Os noivos do inverno é um lançamento de 2018 da Editora Morro Branco, livro de estreia da escritora Christelle Dabos, sendo o primeiro da Trilogia A passa espelhos. Vencedor do Grand Prix de l’Imaginaire, rapidamente se tornou best-seller na França.

Aqui, temos um mundo dividido em territórios flutuantes – o motivo, ao menos nesse livro, ainda não foi explicado.“E um dia, quando Deus estava em um péssimo humor, ele fez uma besteira enorme. Deus quebrou o mundo em pedaços.”

Um desses ‘territórios’, ou Arcas, é Anima, que é comandado pelas Decanas, que respondem à um espírito familiar desta Arca – Artémis. A outra arca que é mencionada nesse livro é Polo, que tem Farouk como Espírito Familiar. Aparentemente foram esses espíritos que deram origem à toda população e suas respectivas arcas.

Em Anima conhecemos Ophélie, uma leitora – ela tem a capacidade de tocar objetos e ler o seu passado. Ela não é uma pessoa muito preocupada com sua imagem, é meio desajeitada, usa grandes óculos e um cachecol que parece ter vida própria. Ela também é uma ‘passa-espelhos’, ou seja, tem a capacidade de se locomover entre um espelho e outro.

“Passar por espelhos exige enfrentar a si mesmo. É preciso ter estômago, sabe, para se olhar bem nos olhos, se ver como é, mergulhar no próprio reflexo.”

OS NOIVOS DO INVERNO - CHRISTELLE DABOS

Ophélie foi prometida à Thorn depois de recusar dois casamentos com seus primos, e ela se vê sem saída pelas recusas anteriores. Assim, seu noivo vai buscá-la, e a sua tia a acompanha como dama de companhia – é costume a noiva se mudar para a Arca do noivo antes do casamento.

“Suspensa no meio da noite, suas torres afogadas na Via Láctea, uma formidável cidadela flutuava sobre a floresta sem que qualquer coisa a prendesse ao resto do mundo. Era um espetáculo completamente louco, uma enorme colmeia expulsa pela terra, um entrelaçado tortuoso de masmorras, pontes, nichos, escadas, arcobotantes e chaminés.”

Na cidade Celeste, a arca congelada e flutuante, Ophélie e sua tia Roseline vão descobrir que o mundo como o conheciam em Anima é completamente diferente. E que Thorn, o nobre prometido, é um filho bastardo da casa dos Dragões, que são conhecidos por terem o poder de infligir qualquer tipo de dor, além de aparentemente não ser uma pessoa benquista por aqui. Seu noivo parece querer o casamento tanto quanto Ophélie, além de ser uma pessoa misteriosa, intransigente e taciturna. Além de gelado como a Cidade Celeste…

Mesmo sendo hostil à ideia do casamento, Thorn se vê na obrigação de defender Ophélie – ele é odiado, e por conta disso ela corre perigo. Thorn tenta manter em segredo seu casamento iminente, mas segredos foram feitos para serem espalhados…

Os noivos do Inverno nos leva a um mundo em que não é possível confiar em ninguém, onde muitos mistérios estão enraizados, um mundo de intrigas e de máscaras!

Preciso confessar – a capa desse livro me pegou de cara. Super diferente, é a representação da Cidade Celeste. E, durante a leitura, foi um deleite passear por essa cidade vertical! No início precisava recorrer a descrição que vem no livro, mas com o decorrer da estória vai ficando mais fácil entender o funcionamento da arca.

Outro ponto diferente que temos por aqui é a divisão das famílias da Cidade Celeste. Temos as miragens, capazes de criar ilusões, Teia, uma rede onde o que um membro vê, todos os outros também vêm, e os dragões, que podem causar dor. É aqui que temos nosso noivo Thorn, bastardo que foi protegido pela tia Berenilde – ela me conferiu momentos de ódio e de entendimento, espero mais dela no próximo livro (ou não…).

Como de costume, estava preparada para um instalove – aquele momento que Ophélie e Thorn se olhariam e estariam inebriantemente apaixonados. E, para minha surpresa, isso não aconteceu. O desenvolvimento da relação da Ophélie e do Thorn vai mudando ao longo dos acontecimentos, e termina de uma forma bem inusitada. Thorn é um personagem difícil, com muitas camadas, e algumas delas são apresentadas nesse primeiro momento. Ophélie parece uma garota simples, sem muita vivência, mas amadurece e vai construindo sua personalidade e sua estória – aprende a fazer as suas escolhas. Ela não é perfeita, comete erros, mas é cativante.

“Em Anima, Ophélie só se interessava pelo Museu. Agora, pela força das circunstâncias, ela tinha ficado mais curiosa em relação aos outros. Sentia a necessidade de encontrar pontos de apoio, pessoas honestas que não a trairiam pela rivalidade de clâs.”

O ponto que mais me conquistou em Os noivos do Inverno é o universo construído pela autora. As arcas – esses mundos flutuantes tão diferentes entre si, esses poderes tão diferentes desenvolvidos por cada grupo de pessoas, dois noivos que não se apaixonam de cara, tudo isso contribuiu para que a estória permanecesse comigo mesmo depois de passado um tempo da leitura. As duas arcas que são apresentadas também são muito diferentes: Anima, matriarcal, com costumes mais arcaicos, provincianos, e Polo, patriarcal, bruta, uma sociedade desigual e cheia de intrigas políticas.

Recomendo esse livro para quem gosta de fantasia, é uma leitura leve, detalhada em alguns momentos, mas de leitura rápida, um final que traz uma reviravolta em algumas teorias que havia desenvolvido, e que me deixou curiosa para os próximos livros – o segundo livro (Desaparecidos em Luz da Lua) foi publicado em 2019, e agora é aguardar a publicação do terceiro livro.

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Série A passa espelhos
Livro 1 – Os noivos do Inverno
Livro 2 – Desaparecidos em Luz da Lua ( Ainda não resenhado)
Livro 3 – La Memóire de Babel – (ainda sem previsão de lançamento )
Autor: Christelle Dabos
Tradução: Sofia Soter
Ano: 2018
Páginas: 416
Editora: Morro Branco
Gênero: Jovem Adulto, Ficção, Literatura Estrangeira, Fantasia
Onde comprar: AMAZON