“Você pode matar o revolucionário, mas não pode matar a revolução”

Grita Daniel Kaluuya, em uma cena do intenso Judas e o Messias Negro, filme no qual interpreta Fred Hampton, presidente do Partido dos Panteras Negras e ativista pelos direitos civis, assassinado pelo FBI, aos 21 anos.

Judas e o Messias Negro é mais um filme cogitado para receber ao Oscar, que mostra um relato doloroso sobre como era o racismo institucional nos EUA nos anos de 1960.

O segundo longa-metragem de Shaka King está inserido no momento mais atroz dessa luta, depois do assassinato dos líderes Martin Luther King e Malcolm X, além dos incidentes envolvendo Bobby Seale (O oitavo nos “Sete de Chicago”) e a prisão Huey Newton (Morte do oficial John Frey, de Oakland), tem no enredo os jovens negros que viam nessas figuras fontes de inspiração perderem o senso de orientação.

Nesse contexto de medo instaurado, ascende a figura do Black Messiah (Daniel Kaluuya), um dos oradores mais eloquentes da história do Movimento Negro: o jovem Fred Hampton, de formação intelectual marxista e ativo no Black Panther desde os seus 18 anos.

Em contrapartida, o antagonismo é representado pelo próprio governo americano que, no entanto, joga seu “vilanismo” para a Ku Klux Klan e se coloca em uma zona cinza e, consequentemente, se vê como um justiceiro que precisa estabilizar o caos público.

JUDAS E O MESSIAS NEGRO

A ligação entre Fred e o Estado se dá pelo ladrão Bill O’Neal que acaba sendo um infiltrado da polícia dentro dos Panteras ao invés de pagar pelos seus crimes. É através desse enredo que essa história real se transforma em um dos roteiros mais fortes da award season de 2021.

As alusões bíblicas do título repercutem em um drama tão atento à humanidade de seus personagens quanto ao seu significado político. Isso aumenta as dimensões trágicas deste relato visceral de um líder negro agregador elevado por um movimento de mudança e unidade social, e um estabelecimento totalmente branco com a intenção de esmagá-lo.

A escolha do diretor Shaka King é dar espaço em tela para os atores contarem as histórias de seus protagonistas de forma separada. Uma parte do filme é mostrada a partir da perspectiva de Fred Hampton, narrando sua trajetória e ascensão no Partido dos Panteras Negras de Illinois, assim como o crescimento regional e nacional da sua influência.

A outra metade do filme, contada a partir da percepção de William O’Neal, mostrará como ele se tornou um informante e parte do círculo mais próximo de Fred Hampton, para depois entregá-lo ao FBI.

Não à toa, Judas e o Messias Negro já rendeu algumas indicações e prêmiosa a Daniel Kaluuya como Melhor Ator Codjuvante (vencedor do Globo de Ouro e do Critics Choice Awards e indicado ao Oscar 2021).

A energia disposição é notória para apontar o gatilho à lei e gritar: “Chega! Se você continuar matando os meus, eu vou matar também. Se eu não tiver os mesmos direitos civis que os seus, eu vou tomar na força.”

JUDAS E O MESSIAS NEGRO

Apostando na tensão crescente, nas cenas de ação e nas atuações sempre marcantes de Stanfield e Kaluuya, e na recriação de uma outra época, o diretor já estabelece o tom de veracidade na cena de abertura em que vemos O’Neal, já envelhecido, participando de uma entrevista em 1989, e em seguida, enquanto nos mostra imagens reais de protestos da década de 60 e como não poderia deixar de ser da brutalidade policial.

Falar da recriação da época sem destacar o trabalho em conjunto do diretor de fotografia Sean Bobbitt (12 Anos de Escravidão), do responsável pelo design de produção Sam Lisenco (que atuou no departamento de arte de Se a rua Beale Falasse), e da figurinista Charlese Antoinette Jones seria uma injustiça.

Fotografado com maestria por Bobbitt de modo analógico, o filme ganha um aspecto opressivo e sufocante graças aos tons em cores esverdeadas usadas em cenas noturnas que contrasta com as cores brancas da parede da casa da mãe de Hampton, indicando um lugar em que ele pode finalmente se sentir em paz.

Charlese usa e abusa das cores verdes nas roupas desbotadas dos membros da organização, indicando que não foi ao acaso que os uniformes usados por cada um eram roupas velhas, provavelmente parte do uniforme dos combatentes do exército americano que estavam de volta à cidade após chegar da guerra do Vietnã.

E aquele vestuário acabou se tornando icônico, uma vez que a moda deveria ser a menor das preocupações de quem estava lutando pela vida.

O que difere o filme de tantos outros que são baseados em fatos reais como, Os 7 de Chicago ou Uma Noite em Miami? Ele consegue extrair temas como, política, comunidade familiar, racismo, intolerância, tudo isso em uma apoteose de interpretações.

JUDAS E O MESSIAS NEGRO

O filme não se detém na natureza incendiária de seus discursos, mas em uma retórica inflamada é cuidadosamente contextualizada como resposta direta à brutalidade policial sustentada contra a comunidade negra, um ciclo vicioso manipulado pela unidade de contraespionagem obscura do FBI.

Judas e o Messias Negro é uma biografia política poderosa e de intimidade familiar, imersiva e com relevância contemporânea, um conto de moralidade e união contra a injustiça moral e social ao menos favorecidos.

Trazer à tona de uma maneira poderosa, e enfurecedora de como o sistema de justiça criminal norte-americano procurou desmantelar, silenciar e literalmente destruir o movimento pelos direitos civis de meados do século passado.

“Onde há pessoas, há poder”, diz Hampton de Kaluuya muitas vezes no filme, cada repetição tendo um significado sutilmente diferente. E todas ficarão ecoando em seu ouvido por muito tempo, espero que gostem assim como eu.