“Mank” (2020), é um filme de drama biográfico, que foi produzido e dirigido pelo magnífico David Fincher (Clube da Luta, Se7en, e Garota Exemplar). Está disponível pela plataforma de streaming Netflix desde dezembro do ano passado. “Mank” está liderando indicações ao Oscar desse ano, por exemplo, com recomendações para melhor ator, diretor e filme. São 10 categorias as quais concorre.

A história do filme nos mostra uma Hollywood dos anos 1930 e 1940 (uma revisitação à Era de Ouro), bem como sobre a vida do roteirista (Herman Mankiewicz) que escreveu uma das obras mais famosas do cinema: Cidadão Kane (Citizen Kane).

Mank (vivido pelo espetacular Gary Oldman) antes era escritor, e também trabalhou como repórter. Em seguida, se tornou crítico de teatro. E em 1926 ele conseguiu um emprego na Paramount. Ali começou a produzir alguns títulos. Entretanto, Herman Mankiewicz se tornou um viciado em jogatina, e alcoólatra inveterado. Às vezes, sequer recebia os créditos dos roteiros que entregava. E assim nasceu o grande plot do filme, que é a questão da autoria do famoso “Cidadão Kane”, que foi encomendado por Orson Welles. Nasceu um problema aqui, pois Mank havia concordado previamente em trabalhar nesse roteiro, sem o reconhecimento público.

Seria a estreia de Welles na direção. Mas, no fim das contas, após Cidadão Kane ter sido considerado um roteiro brilhante, das melhores coisas que Mank já havia escrito, o roteirista resolver enfrentar Welles e conseguiu o crédito de coautor da obra. Cidadão Kane recebeu quase 10 indicações ao Oscar, e levou a estatueta de Melhor Roteiro Original (1942) – com o nome tanto de Mank, quanto de Welles. Curiosamente o nome de Welles aparece nos créditos em alguns papéis distintos, como roteirista, produtor, ator principal, e diretor. Até hoje esse é considerado um dos melhores filmes de todos os tempos.

A respeito da construção desse polêmico roteiro, iremos acompanhar no longa, que Herman Mankiewicz o desenvolveu praticamente em repouso, em Victorville, buscando se recuperar de um acidente de carro. Rita Alexander (Lily Collins), é a secretária britânica que fica responsável em digitar o roteiro enquanto Mank a ditava. O filme não é necessariamente cronológico, pois ao mesmo tempo que nos mostra momentos da derrocada de Mank, também acompanhamos seus melhores momentos, e suas vivências em outro tempo e espaço. Ninguém pode negar a articulação e presença desse Mank vivido por Oldman.

Da mesma forma, iremos concomitantemente acompanhar uma América que vivia uma época de depressão, de notícias falsas, de eleições comprometidas, enfim… A contextualização da época é bastante crível e esclarecedora. William Randolph Hearst (vivido por Charles Dance, e em quem Charles Foster Kane foi inspirado), era a pessoa na qual Mank orbitava. Seus projetos eram aceitos e desenvolvidos. A mansão que Hearst dividia com sua amante Marion Davies (interpretada de forma magnífica por Amanda Seyfried), também teve influência nas inspirações de Cidadão Kane (a Xanadu de Kane).

O roteiro de “Mank” é assinado por Jack Fincher, pai de David Fincher, que veio a falecer em 2003. David, por seu lado, não deixa a peteca cair. Ele nunca faz nada que seja desinteressante. E se o filme estiver em um momento mais lento, você irá se surpreender com a fotografia em preto & branco perolado, algumas marcas de queimadura no filme (típico! e saudosista), entre outras coisas.

Herman J. Mankiewicz

Gary Oldman, como Mank

Welles foi vivido por Tom Burke, que impressiona, pelo menos a mim, pela semelhança com o verdadeiro. Podemos sentir o poder da personalidade de Welles e suas crenças nas futuras conquistas que viriam, nessa representação de Burke – e olha que são poucas as suas participações em “Mank”. Já Herman passa por diversos tipos de situações, e, acredito eu que acaba por concluir que ele é realmente uma espécie de bobo da corte. Um tolo. E que a vida continua acontecendo, glamourosamente ou não.

Tom Burke, como Orson Welles

Finalizando, recomendo que para desfrutar de “Mank”, você tenha conhecimento prévio de Cidadão Kane. Enriquece muito essa experiência em conhecer os bastidores da criação desse aclamado longa da história do cinema. É muito interessante observar como Herman ‘pegou’ Hearst como inspiração, e demonstrou em seu roteiro, e de forma posterior, visualmente, como um magnata dos jornais era uma pessoa um tanto vazia, que só queria ser aceito e amado acima de qualquer coisa.

 

 

__________________________________________________________________________________________________________________

 

 

Data de lançamento: 19 de novembro de 2020

Disponível: Netflix 

Elenco: Gary Oldman, Amanda Seyfried, Lily Collins

Duração: 2h 12min

Gênero: Drama, Biografia, Drama Biográfico

Diretor: David Fincher

Roteiro: Jack Fincher