Caçadas de Vida e de Morte, do autor João Gilberto Rodrigues da Cunha, foi lançado originalmente em 2001 e indicado ao Prêmio Jabuti no mesmo ano, sendo lançado recentemente pela editora Arqueiro, e já me pegou pela capa…

A história se passa no final do império e início da República, tendo como palco a formação do Triângulo Mineiro, tendo foco em dois personagens que poderiam ser descritos como a representação da retidão do meio rural em um, e a ambição, tanto pelo dinheiro quanto pelo poder, bem como a malícia das grandes cidades no outro.

Primeiro conhecemos Tonho Pólvora, que tem origem nas terras da Cidade de Oliveira e, uma vez que os irmãos mais velhos assumiram os negócios do pai, resolve buscar seu futuro em outras paragens. Assim chega na cidade de Desemboque, no Triângulo Mineiro, onde compra a fazenda Alvorada e dá início a melhorias na agricultura, além de iniciar comércio de sal e pólvora. Um típico personagem do campo, dedicado e atento a melhorias, trabalhador, amável, levando com ele Zé Brilino e Zé Anjo.

“Assim se faz a história. Nem sempre dos fatos queridos e planejados, muitas vezes da sorte ou acaso, ou do que árabes e fatalistas chamam de destino.”

Ao mesmo tempo, vamos encontrar José Antônio, um jovem contador que agora ocupa o cargo que foi de seu pai – um homem que trabalhou a vida inteira, perdendo a vista e a esperança. José Antônio não quer seguir esse mesmo destino, por isso, ele percebe que, como contador, todo o fluxo do caixa passa por suas mãos, e ele vai de pequenos em pequenos golpes, até chegar na transação que mudaria sua vida. Foge de São Paulo com o dinheiro do golpe e vai longe, chegando em Desemboque, uma cidade pequena, sem muito comércio, mas com possibilidade de aumentar a fortuna e abrir horizontes de José Antônio, que agora se chama José Albério.

Dois homens, duas trajetórias, dois objetivos, uma única cidade… já deu para perceber que o Desemboque vai ficar pequeno para esses dois!

A cidade tem um cidadão importante, o Coronel Macedo, cujo título remonta a Guarda Nacional. É aquela velha figura que estamos acostumados, e que deu origem ao Coronelismo: tudo que se passa na cidade, dá-se conta ao Coronel, um latifundiário cujas duas filhas estudam em Ouro Preto, e que serão quase importantes para a trama – já explico!

Ao mesmo tempo, também vamos conhecendo a estória de Manuel Crispim, um antigo policial que, ao proteger a filha e a neta, se vê sem emprego, e é contratado pelo antigo patrão de José Albério, que quer vingança. Não quer a justiça da lei, quer a cabeça do rapaz que lhe passou a perna, não pela perda financeira, mas pelo orgulho ferido…

“O homem julga o que não acontece – só Deus julga o que conhece.”

Caçadas de Vida e de Morte me pegou pela capa, já confessei isso, mas também pelas indicações da quarta capa – afinal, é comparado as narrativas de Guimarães Rosa, além da ambientação nas minhas Minas Gerais…, mas ele foi além.
Foi interessante visualizar como se deu essa transição entre império e república, e de como as forças políticas permaneceram as mesmas – afinal, quem era pobre no império, permaneceu pobre na república.

Quem era latifundiário, também. Ou seja, mesmo que em algumas capitais tenha havido alguma movimentação, nos interiores a cena política só vestiu o verniz de um novo cenário. Os currais eleitorais permanecem! Ainda, foi interessante ver o surgimento de um dos nossos pilares: em dado momento, o Coronel Macedo tem de regularizar seus papeis, e conhece em primeira mão a burocracia emergente…

Além disso, também vale destacar uma marca dessa estória, de todas as estórias que se cruzaram durante a narrativa, e que evoca Lord Acton, autor da famosa frase: “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente, de modo que os grandes homens são quase sempre homens maus.”: o que acontece com o ser humano quando ele ganha poder? E o que acontece quando ele perde poder? Temos vários personagens que estarão sempre numa linha tênue, a depender do que acontece ao seu redor… Não temos mocinhos nem vilões, mas seres humanos que tomarão decisões – algumas bem questionáveis, outras, que parecem fazer sentido, mesmo que ilegais. Tudo muito cinza… somos todos humanos, não é?

Vale mencionar e ressaltar que essa estória tem muitos gatilhos – violência contra a mulher, contra animais, contra homens… algumas cenas me pareceram até gratuitas, e me fizeram mal. Sabe quando é difícil de digerir? Até imagino que o autor tenha optado por demonstrar a crueza da realidade nos nossos tantos lugarejos, mas algumas delas foram bem cruéis.

Caçadas de Vida e de Morte tem uma linguagem bem diferente, lírica, e pode parecer cansativa no início, justamente pela apresentação dos personagens, além de trazer uma narrativa bem do dia a dia das fazendas. Mas, uma vez conhecidos, e dado o suspense que essa caçada traz, adianto que fica difícil largar o livro.

Só lamento a falta de personagens femininas fortes – lembra que lá no início já mencionei que foram quase importantes? O protagonismo é total dos homens, e ao menos uma dessas mulheres poderia trazer muito mais a trama, mas foram esquecidas – quando não tinham destino pior!

Enfim, um retrato fiel de um período da nossa história, com o velho confronto entre o bem e o mal, mas aqui com pinceladas de realidade, e que ainda assim nos faz clamar por justiça.

João Gilberto Rodrigues da Cunha nasceu em Uberaba. Médico, empresário e agropecuarista reconhecido internacionalmente por seu trabalho de seleção da raça Zebu. Foi finalista do prêmio Jabuti, em 2001, com o livro Caçadas de Vida e de Morte. Ocupa a cadeira 38 da Academia de Letras do Triângulo Mineiro.
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Título: Caçadas de Vida e de Morte
Autor: João Gilberto Rodrigues da Cunha
Ano: 2021
Páginas: 400
Editora: Arqueiro
Gênero: Literatura Nacional/Suspense/Mistério
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