mas curiosamente ainda não li por ela.

    Li emprestada de uma amiga ainda quando fazia faculdade e posteiormente reli numa edicao de biblioteca. Acho que vale uma releitura, não só dele.mas tbm das outras distopias que vc mencionou, já faz muito tempo que visitei essas obras…

    Sua resenha ficou incrível. Parabéns…

    Bjs

  • […] LARANJA MECÂNICA – ANTHONY BURGESS | RESENHA […]

  • Carol Nery
    Carol Nery
    dezembro 26, 2019

    Embora a crítica acirrada a respeito do Comportamentalismo, foi em uma aula de Behaviorismo que eu conheci essa obra. Uma das distopias da minha vida, só perde para 1984 (que foi meu primeiro contato com o gênero!)…
    Devo confessar que através desta obra as portas da teoria psicológica foram abertas para mim. Assim descobri que sim, era o caminho que mais me adequava.
    Voltando à crítica que é o mote da obra, meu ponto de vista é que as pessoas precisam decidirem por si só seu caminho, seus erros e acertos, através do amadurecimento ou falta dele. Essa maturidade forçadamente científica não funciona. Esse tipo de condicionamento beira ao criminoso. E Alex, com apenas 15 anos, e todo danificado por diversos fatores externos (bem como internos), se torna vítima do método Ludovico. Algo que marcou sua existência.
    ARRASOU na resenha e nas informações extras. Eu sou apaixonada com as edições da Aleph. Vontade mesmo é de ter uma de cada…