Nós Somos A Cidade é o primeiro livro da trilogia Greats Cities, da premiadíssima autora N. K. Jemisin – vencedora de três prêmios Hugo Awards, e que acabou de chegar ao Brasil pela Editora Suma.

Nessa fantasia com toques de ficção científica, as grandes cidades se tornam tão grandes, que podem chegar a ‘nascer’! E vamos acompanhar justamente o nascimento de Nova York, que se incorpora em seu avatar – um garoto de rua que sobrevive usando sua malícia e seu corpo, se necessário for. Mas tem a arte correndo nas veias e, ainda sem saber que ‘é’ Nova York, cético, vai sendo guiado por Paulo – também conhecido como São Paulo…

Entretanto, logo após seu nascimento, ele é atacado por uma entidade desconhecida e, mesmo vencendo o primeiro round, fica tão exaurido que entra em um sono profundo, deixando toda a cidade à mercê dessa entidade. Nesse momento, outros cinco avatares surgem, cada um deles representando os distritos que compõem a cidade: Manhattan (Manny) é arrogante e individualista, Bronx (Bronca) tem origem nativa e é lésbica, Brooklyn (Brooklyn) é uma ex-rapper que se voltou para a política, Queens (Padmini) é uma jovem indiana fazendo doutorado em matemática, e Staten Island (Aislyn) é uma jovem preconceituosa e controlada pelo pai. Eles terão de aprender rápido sua missão: encontrar e proteger o avatar primário. Afinal, todos são Nova York.

“Há cinco de vocês, entende, além do primário. Cinco aliados em potencial. Cinco fraquezas que eu posso explorar.”

Vou parar a descrição da historia por aqui, porque pode impactar na sua experiência de leitura. Quero focar nas minhas impressões… Nós Somos a Cidades é uma experiência imersiva. Há uma alternância no foco narrativo entre os personagens/avatares, e cada um deles é apresentado com suas características, não recebendo o selo nem de herói, nem de vilão. Não são perfeitos, e foram escolhidos porque reúnem características intrínsecas de seu distrito/cidade.

Mas são pessoas que se erguem contra injustiças, mesmo que em grande parte voltadas para seu grupo de convívio – são artistas, estudantes, negros, indígenas, indianos, LGBTQIA+. Há, inclusive, uma personagem que me trouxe um pouquinho de ódio no coração, porque teve uma criação tão racista, xenofóbica, misógina, e ela internaliza tanto esses preconceitos, que fica difícil torcer por ela… Ou seja, esse é um livro que joga na sua cara tantas bandeiras, de uma forma tão direta e tão crua, que pode doer. Não sei se poderia chamar de gatilhos, mas ela atinge o ponto fraco com gosto!

“- Pois venha, Cidade Que Nunca Dorme. Deixe-me mostrar a vocês o que espreita nos espaços vazios onde pesadelos não ousam pisar…”

Nós Somos a Cidade – N. K. Jemisin

Ainda assim, são personagens que vão, mais lentamente para uns que para os outros, se permitindo aceitar as diferenças, e criando elos que quebram aqueles paradigmas impostos, numa jornada de aceitação e de perdão. Porque todos nós erramos, mas nos permitimos aprender e sentir a dor do outro. E mostrar a nossa dor! É um livro recheado de críticas sociais, que mostram o pior e ao mesmo tempo nos mostra que é possível, que existem mais pessoas buscando o melhor caminho que o contrário. E que, juntos, somos imbatíveis.

Nós somos a cidade também é uma declaração de amor à cidade de Nova York. Os distritos/avatares são apresentados aos poucos, e suas características vão sendo descritas de tal forma que, mesmo que não conheça a cidade, você consegue imaginá-la – além do livro trazer um mapa bem descritivo. A ideia é mostrar como cada porção da cidade, cada povo que o constitui, cada geração que deixou sua pegada contribui com seus valores e sua cultura, e de como isso forja uma identidade, mesmo também trazendo seus preconceitos e sua relação com o todo.

Bora falar do vilão… não sou fã de historias de terror, portanto posso não ser a melhor pessoa para falar disso, mas, mesmo não conhecendo a obra de H.P Lovecraft, sei que foi um autor extremamente racista. Acho que, por isso, a forma como a autora – uma mulher negra, usa das referências com o vilão só pode ser descrito como fenomenal… Ela se apropriou do horror cósmico como porta de entrada para discutir tantos assuntos polêmicos!

“Cada dia que passa ali, ele se sente ao contrário, de ponta-cabeça. Um lar não é onde o coração está; é onde o vento é familiar.”

Livro Nós Somos a Cidade – N. K. Jemisin

Passa pelos supremacistas brancos à gentrificação de algumas áreas dos distritos, acima de tudo aqueles cujos moradores, alguns há gerações, são não-brancos. Também discute Alt-Right, que podemos traduzir como Direita alternativa, e que se refere à fração da extrema direita dos Estados Unidos e de alguns países europeus, conhecidos pela militância em defesa dos brancos, do sexismo, do antissemitismo, além de serem contra a imigração e a inclusão dos imigrados – olha o nível dessa historia…

Claro que a cereja do bolo é a presença de São Paulo… ele é um rapaz da periferia, fumante inveterado, a mais nova cidade que tem a missão de ajudar a próxima cidade a nascer. Melhor ainda é que, após um ataque sofrido, ele é acordado por uma receita bem brasileira… Mesmo achando a fumaça de cigarro excessiva, gostei de nos ver representados na história!

“Paulistanos são infames por serem workaholics; os outros brasileiros fazem piada com a obsessão deles por reuniões e políticas corporativas e toda a pompa organizacional.”

N. K. Jemisin

Finalmente, vale avisar que a trama em alguns momentos se apresenta arrastada, já que há muitas reflexões, e os personagens/cidades se mostram aos poucos. Começa com uma ação frenética, e depois vai mais lento, até chegar à uma conclusão que achei rápida demais. Ainda assim, promete muito, já que esse é apenas o primeiro livro da trilogia.

Nós somos a cidade nos lembra que as cidades estão vivas, espelhos de seus habitantes, de todas as gerações e de todas as lutas. Ainda, é um livro para quem procura representatividade, laços familiares além do sangue. Arrisque-se…

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Título: Nós Somos a Cidade
Autora: N. K. Jemisin
Tradução: Helen Pandolfi
Ano: 2021
Páginas: 336
Editora: Suma
Gênero: Fantasia
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