“O Impulso” foi o título escolhido pela editora Paralela para iniciar o ano de 2021! Lançado em janeiro desse ano, o livro de estreia de Ashley Audrain traz uma proposta inovadora, misturando thriller com uma imensa carga familiar e emocional. Em uma narrativa repleta de flashbacks, acompanhamos Blythe, uma mulher carregada de traumas, que acaba se tornando mãe sem esse ser seu grande sonho de vida. Alerta, este livro possui gatilhos a respeito da maternidade, de traumas familiares e abandono.

Blythe e Fox se conheceram ainda na faculdade e desenvolveram um sólido e confortável relacionamento. Juntos há vários anos, chegaram a um momento decisivo: ter filhos. Este nunca foi o desejo de Blythe, mas ela acaba cedendo e embarcando nesta jornada para deixar seu marido feliz. No entanto, seus temores sobre a maternidade foram confirmados. Após o nascimento de sua primeira filha, Violet, ela percebe que não consegue estabelecer uma forte ligação com a garota. Por mais que se esforce, ela não parece ser aceita pela criança como sua mãe.

“Eu me lembro de um dia me dar conta de como meu corpo era importante para nossa família. Não meu intelecto, não minhas ambições de uma carreira literária. Não a pessoa construída ao longo de trinta e cinco anos. Só meu corpo.”

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Vivenciamos junto a ela então, todas as inúmeras tentativas vazias de entender o porquê não consegue se conectar a Violet, enquanto a garota esbanja carinho e afeto para seu pai e sua avó (a mãe de seu pai), que está presente ali pra mostrar a Blythe como uma mãe deve agir. Neste intervalo, em meio ao relato desta mãe iniciante, somos também apresentados a fatos do passado, que mostram que a maternidade nunca foi algo muito bem desenvolvido em sua família. Sua mãe não soube ser uma boa mãe… Nem a sua avó…

Mas Blythe decide se dar uma nova chance e ter um outro filho. Tirar a prova de que realmente o problema está nela e não especificamente em sua relação com Violet. E assim nasce Sam! Sua ligação com o garotinho é imediata, um amor imenso que a arrebata e a faz sentir sua ausência dolorosa sempre que se afastam. Violet também parece mudar bastante pelo carinho com o irmãozinho, ficar mais acessível. Ainda assim, neste novo cenário algo muito grave acontece e muda de vez a vida e a dinâmica dessa família.

“Todos temos o direito de alimentar certas expectativas em relação aos outros e a nós mesmos. Com a maternidade não é diferente. Todos esperamos ter uma boa mãe, nos casar com uma boa mãe, ser uma boa mãe.”

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Não é possível e nem aconselhável que eu diga mais nada além disso. É um thriller, lembre-se disso. Será necessário que você mergulhe na história para sentir suas reviravoltas, então quanto menos souber, melhor. Na primeira página, antes de Blythe começar seu relato, vemos que ela está olhando pela janela de uma casa onde uma família comemora o Natal. Esta família consiste em seu marido Fox, sua filha Violet que beija o rosto de um garotinho mais novo, e uma esposa que não é ela. O que aconteceu para chegarem a esse ponto? O que vai fazer com que a mulher sinta a necessidade de contar seu lado da história?

Eu confesso que tive muita facilidade em me identificar com as incertezas e dores de Blythe. Ela não esconde a pessoa cheia de cicatrizes que é, porém acaba aceitando ser silenciada em diversas situações. Pelo marido, pela sogra, pela filha… Ela carrega resignada mais culpa do que deveria, e isso chega a doer. Embora ela não seja uma narradora confiável em vários momentos, é impossível não identificar sua luta interna em meio às situações que está vivendo.

Vi muita gente relatando ter se decepcionado com “O Impulso”, o que, admito, me deixou um pouco receosa quando comecei a leitura. Mas agora, o que eu posso dizer sobre a minha experiência é que não achei, de forma alguma, o relato de Blythe arrastado ou cansativo. Muito pelo contrário, para mim a personagem narra a história com muita verdade e precisão. Não existe maquiagens ou romantização a respeito dos desafios da maternidade, ela mostra que as vezes nem tudo “vai ficar bem” e tenta lidar com isso.

“Mães não deveriam ter filhos que sofrem. Não deveríamos ter filhos que morrem. E não deveríamos gerar pessoas ruins.”

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Acredito, no entanto, que talvez “O impulso” não seja uma leitura para todos. Como eu disse, traz gatilhos e aborda temas delicados. O final não é necessariamente uma surpresa, e posso dizer, inclusive, que achei bem previsível. No entanto, é a jornada de abdicação e inseguranças da personagem principal que fazem com que esta história seja construída de forma tão especial. Ao trabalhar com a ideia de que “nem toda mulher nasceu para a maternidade”, é possível, trabalhar conceitos e estigmas que sufocam várias mulheres.

Enfim, na minha opinião foi um acerto da editora a escolha desta história. Necessária e atual, nos faz transitar por conceitos e emoções bem tradicionais e delicadas, tudo isso com um suave suspense de plano de fundo. Indico a leitura para todos aqueles fãs do gênero com um teor mais psicológico, mas que, no entanto, não inicie a leitura com tantas cobranças e expectativas. É necessário deixar que a história leve você!

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O Impulso
Autora: Ashley Audrain
Ano: 2021
Páginas: 328
Editora: Paralela
Gênero: Thriller, Suspense, Psicológico
Nota: 4,5/5
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