Se eu tivesse um autor favorito, Stephen King se não fosse o primeiro, seria certamente o segundo, mas como não tenho, pois é injusto fazer uma lista baseada nas coisas que conheço sendo que existe milhares de autores bons que ainda não conheço, digo apenas que King é com certeza um dos melhores da minha vida. Todos os seus livros me tocaram e entraram pra minha lista de amorzinho e Mr Mercedes não foi diferente.

Em uma madrugada fria de abril, os desempregados de uma cidade falida do meio-o este se amontoam desesperados em busca de uma oportunidade de empregos, meninos jovens, homens velhos, mulheres com bebês, todos juntos compartilham da mesma difícil realidade e da esperança de muda-la assim que a agencia de empregos abrir. O frio, fome, café, nevoa e até começo de novas amizades, são momentaneamente cortadas quando um belo carro se aproxima, todos o observam curiosos e ate mesmo admirados pela beleza da Mercedes, mas quando se dão conta que o carro parece desgovernado (ou governado pelo próprio capeta) e continua vindo em direção a fila sem nenhuma intenção de parar, fugir já não é mais uma opção e o saldo final do acidente são oito mortos, diversos feridos e nenhum culpado preso.

Pouco se sabe sobre o assassino, nenhum DNA, nenhuma digital, nenhuma pista, nada, parece o crime perfeito e esse criminoso é apelidado por todos de Mr Mercedes, o detetive Bill Hodges, que ficou encarregado de resolver o caso, se aposenta meses depois o deixando em aberto e da pior maneira possível, sem nenhum indicio de que irá ser resolvido.

Bill curte do jeito mais comum possível a sua aposentadoria, em casa, vendo TV, se sentindo sozinho, depressivo e regado á muitos pensamentos suicidas, divorciado, sem contato com a sua única filha, ele é o retrato típico de um homem que se manteve tempo demais casado com o trabalho e não tem nada mais quando esse casamento chega ao final, deixando assim a ideia de acabar com a existência a unica opção plausível.

A arma, uma 38, sempre esta a postos esperando um pouco mais de coragem ou de tristeza, talvez doses arrebatadoras das duas, King consegue descrever e nos colocar dentro do livro de uma maneira tão arrebatadora que deveria ser estudada e passada para todos os autores do universo, é possível sentir o vazio e solidão da vida do detetive, é possível compreender seus pensamentos e entender a sua ânsia escondida de dar fim ao vazio.

“Finalmente comecei a ficar com raiva. Eu queria fazer alguém pagar.  Eu queria atacar o mundo e fazer o mundo saber que eu estava vivo.”

Todo o cenário depressivo de Bill muda quando recebe uma carta completamente inusitada, com um convite irrecusável; o assassino da Mercedes deseja falar com ele em uma rede social, apesar do assassino deixar claro que não pretende matar mais nenhuma pessoa, o detetive sabe que esse cenário pode mudar, isso faz com que a vida pacata e depressiva de Bill tome um novo proposito, terminar a caçada que começou e dar um desfecho final ao seu caso inacabado. Ao mandar a carta, Brady Hartfield tinha um único objetivo, dar fim a vida miserável do velho gordo e inútil detetive que já havia tentado (e falhado) em captura-lo.

Brady é um psicopata, preconceituoso, doentio, que mora com a sua mãe, uma alcoólatra com quem mantem um relacionamento bem estranho e quase sexual, com apenas 28 anos ele se cansa de fingir ser quem não é, de fingir normalidade, de agradar os outros e de distribuir sorrisos falsos por ai, o melhor momento de sua vida foi estar na direção daquele Mercedes e tirar a vida de milhares de pessoas, ouvir seus ossos quebrando, saber quem foram as vitimas e a certeza de que havia um bebê recém nascido entre os mortos, causa nele uma satisfação intima, profunda e sexual. E Brady esta decidido, precisa sentir de novo, se foi tão bom, não pode simplesmente parar por ai, talvez nessa próxima ele deixe o mundo, se juntando a lista imensa de mortos no seu próximo massacre.

E tendo esses dois personagens como principal a trama se desenvolve e nos envolve cada vez mais, desde sempre nós leitores sabemos quem é o assassino e isso deixa o livro mais interessante, pois podemos ver qual a reação de um sobre as ações do outros, seus planos, medos, estrategias e principalmente a sensação de inquietamento e excitação ao saber que o assassino passa quase todos os dias pela casa do detetive sem que ele ao menos desconfie.

Bill entra de cabeça no caso e conta com a ajuda de pessoas completamente distintas dos seus parceiros da época de policia, por ser tão inteligente, esperto e sábio, ele encontra no assassino um competidor digno, mais do que isso, encontra alguém á sua altura e isso desperta nele o seus mais profundos instintos de justiça e seu faro apurado de detetive.

“A maioria das pessoas recebe Botas de Chumbo quando criança e precisa usá-las pelo resto da vida. Essas Botas de Chumbo são chamadas de CONSCIÊNCIA. Não tenho isso, então me permito fazer muito mais coisas do que a Galera Normal.”

O começo do livro é lento, quase da vontade de dormir (ou desistir), mas a gente sabe que estamos lidando com King, então temos nas mãos um obra digna da nossa paciência e insistência, logo depois do tédio vem a recompensa, somos apresentados ao vilão mais nojento (sério, ele é estranho) e naturalmente ruim que já se teve noticias.

Brady causa escarnio, ânsia de vomito e muito ódio na gente, é como se ele tivesse matado pessoas que conhecemos e ainda consegue tirar sarro de suas vidas e sonhos, sem contar na cereja do bolo a relação absurda que ele tem com a própria mãe, relação essa é que detalhada por King até nos fazer parar um pouco pra respirar (e não vomitar nas paginas do livro), é uma obra pra ser lida de uma unica vez, sem pausas, ao mesmo tempo que elas são necessárias porque alguns momentos são bem pesados.

A minha surpresa em Mr Mercedes foi o detetive Bill, o que no começo parece ser apenas um velho suicida e tedioso, se tornar um homem inteligente, sensível e muito esperto, fazendo com que a briga do policial e bandido se torne eletrizante. Indicado pra quem gosta de suspense, Thriller psicológico e apesar de não ter cenas que causem medo, também o indico pra quem gosta de terror, pois o vilão não deixa a desejar em nada, quem tem nervos de aço, estomago forte e adora uma caçada policial, deveria largar o que esta fazendo e começar a ler agora.

Mr Mercedes é uma trilogia e este é conhecido como Bill Hodges 1, assim que terminei o primeiro fiquei em cólicas pra ler todos os outros e posso dizer que o verdadeiro final dessa história é exatamente o merecido e desejados desde que lemos a primeira pagina.

Espero que gostem da dica e que me aprovem saindo um pouco das resenhas de serie e dando dica de livros (e filmes).
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Título: Mr Mercedes
Subtítulo: Bill Hodges # 1
Autor: Stephen King
Ano: 2016
Páginas: 400
Editora: Suma de Letras
Gênero: Crime, Romance policial, Suspense e Mistério
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