Mailing do blog

Assine e receba novidades

A SONATA PERFEITA – ROSE TREMAIN | RESENHA

A SONATA PERFEITA – ROSE TREMAIN | RESENHA

A Sonata Perfeita é um dos mais recentes lançamentos da Editora Darkside, da autora Rose Tremain, autora britânica cujos romances e contos já foram publicados em 27 países, e vai trazer uma história sensível sobre as consequências do passado, e acima de tudo sobre perdão, esperanças e amor.

A Sonata Perfeita

 

Autoria:
Rose Tremain

Editora:
Darkside

Ano de lançamento:
2020

Páginas (nº):
272

Gênero:
Ficção histórica, Drama
Sinopse: Para Gustav Perle, a vida deve ser vivida com reserva, autocontrole e, acima de tudo, neutralidade. “Você precisa ser como a Suíça”, diz sua mãe. “Você deve manter-se forte e corajoso. Assim, viverá do jeito certo.” Crescer na Suíça após a Segunda Guerra Mundial em um apartamento apertado não é fácil. E na companhia de sua mãe, que não consegue nutrir nenhuma espécie de afeto especial por ele, é ainda mais complicado. Gustav quer viver a vida que sempre sonhou. A vida de Anton Zweibel, por exemplo, seu mais novo colega de classe, um menino judeu que sonha em ser pianista. O selo que mais emociona os darksiders apresenta seu mais novo lançamento: A Sonata Perfeita, de Rose Tremain. Com a narrativa emocionante de Em Algum Lugar nas Estrelas, de Clare Vanderpool, e a ternura de Leve-me com Você, de Catherine Ryan Hyde, o livro chega para trazer ainda mais ternura para a marca DarkLove Classificação indicativa: +14

Gustav é um garotinho órfão de pai, que mora com sua mãe. Emilie Perle é uma mulher que traz cicatrizes profundas que a tornaram fria e desesperançada. Mesmo não conseguindo demonstrar afeto pelo filho, não lhe deixa esquecer duas coisas: o heroísmo do pai e a necessidade de ser tão neutro quanto a Suíça.

“Ele foi um herói, Emilie lhe lembrava todo ano. Eu não entendi no começo, mas ele foi um bom homem em um mundo horrível.”

Mas a falta de amor da mãe não impede que Gustav a ame muito, e nem que seja um garoto sensível. Tanto que, quando um novo colega – Anton – chega à escola e chora ao ser deixado pela mãe, entende que deve lhe ensinar que todos devem ser donos de si mesmo. Anton deixa de chorar. Não sabiam, mas nesse momento os dois garotos, de uma forma completamente fortuita, desenvolverão um laço para toda a vida.

“A vida inteira, Gustav se lembraria com clareza da primeira manhã com Anton.”

Livros LGBTQIAP+ incríveis que você precisa ler:

RESENHA DO LIVRO A SONATA PERFEITA DE ROSE TREMAIN

Entretanto Emilie não gosta desse novo amigo, já que Anton é judeu. Estamos em 1947, e a mãe deixa claro para o filho que foram os judeus os responsáveis por tudo de ruim que aconteceu à família. Anton é filho de um banqueiro, que foi transferido para essa cidade no interior da Suíça. Ao contrário de Gustav, tem pai e mãe que o apóiam, principalmente no seu amor pela música. E a família de Anton recebe com carinho Gustav, que passa a frequentar a casa dos Zwiebel. Ele gosta de apreciar Anton praticar ao piano e participa até de viagens de férias.

O livro se divide em três partes, e é na segunda que entendemos como Emilie se tornou amargurada. Vamos conhecer o pai de Gustav, que foi realmente um herói. Mas estavam na suíça, que temia tomar partido contra os alemães nazistas, e por isso fincou raízes na sua neutralidade.

“A Europa está em guerra. Justiça é uma palavra que está perdendo o sentido.”

A terceira parte do livro dá um salto no futuro, quando então os personagens serão confrontados com suas escolhas. Vão avaliar se os caminhos tomados levaram à felicidade, mas também vão ser equiparados com a possibilidade de tomar outra direção.

“Tempo. Quando você é jovem, acha que sempre terá tempo para fazer tudo que quiser. Você não percebe o tempo passando, esse é o problema. Mas ele passa mesmo assim.”

A NARRATIVA DA OBRA

A narrativa da Rose é extremamente cativante e flui bem desde o primeiro capítulo. Mas ela não deixa de trazer temas pesados, dolorosos. Enquanto acompanhamos a juventude de Anton e Gustav temos momentos mais leves, doces, até chegar no final da primeira parte com a interrupção de um sentimento que começa a florescer.

A segunda metade é a mais intensa… o pai de Gustav foi realmente um herói, mas num momento delicado e, por isso, a Suíça lhe vira as costas. Ao mesmo tempo, ele não é exatamente o melhor marido, mesmo que Emilie também estivesse mais interessada na estabilidade que ele lhe dava do que propriamente na relação amorosa. São dois adultos que vão se magoar muito! Emilie é amargurada, superficial, mas suas cicatrizes quase a abonam…

Achei incrível que, ao final da história, a autora menciona que Erich, o pai de Gustav, fosse inspirado na história de Paul Grüninger. Ele foi um policial suíço, comandante da polícia de St. Gallen, na Suíça que, em agosto e setembro de 1938, salvou cerca de 3.601 refugiados judeus dos nazistas na Áustria, permitindo-lhes entrar na Suíça.

Ela explica também que A Sonata perfeita nasceu de um conto, mas que ela sentiu que tinha muito mais a acrescentar a história de Gustav e Anton. Daí foi buscar a época e a posição incômoda que a Suíça tinha, neutra e aterrorizada pela possibilidade de uma invasão alemã.

“É função da polícia da fronteira impedir que as pessoas passem, mas as pessoas esquecem que os policiais têm sentimentos e condolência. Não somos máquinas calculadoras.”

A SONATA PERFEITA É UMA HISTÓRIA DE AMIZADE, LEALDADE, AMOR E MÁGOAS

A Sonata Perfeita trata de amizade, mas também da ambiguidade dos sentimentos que os garotos têm um pelo outro. Gustav reconhece a verdadeira essência de seus sentimentos mas fica ao lado de um Anton. Ele já é negacionista, se joga em seus vícios mas, sempre que está mal, volta para buscar o apoio incondicional que Gustav lhe oferece.

Um entende os sentimentos, mas se torna a Suíça, permanece neutro, mesmo que internamente sinta mais do que transparece. O outro, se joga nas paixões, não consegue se apresentar no palco, mas se ressente quando um aluno alcance patamares mais altos, e fica atrás de um sonho que ele nem sabe se é mais o dele!

A história vai acompanhar os personagens dos 6 aos 60 anos, e à amizade vão se acrescentando outros sentimentos como mágoa, esperança, ambição, conformismo, até chegarmos ao clímax, trazendo um final que não era exatamente o que eu esperava, mas que traz um conforto ao coração.

E assim, A sonata Perfeita finaliza com A sonata de Gustav, um romance terno, feroz, orquestrado pela autora com as mesmas partes de uma sonata: exposição, desenvolvimento e recapitulação, trazendo a pergunta sobre o que as pessoas, ou até mesmo um país, buscam de fato pela neutralidade e autodomínio, abrindo mão de paixão e de esperança…

“Eu a escrevi em uma noite horrível quando entendi todas as direções erradas que minha vida havia tomado e onde eu queria estar. Eu a chamei de A Sonata de Gustav.”

Comente este post!