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A ODISSÉIA DE PENÉLOPE – MARGARET ATWOOD | RESENHA

21 abril, 2021 por

“A Odisséia de Penélope” é uma história republicada no ano passado pela Editora Rocco. Trata-se de uma releitura do clássico “A Odisséia” de Homero, onde acompanhamos dessa vez o lado da história de Penélope e suas doze escravas assassinadas. Com a sagacidade da escrita de Margaret Atwood utilizando-se de vários outros textos de apoio, encaramos a outra face da saga do herói e principalmente os sentimentos da serena e paciente esposa que o aguardou por 20 anos.

Antes de tudo é necessário dar uma resumida sobre o que acontece em “A Odisséia”. Na história temos Odisseu, marido de Penélope, sendo convocado a lutar na guerra de Tróia junto a Menelau, para resgatar sua esposa Helena (Sim, a famosa. E prima de Penélope). Foram 10 anos de batalha e mais 10 anos que Odisseu demorou para voltar para casa, na ilha de Ítaca. Nesse período, Penélope permaneceu firme e fiel, aguardando o retorno do marido e cuidando do filho Telêmaco. Usou de sua inteligência para fugir dos diversos pretendentes que passaram a encher sua casa, visando as riquezas de seu marido.

Ao retornar após 20 anos de batalhas, desafios, aventuras fantásticas e envolvimentos com deusas, Odisseu matou todos os pretendentes que enchiam a sua casa e gastavam seu patrimônio durante sua ausência. Além disso, matou também suas doze escravas que haviam se relacionado sexualmente com os tais pretendentes, sem autorização do Senhor da casa . Penélope recebeu o seu marido sem questionamentos, como a boa esposa que era, e tudo ficou bem.

“Agora que todos os outros perderam o fôlego, é a minha vez de fazer meu relato. Devo isso a mim mesma”

A Odisséia de Penélope

Ficou mesmo? Odisseu estava certo em matar suas escravas? Penélope foi, por todo tempo, a resignada esposa que aguardava seu marido? A autora relata em sua introdução que essas foram questões que sempre existiram em sua cabeça desde que realizou a leitura. Por isso resolveu ampliar suas pesquisas e buscou dar voz àquelas que não tiveram no famoso clássico. Penélope é nossa narradora e as doze escravas formam o coro e assim fazem seu lamento.

Em “A Odisséia de Penélope”, centenas de anos se passaram e nossa protagonista caminha sozinha pelo Hades. Se a primeira pergunta que surgiu na sua cabeça foi “Onde está Odisseu?”, CALMA. Você está entrando na história de forma errada. Agora que todo mundo cansou de contar o que quis, essa é a vez de Penélope tomar as rédeas da narrativa. E é isso que ela faz, transita pelo Hades, encontra pessoas que participaram ativamente de sua história, e comenta sobre tudo que viveu.

“Quando chorávamos, ninguém enxugava nossas lágrimas. […] Diziam que éramos vadias. Diziam que éramos sujas. Éramos as moças sujas. Se nossos donos, seus filhos, um nobre visitante ou os filhos dele quisessem deitar conosco, não poderíamos recusar. Não adiantava chorar, não adiantava dizer que doía.”

MARGARET ATWOOD

Com o risco de soar de forma bastante anacrônica, acredito que essa seja uma visão da história bastante necessária. Principalmente agora, onde temos trabalhado tanto o papel feminino. “A Odisseia” soa bastante machista nos dias atuais, uma vez que Odisseu passou os seu 10 anos de retorno se relacionando com deusas e vivendo diversas aventuras. De Penélope é esperada apenas uma fidelidade absoluta e paciente, devendo agir com felicidade e sem estranhezas no retorno do marido. A questão das escravas então… Caso Odisseu estivesse presente e autorizasse ou obrigasse que elas mantivessem relações sexuais com convidados, não teria problema. Mas como ele estava ausente e não permitiu, elas mereceram a morte.

Bom, com a escrita sagaz de Margareth Atwood temos uma versão moderna e entendida dos dias atuais de Penélope. Ela levanta vários questionamentos sobre os fatos da história de origem, sobre seus laços familiares e até sobre seu nascimento e casamento. Vemos sua relação com a desejada prima Helena (de Tróia), e aqui mora minha única reprovação ao texto, pois a relação das duas é bem “Meninas Malvadas”.

“A maneira como é contada a história na Odisseia não convence, há muitas incoerências.”

Margareth Atwood

A Odisséia de Penélope

Achei cansativo e desnecessário. Em todos os momentos em que Helena surge, vemos uma versão extremamente ciumenta e invejosa de Penélope, que desvia completamente do foco de contar sua história. Pra que insistir na velha fórmula da rivalidade feminina, né?!

“A Odisseia de Penélope” foi, no geral, uma leitura muito divertida e interessante. Acredito que mesmo aqueles que não tenham lido “A Odisseia” não terão dificuldade em mergulhar nesta história, uma vez que Penélope contextualiza bastante o assunto abordado. Eu nunca havia pensado na vida após a morte desses personagens e em seus conflituosos encontros ao vagar pelo Hades. No entanto, nessas 126 páginas eu acabei encontrando algo que foi um prazer e que eu precisava, só não sabia ainda!

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A Odisseia de Penélope
Autor: Margaret Atwood
Tradutor: Celso Nogueira
Nota: 4/5
Ano: 2020
Páginas: 128
Editora: Rocco
Ficção Histórica, Mitologia Literatura, Ficção Feminina, Romance
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10 Comentários

  • Leticia Rodrigues
    abril 26, 2021

    Atwood sempre incrível, sempre firme e com ideias a frente, eu amo a escrita dela, o impacto das obras dela e essa eu ainda não conhecia porém ja vai pra lista de desejados. quem não conhece a história de Homero e trazer a visão de Penelope é bem algo que vejo a autora criando mesmo.

  • Carol Nery
    abril 26, 2021

    Nossa, miga
    Que curtinho o livro. Curioso pensar que dá para se abordar esse tema e essa história em tão poucas páginas. Sei que você é super fã da autora, e deve ter absorvido tudo da melhor forma possível. Achei interessante a abordagem do texto! Fiquei curiosa. Mas, nunca li nada da Margareth ainda. Preciso, né???
    Ótima resenha. Como sempre! Beeeijo

  • Erika Monteiro
    abril 26, 2021

    Oi, tudo bem? Uau que proposta mais interessante desse livro. Me chamou atenção por vários motivos. Primeiro pela autora, a admiro desde O conto da Aia. Segundo pela releitura de uma obra tão famosa. Creio que para chegar nesse resultado é preciso alguns anos de pesquisa, se aprofundar e ter ideia de como tudo pode ter acontecido naquele período. Geralmente quando lemos uma obra costumamos ver apenas um lado, mas acho importante o exercício de conseguir enxergar como foi o mesmo fato para os demais envolvidos. Já pensou nisso? Não lembro de já ter lido o primeiro livro mas fiquei bem curiosa após suas impressões. Um abraço, Érika =^.^=

  • Debora Sapphire
    abril 25, 2021

    Achei essa edição e proposta da obra maravilhosas! Confesso que já estou muito interessada e curiosa pra ler esse livro desde a primeira vez em que li alguém contando sobre. Na minha opinião, vai ser ótimo uma versão mais atual desse mito famoso. Uma história que conheço um pouco pelas referências na mitologia.

  • Joyce
    abril 24, 2021

    Tô namorando a capa desse livro, vi lá no seu Instagram. Confesso que não conhecia essa história ainda, mas já vou anotar sua dica porque com certeza eu vou ler.

    • Karina Rodrigues
      abril 25, 2021

      Espero que goste do livro tanto quanto eu e que tenha a oportunidade de ler em breve.

  • Lilian Farias
    abril 24, 2021

    Margaret Atwood é uma autora fabulosa e esse livro está em minha meta para comprar, aliás, quero todos os livros dela. Acho esse livro genial, o pouco que sei dele porque não tive a oportunidade de ler, a história por outra perspectiva.

    • Karina Rodrigues
      abril 25, 2021

      Também estou nesse grupo, viu! Quero todos da Margaret. Minha próxima leitura é Oryx e Crake.

  • Valéria
    abril 24, 2021

    Caramba.. não sabia desse livro dela e já quero pra ontem. To com cinco aqui na fila, um pra reler e outro pra concluir. Agora vem esse pra aumentar a lista de Atwood. Fiquei bem curiosa pra ver como se dá essa perspectiva de Penélope na história da Odisseia… Interessantes os pontos de crítica que a autora levantou.
    Tschüss e obrigada pela dica

    • Karina Rodrigues
      abril 25, 2021

      Oie! Então, a Margaret faz isso com a gente, neh! Enche a nossa lista e só de textos necessários. Estou me preparando pra começar Oryx e Crake, inclusive. A oportunidade de ler a saga através de Penélope foi bem legal.