Distribuidora: Hulu | Temporadas: 01 | Status: Renovada | Gênero: Drama | Duração dos Episódios: 50 min | Ainda não está disponível em nenhum canal brasileiro (😭)

Esse ano foi lançada na plataforma americana Hulu (concorrente da Netflix) a brilhante série The Handmaid’s Tale, meu grande e maravilhoso destaque de 2017. Adaptação do livro homônimo de Margaret Atwood publicado em 1985, e lançado aqui no Brasil pela editora Rocco sob o nome de “O Conto da Aia“, a história choca ao tratar temas tão importantes e atuais de uma forma absurda, o que te sensibiliza ainda mais ao perceber que não é tão impossível assim.

A série tem como foco June, casada, tem uma filha, um emprego, amigos… uma vida. Acontece então uma transição no país (Estados Unidos) quando apenas 1% das mulheres permanecem férteis, gerando uma grande baixa no número de crianças da sociedade. É  instaurado então um regime totalitário chamado de Gilead onde todos os direitos das mulheres são retirados (direito ao trabalho, ao lar, à criação dos filhos…) e estas passam a ser propriedade do Estado, sendo divididas em Aias (mulheres férteis) e Marthas (mulheres inférteis) com a única e exclusiva função de servir às mulheres de seus líderes de governo. As Marthas são cozinheiras e domésticas, enquanto as Aias desempenham um papel de escravas sexuais, sendo obrigadas a manter relações sexuais com o líder para qual foram designadas até que consigam dar a ele um filho.

O conto da aia

E a situação ainda é bem pior, pois anuladas completamente elas perdem o direito até de ter um nome, como no caso de June que passa a ser chamada de Offred (Of Fred = De Fred) demonstrando ser posse do líder para o qual foi designada, o mesmo que acontece com suas amigas Ofwarren, Ofglen… A vestimenta obrigatória é vermelha e bem chamativa e um chapéu com o formato de uma viseira que as impede de olhar nos olhos de qualquer pessoa. As “celebrações” onde acontecem as relações sexuais obrigatórias são feitas com a Aia deitada no colo da esposa de seu “dono”, como se ela fosse apenas uma ponte entre eles, e o mesmo acontece durante o parto da criança onde a senhora se senta sobre os ombros de sua Aia e simula ela própria o parto. Toda a situação é controlada por um grupo armado chamado “O Olho” que está presente nas ruas e nas próprias casas dos comandantes, punindo e prendendo as desobedientes.

Além de machistaracista e homofóbico, o governo instaurado ainda é fortemente alienado em uma religião manipulada para favorecer os seus próprios interesses. Tudo é justificado como uma alternativa criada por Deus, e o sucesso dessa situação como uma benção dada por ele. Inclusive, das poucas frases permitidas ao vocabulário das Aias, todas são “religiosas”, como os cumprimentos: “Sob os olhos Dele“, “Abençoado seja o Fruto“, “Que o Senhor possa Abrí-lo“. Já a cerimônia de fecundação é justificada através da passagem bíblica do Antigo Testamento:
Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos, se não morro.  E ela disse: Eis aqui minha serva Bila; coabita com ela, para que dê à luz sobre meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela.” Gênesis 30:1:3

A série é fantástica! Dona de uma fotografia impressionante fica até difícil repassar em palavras a profundidade do sentimento de assistir estes 10 episódios (Ela já foi renovada para a 2° Temporada). Esta sociedade criada é um pesadelo principalmente para nós mulheres, é um alerta e uma fonte de coragem. Nós conseguimos acompanhar os momentos em que as mudanças começaram a acontecer, aos poucos, sem que elas tomassem conta da gravidade do que estava sendo gerado. Ver a mudança do mundo de June chegando discretamente nos faz questionar e atentar às mudanças que temos vivido hoje, sejam elas políticas, sociais ou ideológicas. E mais ainda, ver a união feminina, a tão procurada sororidade dos dias atuais, escancarada no universo deplorável é algo que nos faz enxergar na outra uma igual, merecedora de tudo que desejamos a nós mesmas.

É curioso e interessante observar que Margaret Atwood escreveu este livro em 1985 (85!!!). Percebemos através da história como este tema já era atual e necessário para ela. Mesmo antes da nossa época Trump/Bolsonaro (e nem vou continuar listar, pois acredito que você saibam) onde vivemos uma era de extrema intolerância às diversidades, as mulheres já lutavam pelo seu lugar, e muito do que temos hoje devemos às Margaret’s do passado. Feminista sim, e com orgulho! Esse nome não é e nunca foi pejorativo, nossa sociedade precisa aprender a lidar com generalizações desnecessárias. A luta das mulheres ainda não acabou.

Margaret Atwood no set de filmagens. Ela participou das gravações. 

Aguardem, pois a minha resenha do livro em breve estará por aqui. Por ora, assistam essa maravilhosa série que já chegou arrebentando e saiu vencedora da última edição do Emmy em todas as categorias que concorreu, com destaque para Elisabeth Moss (conhecida por Mad Men) vencedora como melhor atriz em série de drama, e a maravilhosa Alexis Bledel (conhecida pela Rory em Gilmore Girls) que interpretando Ofglen ganhou como melhor atriz convidada em série de drama tendo como foco especial o episódio onde ela leva nossas emoções ao limite estando amordaçada, sem dizer nenhuma palavra, apenas com o olhar. Além das duas, a série conta com outros excelentes atores (alguns até bem famosos) como a também premiada no Emmy Ann Dowd (Tia Lydia), Joseph Fiennes (Comandante Fred), Samira Wiley (Moira), Yvonne Strahovski (Serena Joy, esposa do comandante).

“Sob os olhos Dele!”