O ANO DA GRAÇA , de Kim Liggett, é uma distopia com críticas a um sistema patriarcal opressivo, que detêm o poder através da visão deturpada que as mulheres são uma ameaça simplesmente por existirem.

Estamos no Condado de Garner, onde as mulheres não têm voz: não podem sonhar, não podem rezar em silêncio, e até mesmo seus cabelos têm de ser presos em uma trança. Isso tudo porque há a crença de que elas carregam uma magia que pode tentar os homens, da mesma forma como Eva fez.

“Nos dizem que temos o poder de fazer homens adultos saírem de suas camas, deixar garotos alucinados e enlouquecer as esposas de tanto ciúme. Acreditam que nossa pela emana afrodisíaco poderoso, a essência potente da juventude, de uma menina à beira de se tornar mulher. É por isso que somos banidas aos dezesseis anos, para liberarmos nossa magia na natureza antes de voltarmos à civilização”

Para que sejam purificadas de sua magia, ao completarem 16 anos, as meninas passam por um ritual de purificação – O Ano da Graça. Ninguém fala sobre isso, o que serve para criar um clima de suspense e medo. As meninas são enviadas para uma ilha, mas, antes, passam por uma cerimônia onde algumas são escolhidas como esposas, e recebem um véu de seus futuros maridos – se voltarem. As demais terão seus destinos traçados pelo conselho do condado.

“Casar não significa privilégio algum para mim. Não há liberdade no conforto. As algemas podem ser acolchoadas, mas não deixam de ser algemas.”

Tierney James é uma garota que acabou de completar 16 anos. Até então, levava uma vida de aventuras ao lado do amigo Michael, sob o olhar atento do seu pai, médico do condado. Suas duas irmãs mais velhas já passaram pelo Ano da Graça, e ambas já estão casadas. Tierney tem mais duas irmãs mais novas.

Por ter um espírito tão livre, tem dificuldades em aceitar as regras de sua comunidade, mesmo que ainda tenha medo de sua magia – afinal, contrariando as ordens, ela sonha frequentemente com uma garota que lhe oferece uma flor vermelha. Mesmo sem compreender, ela sabe que não poderia ser feliz amarrada em um casamento, então sempre se empenhou em se mostrar como uma péssima candidata.

“Somos proibidas de sonhar. Os homens acreditam que os sonhos são uma forma de escondermos nossa magia. Sonhar por si só já bastaria para que eu fosse punida, mas, se descobrirem com o que eu sonho, eu iria para a forca.”

No dia da cerimônia, as meninas trocam o laço branco de suas tranças pela cor vermelha, e vão para a praça esperar a deliberação sobre quem sairá de lá com o véu. Apesar de todo seu trabalho, Tierney é uma das 12 escolhidas – para sua surpresa e indignação. Porque isso também coloca um alvo em suas costas, já que outras 18 meninas só poderão tomar seu lugar caso ela não volte do confinamento.

O ANO DA GRAÇA - KIM LIGGETT 02

Após a cerimônia, as meninas são escoltadas até o acampamento, de onde só voltarão após um ano. Durante esse tempo, caso tentem sair da ilha, poderão ser caçadas por predadores, que tem permissão de matar aquelas que tentarem fugir para vender os pedaços de seus corpos cheios de magia no mercado, e de onde tem de voltar – vivas ou em pedaços, caso contrário as irmãs mais novas são expulsas do condado e tem de viver às margens, onde normalmente se prostituem.

Então, pela segurança de suas irmãs, Tierney sabe que terá de sobreviver ao Ano da Graça!

“Eu costumava me perguntar como as mulheres podiam fechar os olhos para as coisas no Condado, coisas que estavam acontecendo bem na frente delas, mas algumas verdades são tão horríveis que você não pode sequer admiti-las para si mesmo.”

O Ano da Graça é considerado uma mistura de O conto da Aia e Jogos Vorazes, o que poderia deixar o leitor incomodado. Mas a autora consegue extrair pontos importantes das duas obras e entregar uma historia com um frescor revigorante.

Aqui se faz isso de uma forma impressionante. As mulheres, quando saem da ilha, estão alquebradas, desiludidas, mutiladas, traumatizadas a tal ponto que não deveriam ter forças para erguer suas vozes. E assim se mantêm o Status quo no condado.

A historia é bem complexa, e eu não trouxe grande parte dos acontecimentos sobre o que ocorre na ilha porque acredito que deve ser um degustar muito pessoal. Muitas reflexões podem ser gestadas a partir dessa leitura, mas acho que o principal seria de como nos acovardamos e nos calamos frente a tantos disparates. São homens que pautam sua masculinidade na diminuição do papel feminino. Que são mais inteligentes, mais fortes, que contribuem verdadeiramente para a construção de uma sociedade. As mulheres são apenas ‘fraquejadas’. E não merecem papel de destaque.

O ANO DA GRAÇA - KIM LIGGETT 001

Mas em O ano da Graça temos Tierney. Ela não é uma super mulher, que vai enfrentar todos. É uma menina quase como as outras, que se permite sonhar, mas que duvida de sua força. Nem acredita que tem. O desabrochar dela é lindo de se acompanhar. É um crescimento gradativo, por isso bem crível.

Os outros personagens também tem papéis significativos: Michael Welk, o melhor amigo de Tierney; Hans, um dos guardas responsáveis por conduzir as moças até a ilha, que já amou alguém no passado; Kiersten Jenkins, uma das garotas do Ano da Graça, que acredita veementemente na magia das mulheres; Gertrude Fenton, que é rejeitada por conta de um problema anterior e acaba se tornando uma aliada da Tierney; Ryker, um dos predadores, além de uma figura chamada de usurpadora, vista como o mal que pode se abater sobra a comunidade.

“Quando nossas escolhas são tiradas de nós, o fogo cresce por dentro. Às vezes, acho que poderíamos incendiar o mundo inteiro, queimá-lo até só restarem cinzas, com nosso amor, nossa fúria, e tudo que há em nós.”

E um final… de deixar com lágrimas até o mais duro dos leitores. Termina com esperança. É um final que pode deixar alguns mais incomodados, até agora não sei se posso afirmar que foi aberto. Mas foi condizente, espero sinceramente que não tenha continuação.

Vale lembrar que O ano da Graça vai ser adaptado, com roteiro de Ashleigh Powell e será produzido e dirigido por Elizabeth Banks, conhecida por seu envolvimento em histórias que mostram a força das mulheres.

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O ANO DA GRAÇA - KIM LIGGETT

Título:  O ano da Graça
Autor:  Kim Liggett
Ano: 2020
Páginas: 356
Editora:  GloboAlt
Gênero:  Distopia
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