Sombria e Solitária Maldição é o primeiro livro da trilogia Cursebreakers, que traz um reconto de A Bela e a Fera, da autora Brigid Kemmerer, publicado pela editora Plataforma 21, e que já conta com o segundo livro – Feroz e Dilacerado Coração publicado recentemente.

O Príncipe Rhen, do reino de Emberfall, está sob uma maldição: no dia do seu aniversário de 18 anos, uma feiticeira lançou um encantamento que condena o príncipe a reviver a mesma estação (os três meses de outono) do aniversário sucessivas vezes, terminando com a transformação dele em um monstro. Para quebrar a maldição, o príncipe deverá encontrar alguém que se apaixone por ele. Como já se foram mais de 300 estações, Rhen se encontra sem esperanças, uma vez que o monstro já causou muitas mortes, e se culpa por toda a tragédia que recaiu sobre seu reino.

“– Não é que eu não sinta nada – pauso. – Entretanto, o fracasso parece uma certeza tão grande que aprendi a me resguardar da decepção.”

Sombria e Solitária Maldição - Brigid Kemmerer

Quem busca as garotas a cada estação é Grey, o único que restou da Guarda Real, e que jurou lealdade a seu príncipe. Ele buscava jovens no próprio reino, mas depois passou a atravessar o ‘véu’ entre mundos, vindo parar em Washington D.C. É quando entra em cena Harper.

Harper nunca teve uma vida tranquila. A mãe está em estado terminal, e junto com o irmão, tentam se esquivar dos bandidos que procuram pelo pai desaparecido. Tem paralisia cerebral, que causou uma restrição de movimentos de um lado do corpo, mas vive sem maiores dificuldades. Em uma saída com o irmão, acaba se deparando um uma mulher sendo sequestrada, e resolve intervir – era Grey, em busca de mais uma mulher, e que acaba levando Harper.

Ela não entende nada: foi raptada para um lugar sem sinal de celular, num castelo cheio de comidas que aparecem do nada, roupas elegantes, e dois homens que parecem não entender que ela precisa voltar para a mãe e o irmão. Claro que ela tenta escapar, mas vai percebendo que precisará unir forças aos seus captores, deixando as diferenças de lado, se quiser de fato voltar para casa…

“Penso no que ele disse antes, como as escolhas que fazemos podem não ser as escolhas que desejamos, mas ainda assim são escolhas.”

Mapa Sombria e Solitária Maldição - Brigid Kemmerer

Eu gosto muito de ler recontos, e confesso que estava curiosa – afinal, ‘A Bela e a Fera’ não envelheceu tão bem, uma vez que a Síndrome de Estocolmo da personagem principal já não é tão encantadora aos olhos atuais. Ainda assim, estava bem curiosa, porque os elementos da estória sempre podem ser bem aproveitados.

Sombria e Solitária Maldição traz como premissa básica a maldição, mas logo no início temos seus pontos específicos. A começar pela Harper que, por conta da paralisia cerebral, é superprotegida pela família, o que acaba impedindo que ela demonstre sua verdadeira força. Em Emberfall, sem as amarras impostas pela família, ela desabrocha, e vai ganhando confiança ao longo da estória. E ela tem uma posição bem clara sobre suas restrições, aprendeu a lidar com o preconceito dos outros…

Rhen é o típico personagem melancólico, que carrega a dor do mundo nas costas, e que acaba se tornando frio, sem atitudes, se entregando à maldição. O que salva esse personagem amargurado é a figura de seu soldado mais leal – e único sobrevivente, Grey. Ele é aquele personagem que a gente se encanta rapidamente: leal até o último fio de cabelo, ainda que em alguns momentos tenha uma opinião diferente. Daí ser mais fácil ter empatia por Grey, do que pelo príncipe.

E é a presença da Harper que modifica essa relação entre os dois, já que ela não admite a apatia do príncipe, que acabou se afastando de todos, só esperando seus momentos finais. Ela vive em um mundo que tenta tolhê-la de todas as formas, mas segue adiante.

“Quando eu era pequena, ela me dizia que todos temos uma faísca dentro de nós, e nossas faíscas podem se encontrar, não importa onde estejamos.”

Sombria e Solitária Maldição - Brigid Kemmerer

Um ponto a mencionar é que, se estava esperando romance, temos bem pouco por aqui. A maldição, e depois uma trama política, são mais enfatizados na estória. A Harper não se apaixona perdidamente pelo príncipe, e nem se esquece da família, sempre colocando-os à frente. Os diálogos são divertidos, principalmente quando a Harper vai ‘desmontando’ o sisudo Rhen. E esse príncipe não é exatamente uma unanimidade, é difícil criar laços com ele. Apático demais, mereceu todos os chacoalhões que a Harper lhe deu.

Com exceção de Grey, os outros personagens secundários não aparecem muito além, claro, de Lilith, a feiticeira que amaldiçoou Rhen. Ela causa um medo desmedido, e as implicações ao final prometem muito para o próximo livro.

Sombria e Solitária Maldição é muito comparado a Corte de Espinhos e Rosas, e vale destacar que os dois são recontos de A Bela e a Fera. Portanto, já que se propõem a contar uma mesma estória, era de se imaginar que teriam pontos em comum.

Um calhamaço, mas com capítulos curtos, que torna a leitura bem fluida, é um livro indicado para quem gosta de fantasia, ou mesmo do conto original, e que mais promete que entrega no primeiro livro. Ainda assim, foi uma ótima experiência…

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Título: Sombria e Solitária Maldição
Autora: Brigid Kemmerer
Tradução: Carla Bitelli
Ano: 2020
Páginas: 504
Editora: Plataforma 21
Gênero: Fantasia
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