“A Odisséia de Penélope” é uma história republicada no ano passado pela Editora Rocco. Trata-se de uma releitura do clássico “A Odisséia” de Homero, onde acompanhamos dessa vez o lado da história de Penélope e suas doze escravas assassinadas. Com a sagacidade da escrita de Margaret Atwood utilizando-se de vários outros textos de apoio, encaramos a outra face da saga do herói e principalmente os sentimentos da serena e paciente esposa que o aguardou por 20 anos.

Antes de tudo é necessário dar uma resumida sobre o que acontece em “A Odisséia”. Na história temos Odisseu, marido de Penélope, sendo convocado a lutar na guerra de Tróia junto a Menelau, para resgatar sua esposa Helena (Sim, a famosa. E prima de Penélope). Foram 10 anos de batalha e mais 10 anos que Odisseu demorou para voltar para casa, na ilha de Ítaca. Nesse período, Penélope permaneceu firme e fiel, aguardando o retorno do marido e cuidando do filho Telêmaco. Usou de sua inteligência para fugir dos diversos pretendentes que passaram a encher sua casa, visando as riquezas de seu marido.

Ao retornar após 20 anos de batalhas, desafios, aventuras fantásticas e envolvimentos com deusas, Odisseu matou todos os pretendentes que enchiam a sua casa e gastavam seu patrimônio durante sua ausência. Além disso, matou também suas doze escravas que haviam se relacionado sexualmente com os tais pretendentes, sem autorização do Senhor da casa . Penélope recebeu o seu marido sem questionamentos, como a boa esposa que era, e tudo ficou bem.

“Agora que todos os outros perderam o fôlego, é a minha vez de fazer meu relato. Devo isso a mim mesma”

A Odisséia de Penélope

Ficou mesmo? Odisseu estava certo em matar suas escravas? Penélope foi, por todo tempo, a resignada esposa que aguardava seu marido? A autora relata em sua introdução que essas foram questões que sempre existiram em sua cabeça desde que realizou a leitura. Por isso resolveu ampliar suas pesquisas e buscou dar voz àquelas que não tiveram no famoso clássico. Penélope é nossa narradora e as doze escravas formam o coro e assim fazem seu lamento.

Em “A Odisséia de Penélope”, centenas de anos se passaram e nossa protagonista caminha sozinha pelo Hades. Se a primeira pergunta que surgiu na sua cabeça foi “Onde está Odisseu?”, CALMA. Você está entrando na história de forma errada. Agora que todo mundo cansou de contar o que quis, essa é a vez de Penélope tomar as rédeas da narrativa. E é isso que ela faz, transita pelo Hades, encontra pessoas que participaram ativamente de sua história, e comenta sobre tudo que viveu.

“Quando chorávamos, ninguém enxugava nossas lágrimas. […] Diziam que éramos vadias. Diziam que éramos sujas. Éramos as moças sujas. Se nossos donos, seus filhos, um nobre visitante ou os filhos dele quisessem deitar conosco, não poderíamos recusar. Não adiantava chorar, não adiantava dizer que doía.”

MARGARET ATWOOD

Com o risco de soar de forma bastante anacrônica, acredito que essa seja uma visão da história bastante necessária. Principalmente agora, onde temos trabalhado tanto o papel feminino. “A Odisseia” soa bastante machista nos dias atuais, uma vez que Odisseu passou os seu 10 anos de retorno se relacionando com deusas e vivendo diversas aventuras. De Penélope é esperada apenas uma fidelidade absoluta e paciente, devendo agir com felicidade e sem estranhezas no retorno do marido. A questão das escravas então… Caso Odisseu estivesse presente e autorizasse ou obrigasse que elas mantivessem relações sexuais com convidados, não teria problema. Mas como ele estava ausente e não permitiu, elas mereceram a morte.

Bom, com a escrita sagaz de Margareth Atwood temos uma versão moderna e entendida dos dias atuais de Penélope. Ela levanta vários questionamentos sobre os fatos da história de origem, sobre seus laços familiares e até sobre seu nascimento e casamento. Vemos sua relação com a desejada prima Helena (de Tróia), e aqui mora minha única reprovação ao texto, pois a relação das duas é bem “Meninas Malvadas”.

“A maneira como é contada a história na Odisseia não convence, há muitas incoerências.”

Margareth Atwood

A Odisséia de Penélope

Achei cansativo e desnecessário. Em todos os momentos em que Helena surge, vemos uma versão extremamente ciumenta e invejosa de Penélope, que desvia completamente do foco de contar sua história. Pra que insistir na velha fórmula da rivalidade feminina, né?!

“A Odisseia de Penélope” foi, no geral, uma leitura muito divertida e interessante. Acredito que mesmo aqueles que não tenham lido “A Odisseia” não terão dificuldade em mergulhar nesta história, uma vez que Penélope contextualiza bastante o assunto abordado. Eu nunca havia pensado na vida após a morte desses personagens e em seus conflituosos encontros ao vagar pelo Hades. No entanto, nessas 126 páginas eu acabei encontrando algo que foi um prazer e que eu precisava, só não sabia ainda!

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A Odisseia de Penélope
Autor: Margaret Atwood
Tradutor: Celso Nogueira
Nota: 4/5
Ano: 2020
Páginas: 128
Editora: Rocco
Ficção Histórica, Mitologia Literatura, Ficção Feminina, Romance
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