Digamos que vaze na internet a lista de compras do Stephen King ou uma receita de picadinho de carne que ele mesmo criou, talvez a sua lista de tarefas do dia, não importa o que seja, se foi o King que escreveu, irei ler e amar, é simples assim que funcionam as coisas entre nós dois. Todos os seu livros que li entraram para a minha lista de favoritos, e quando acho que já tenho meu favorito entre os favoritos, leio mais um e descubro que ele nunca vai parar de me surpreender e me tocar profundamente. A Zona Morta não me atraiu pela sinopse, confesso, não é a minha pegada temas sobrenaturais, mas ainda bem que ignorei totalmente isso e me permitir ler o livro confiando apenas na meu amor pelo autor, ainda bem.

– Vá pra o inferno! – ela disse em tom alegre. – E ninguém vive pra sempre.

“De vez em quando, nos anos que se seguiram, Johnny tinha pressentimentos – sabia qual seria a próxima musica no radio antes que o DJ tocasse, esse tipo de coisa -, mas nunca tinha relacionado aquilo com o seu acidente no gelo. Já tinha se esquecido dele.” Johnny quando criança caiu no gelo e bateu a cabeça, porem se esquece dele antes mesmo de completar o colegial, talvez graças a este acidente ele consiga sentir algumas coisas, nada de muita importância como adivinhar os próximos numero da loteria ou salvar o mundo, basicamente, ele é só um homem normal, professor do ensino médio, filho único, com um bom relacionamento com os pais, começando um relacionamento com uma professora do seu trabalho, bem humorado e considerado mais simpático do que bonito.

Entretanto um dia no parque a sua vida muda completamente, e ele começa a sentir as coisas de maneira muito mais claras, pulsantes e vivas, durante alguns instantes chega a pensar que é sorte, pois poderia até mesmo fazer algum dinheiro com isso, mas não muito tempo depois desse dia no parque, Johnny conclui que não é nem de longe um homem sortudo e sim amaldiçoado. No caminho de volta, ele sofre um acidente quase fatal de carro e fica 4 anos e meio em coma, contrariando as expectativas de todos John acorda, e notoriamente já não é mais o mesmo, e isso não é dito por causa da sua aparência mais velha ou seu corpo mais magro, ele não é mais o mesmo pois o seu dom que antes era apenas uma pontinha apagada de sua personalidade, se torna mais ou menos tudo que ele é.

– As vezes eu acho que nada é justo – disse ele. – A vida é dura. Ás vezes, você simplesmente precisa se contentar com o pouco que tem e tentar viver com isso. Vá e seja feliz.

 

Ao tocar nas pessoas Johnny consegue ver algumas coisas a respeito do passado, do futuro e até mesmo do momento presente, as vezes ele toca e não sente nada, outras ao apenas encostar em algo aleatório pertencente a alguém, é o suficiente para ele descobrir tudo, ou quase tudo, já que um pedaço das informações sempre parecem estar escondidas na zona morta. Cenas o invadem, o possuem, conjuram, e nesse instante não é só ele que sente a energia, quem é tocado também, o milagre de acordar de um coma trouxe para Johnny um dom que mais se parece maldição, sem contar com a dificuldade em voltar a sua vida apos tanto tempo longe de tudo, a dificuldade com as relações e em aceitar que o amor da sua vida seguiu enfrente.Mesmo sem querer chamar atenção, John não consegue esconder o que sente ao tocar algumas pessoas, pois ele sempre escolher fazer o bem, mesmo que isso cobre um preço alto, o que acaba atraindo uma certa atenção entorno dele, alguns são céticos e mesmo assim acreditam, outros duvidam e falam calunias ao seu respeito, a grande maioria sente medo do que ele possa estar vendo ou revelar e pouquíssimas compreendem o peso que é não ser normal. No meio desse furacão que é acordar de um coma, reaprender a viver, aceitar o ciclo, e lidar com o seu novo dom e a publicidade encima de si mesmo, John tenta seguir sua vida da maneira mais normal possível, dando suas aulas e vivendo com seus pais na sua antiga casa.

Tocar nas roupas das pessoas e de repente conhecer seus pequenos temores, pequenos segredos, seus insignificantes triunfos – isso era anormal. Era um dom anormal, era uma maldição.

 

“Ele a escreverá em um dos cadernos e sempre voltava a ela. Escreverá com letra caprichada e depois traçará um circulo triplo em volta dela, como que para encerrá-la. A perguntara era a seguinte: Se você pudesse entrar em uma máquina do tempo e voltar a 1932, mataria Hitler?”

Ao longo da trama, John sente o mal duas vezes, uma ao ter contato com a cena de um crime hediondo, outra a tocar a mão de um politico em começo de carreira, na primeira vez ele sabe que pode ajudar e o faz, mas deixa para a policia resolver o caso, na segunda, ele está sozinho, não pode contar para ninguém o que aconteceu e se contasse, quem acreditaria? Cabe apenas á ele a tarefa de salvar o mundo, pois de alguma maneira sabe que aquele politico em algum momento de sua vida politica alcançará o poder e quando isso acontecer, destruição, morte e guerras será a sua unica marca. Então meus caros, uma condição que no começo do livro poderia ser um dom, se torna uma praga que trouxe junto uma dura função.

O que mais me chamou atenção é que a história que nos contam na sinopse é apenas um pedaço do livro, não ele inteiro, sabiamente King nos coloca dentro da vida de John, no seu dia-a-dia, nos seus programas e no que viveu de fato até tocar aquele politico. Compartilhamos suas experiencias, amizades, a evolução dos seus sentidos, o amadurecimento dele como homem e ser humano, é como se fosse talvez uma biografia de alguém muito conhecido que ja sabemos o desfecho final, então lemos tudo que ele fez, sem tirar a sombra do conhecimento que temos do que irá acontecer com ele em determinado momento. A Zona Morta é triste, visceral e denso, ao mesmo tempo que é sobre amor, esperança e a leveza de aceitar com resiliência o seu destino.

Acredito que o embate final foi pouco explorado, foi rápido, não que tenha deixado a desejar, King jamais faria isso, mas poderia sim ter sido descrito em mais paginas, o fim da trama foi justamente o que esperei e desejei desde o começo, este livro é pra quem gosta de sobrenatural, mistério, misticismo, paranormal. Este livro é pra quem não gosta de nada disso (igual eu), mas não dispensa uma boa leitura fora da sua zona de conforto e se permite explorar outros palcos, sem medo. Leiam Stephen King. Descubram Stephen King. Se apaixonem e o deixem entrar em sua mente, é um presente maravilhoso do universo vivermos na mesma época que um gênio da literatura e a unica maneira de ser grato, é o conhecendo por inteiro.

Com carinho, Taay (:

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Titulo:A zona morta 
Autor: Stephen King
Ano: 2017
Páginas: 480
Editora: Suma de Letras Brasil
Gênero: Ficção, Horror | Adicione ao Skoob