Mundo em Caos é o primeiro volume da Série Mundo em Caos, do autor Patrick Ness. Lá na gringa ele saiu com o título The Knife of Never Letting Go, que eu acho bem mais legal e bem mais a ver com esse primeiro livro. Mas, enfim! Segue o baile.

“E é só isso que tem aqui em Prentisstown. População de 147 habitantes e cada vez menos, menos, menos 146 homens e um quase-homem.”

Logo no início da trama aprendemos que Prentisstown foi um lugar contaminado por algum tipo de infecção que originou a dizimação de todas as mulheres da cidade. Essa mesma infecção fez com que nenhum homem tivesse mais seus pensamentos ocultos. Algo que eles chamam de Ruído é a situação onde todos as outras pessoas escutam (ou enxergam) claramente tudo o que você pensa, imagina, sente e provavelmente quereria esconder dos outros.

Todd Hewitt é nosso protagonista. Ele é um quase-homem, ou seja, ainda não completou a idade estipulada em Prentisstown para que seja considerado verdadeiramente um homem. Todas essas informações sobre a cidade, sobre o Ruído, e sobre a eliminação das mulheres descobrimos por ele, porque é o que sempre foi ensinado ao garoto dessa forma.

“Como a sorte parece que não está ligando muito pra gente hoje, se tiver alguma coisa pra dar errado, provavelmente vai dar.”

Então, hoje eu quero falar sobre esse primeiro volume. Essa série foi lançada no ano de 2008, lá no Reino Unido. O livro foi bastante comentado por todo o mundo, sendo traduzido e publicado por mais de 30 países. Iremos conversar sobre uma distopia (que é um lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação).

Esse é um tipo de livro que de sua forma peculiar, faz com que sintamos que sempre podemos fazer diferença no mundo que vivemos. Podem ser poucas alterações, mas sempre iremos tocar a vida de outra pessoa. Sempre faremos com que o mundo “se movimente” afim de chegar a algum lugar. E eu me apaixonei pelo pré-adolescente Todd em sua busca por uma verdade que ele ‘nunca jamais’ pôde imaginar que sequer desconhecia.

Temos de tudo nessas 445 páginas de história. Temos até um conto inédito a respeito do universo Mundo em Caos, fazendo o livro chegar ao montante de 480 páginas no total. Aqui, em Mundo em Caos, você poderá encontrar muita aventura, amadurecimento, provas de amizade e companheirismo, mentiras (mesmo com a existência de algo como o Ruído), e principalmente muito suspense. Muitos trechos deixam a gente muito tensos em busca de uma resposta ou apenas, uma solução.

“Só porque eu não ouço nenhum Ruído dela não significa que ela não ouça cada palavra do meu.”

Todd descobriu de uma forma muito agressiva e dura, que em meio à cacofonia de sons de sua cidade natal, existem segredos que só a ele foi negado. Porém, muito próximo de completar 13 anos e se tornar homem – deixando de ser a última criança de Prentisstown – Todd foge antes que seja incluído nesse temível segredo que conecta todos os homens da cidade. 1 ano para eles tem 13 meses, o que faz com que para nós, Todd já esteja pra completar 14 anos. Em sua fuga, ele encontra uma menina. Uma garota – chamada Viola – da qual ele não pode escutar o que ela pensa (o Ruído não contaminou ela?), mas ela consegue saber tudo o que se passa na cabeça do nosso protagonista.

Confesso que essa é uma resenha muito difícil de escrever, pois eu sou daquelas pessoas que gosta que o coleguinha consiga ter todas as surpresas que a leitura possa trazer, e de forma individual! Assim, não quero desvendar demais as páginas dessa distopia que ganhou meu coração. Sem falar em quão apaixonada eu estive o tempo todo que pude ter o livro em minhas mãos. Foi uma leitura deliciosa, coroada com uma das mais belas edições em brochura que já tive aqui. Recomendo que você tenha essa obra em sua estante. De verdade.

“Quando a sorte não está com você, ela está contra você.”

O único amigo que Todd tem é Manchee, seu cachorro. Uma das coisas bem interessantes dessa história é que o Ruído afetou também aos animais… Ou seja, sabemos o que eles pensam. E Manchee é o companheiro de fuga e aventuras de Todd. No início, achei que o garoto nem gostava de ter o cachorro em sua vida, pois era uma responsabilidade também. Mas, eles foram ficando muito unidos no decorrer das andanças por terras que Todd NEM IMAGINOU que pudessem existir ainda.

Bom, você só precisa saber que a fuga de Todd gerou um reboliço em Prentisstown, e um exército foi convocado para perseguir o garoto. O menino fugiu apenas com um saco de rações para seu sustento, seu cachorro, e um diário escrito por sua mãe. Maassss, Todd sequer sabe lê. Então, além de se manter vivo, em movimento, ajudar Viola, e buscar uma solução para tudo o que está acontecendo em sua vida, Todd também precisava aprender a ler – pois como saber as informações contidas naquela espécie de “manual” que sua mãe deixou como herança?

Todd acaba por ter dificuldades em confiar de imediato em Viola, pois ele nunca teve contato com algo que não emita sons. O silêncio que emanava dela era completamente perturbador. Ele não sabia o que ela pensava sobre ele, nem sobre nada. Ele precisaria acreditar apenas naquilo que saia de sua boca. E era muito difícil acreditar em alguém que ele não podia decifrar através de seu Ruído.

“O Ruído matou metade dos homens e todas as mulheres, incluindo minha mãe, e fez os pensamentos dos homens que sobreviveram não serem mais segredo pra ninguém.”

Eu não conhecia o autor, apesar de ter muita vontade de ler o livro ‘Sete Minutos Depois da Meia-Noite’. Sei que apaixonei na forma que Ness conta uma história. Ele consegue envolver a gente completamente em sua distopia, e aqueles lugares que ele vai fazendo a gente transpor durante a leitura, acabam por parecer muito reais e possíveis no nosso imaginário. Eu AMO autores que são por si só exímios contadores de história. E Patrick Ness me fez ficar ansiosa pelos próximos livros da série.

Obviamente que nem todas as respostas nos serão reveladas, uma vez que esse é apenas o primeiro volume da série. Mas, o desenrolar da trama me deixou muito satisfeita. As informações que vamos coletando nos leva a alguns embates marcantes. E a gente vê Todd crescendo praticamente na frente de nossos olhos, a cada virar de páginas. Viola é uma excelente adição à trama e à vida de Todd. E eu não sei o porquê, mas enquanto lia Mundo em Caos, eu imaginei o tempo todo Viola como a personagem Eleven da primeira temporada de Stranger Things.

Para não deixar você pensando que estamos lendo uma história que se passa no planeta Terra – porque não é –, Mundo em Caos acontece em um planeta chamado Novo Mundo. Através do conto que vem no final do livro, você poderá tirar suas dúvidas sobre o motivo deles terem deixado a Terra. Os Spackles são os seres nativos desse planeta, e eles são nossa referência de culpa pelo espalhamento da ‘doença’ que eliminou todas as mulheres e, culpados também pelo Ruído.

“Taí um negócio que estou aprendendo sobre ser jogado no mundo por conta própria: ninguém faz nada por você. Se você não muda as coisas, elas não mudam.”

Podemos ver na escrita de Ness a crítica social a respeito de um mundo onde só o homem tem voz. Ou que as mulheres se quer existam – figurativamente/literalmente. Ele faz com que enxerguemos outros prismas e como seria essa nova sociedade. Às vezes podemos ver muito da nossa sociedade onde a mulher não é ouvida – sem direito a ter voz. Pra mim o melhor de ler uma distopia é a capacidade de inúmeras análises e pontos de vista. Sempre traremos nossas vivências e lugar no mundo para basear nossos insights.

Na cidade natal do protagonista os livros foram queimados, a religião é extremamente castradora e praticamente todos são pessoas sem capacidade de ler ou de interpretar situações. Enfim… São pessoas ignorantes, que escutam um líder e agem como uma manada que sequer pensa direito nos resultados de seus atos. E esse tipo de sociedade que foi criada em Prentisstown me deixou durante toda a leitura com uma pulga atrás da orelha. Queria muito saber porque os homens dali eram tão alienados e ao mesmo tempo tão unidos.

Concluindo, já que me deixei levar por toda essa aventura, nesse livro você irá acompanhar a jornada de Todd. Algumas respostas virão, por outras respostas já se era esperado que precisaremos aguardar os próximos volumes. Mas, eu recomendo que você dê uma chance a Mundo em Caos. Pois de certa forma nós acabamos por enxergar o macro de uma história moldada pela mãos dos homens, e vamos desvendando aos poucos juntamente do último menino de Prentisstown. E finalizando, ressalto que todo meus sentimentos estiveram o tempo todo com Todd. Desbravamos juntos o Novo Mundo.

“… com a certeza que chegamos ao fim, de que não tem saída dessa vez, de que, se o mundo quer você, ele vai continuar te atacando até te pegar.”

Como ressaltei antes, a edição de Mundo em Caos está impecável. O cuidado com a diagramação foi dos mais notáveis que já tive em mãos. Parabéns à editora Intrínseca! Você vai entender melhor quando puder ter o livro em mãos. Sua capa tem o fundo preto, com o desenho de uma faca – tão importante na jornada de Todd –, e o título do livro vem em letras brancas. O corte das folhas é em um tom de vermelho maravilhoso, pungente. E os detalhes maiores da diagramação eu deixarei para você viver e perceber por si só. Tudo muito perfeito e muito pertinente com o tema de Mundo em Caos.

Se atentem às páginas onde o Ruído sobressai a fonte comum usada ao longo do texto. Perceba o sufoco que deve ser conviver em um mundo onde estamos ouvindo todos falando/pensando ao mesmo tempo. Se atropelando, se sufocando!! Achei genial essa vivência direta de Mundo em Caos para minha experienciação como leitora. E isso é outro ponto positivo tanto para o autor, quanto para a editora.

Patrick Ness é autor e jornalista britânico-americano. Ele nasceu na Virgínia, mas vive desde o fim de seus 20 anos em Londres, tendo assim dupla nacionalidade. Hoje, aos 47 anos já é um autor reconhecido por seus livros. Mundo em Caos foi seu primeiro romance juvenil publicado.

“O Ruído não é verdade. O Ruído é o que os homens querem que seja verdade.”

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Título: Mundo em Caos
Autora: Patrick Ness
Ano: 2019
Páginas: 480
Editora: Intrínseca
Gênero: Distopia, Aventura, Romance Juvenil, Ficção
Nota: 4/5
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