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NOMADLAND | ALERTA OSCAR

12 abril, 2021 por

O mais badalado dos filmes que concorrem ao Oscar é, de longe, “Nomadland”, que é dirigido, roteirizado e editado por Chloé Zhao (Songs My Brothers Taught Me, e The Rider). É estrelado pela ótima Frances McDormand (Três Anúncios para um Crime, e Cenas da Vida), que interpreta Fern, viúva, que sofreu os reveses do colapso econômico numa cidade empresarial de Nevada, Empire. Ela então coloca toda sua vida numa van e passa a percorrer todo o oeste americano, em busca de trabalhos temporários, vagas em estacionamentos para dormir e experiências marcantes.

“Nomadland” acabou de aumentar a coleção de prêmios ao vencer as quatro principais categorias do Bafta (maior premiação do cinema britânico): melhor filme, direção, fotografia e atriz. Também no último fim de semana, o filme venceu a premiação do Sindicato de Diretores da América (DGA), tendo Zhao como melhor diretora. Além destes, “Nomadland” venceu diversos outros prêmios de cinema, colocando-o como grande favorito a diversas estatuetas no próximo dia 25.

Se a maioria dessas pessoas saem pelo país em suas vans em busca de trabalho, deixando para trás família, uma casa e certo conforto, o fazem inicialmente pela necessidade. Porém, a vida na estrada, sem residência fixa, com uma liberdade pouco experimentada por grande parte da sociedade acaba por mudar a natureza destes, tornando-os inadequados para uma retomada da vida ‘em comunidade’, com casa, CEP fixo, trabalho com ponto batido.

“O que é lembrado, vive.”

Fern tem duas oportunidades de se estabelecer, ajudada por pessoas que gostam dela, e a oferecem quartos e casas, para que saísse da vida nômade. Na casa da irmã, onde vai buscar um auxílio financeiro para o conserto da van, recebe tal proposta e a declina de imediato, especialmente diante da curta experiência por lá, tendo contato com preconceitos e ideias que não fazem parte de seus valores.

Ela experimenta uma vida que foi a escolha desesperada de muitos, mas que passou a se tornar um modo de vida. Ela não tem emprego fixo. Vive procurando e aguardando por oportunidades em diferentes cidades e estados. Sobra pouquíssimo tempo para relações pessoais e amizades, o que não significa que as que existam pelas estradas não sejam significativas e profundas. Pois, ninguém é mais capaz de entender o lado do outro do que aquele que está na mesma situação. Esse sentimento fica expresso numa conversa de Fern com Bob (Bob Wells), já próximo do fim desse incrível longa:

” Uma das coisas que mais amo nesta vida é que não existe um adeus definitivo. Conheci centenas de pessoas por aí e elas jamais dizem um adeus final. Eu sempre digo simplesmente, ‘Te vejo pelo caminho’, e eu vejo. E demore um mês, ou um ano, ou às vezes anos, eu as vejo de novo.”

A mesma estrada que distancia estranhos é aquela que os aproxima de novo. Vemos isso na relação de Fern com Dave (David Strathairn) onde desenvolve-se uma afeição mútua, nascida da amizade e do sentimento de solidão. Fern cuida de Dave quando ele tem diverticulite, lhe prepara sopa, leva biscoitos no hospital (incluindo seu chocolate favorito)… Depois que sai do hospital, por conseguinte, Dave consegue um emprego para Fern na mesma lanchonete que eventualmente trabalha. Nessa mesma lanchonete, o filho de Dave aparece para avisar que será pai. E que gostaria da presença de Dave na vida do neto, já que não foi possível na relação entre pai e filho.

Aqui temos, através de Fern, algumas características de pessoas que vivem em suas vans, tomando conta de suas vidas. Dave convida Fern para ir junto com ele para a casa do filho, em clara demonstração de sentimentos. Ela desvia-se da proposta, prometendo uma visita simples. Pois quem vive na estrada, tendo o próprio rumo ditado por uma espécie de acaso, não pode se dar ao luxo do apego, do se apaixonar, pois nada pode sobrar disso além de saudade e dor.

Ela também cumpre a promessa e vai visitar Dave. Fern está, de novo, numa casa boa, com uma vida em família, com um homem que deixa enfim claro que gostaria de a ter por perto. Inclusive intercedendo por sua permanência com os donos da casa, que já sabem dela muito antes de sua chegada. Mesmo tal sedutora oferta não a impede de voltar para ‘seu lar’, a estrada. Porém, até a mais nômade alma um dia pode querer se aquietar. A vida de Fern não termina ao fim do filme. Quem sabe ela não dá uma chance a si mesma de amar de novo e viver uma vida mais segura?

Em conclusão, iremos acompanhar a saudade de Fern em perder uma vida que foi arrancada dela. Ao mesmo tempo, não consegue mais ter um teto sobre si. Relações emotivas e/ou familiares parecem não mais ser opção para ela. “Nomadland” nos conta um pouco da história de nômades dos Estados Unidos. E como as razões para a escolha desse ‘estilo’ de vida se dá por inúmeros e mais diversos fatores. Também conta com a presença de nômades reais, com suas vivências verdadeiras.

Baseado no livro “Nomadland: Surviving America in the Twenty-First Century” (2017), de Jessica Bruder, a história contada no filme, pelas mãos e olhos de Zhao, desvia um pouco do que a autora supôs para vida de Fern. E acredito eu, o filme foi pontual. Emotivo, especial, lindo e tem muitas chances de arrecadar vários prêmios no Oscar. Tudo que podemos sentir é empatia, e mais, o desejo de reconhecimento por parte da academia. Te convido a deixar a Fern de McDormand falar com você. Esse é daqueles filmes para se ter em casa!

A conclusão do filme, logo após uma fogueira com colegas de estacionamento em homenagem a entes queridos que partiram, é uma viagem de Fern até Empire, onde viveu uma vida simples. Contudo, pelas lágrimas e amor que demonstra pelo marido, uma vida feliz. A visita à antiga fábrica abandonada, e depois até sua rua e casa, uma simples casa de empresa, onde vivia decentemente antes da crise.

Enfim, ver o lugar onde se passou tanto tempo e se viveu tantas coisas, completamente vazio e tomado de poeira, deve ser o maior sentimento de impermanência que um ser humano pode sentir. Pois tudo estava ali, e nada mais está. Tal visita é muito simbólica em relação à nova vida de Fern, que nunca permanece, apenas passa e vai embora. Só ficam as lembranças e a nostalgia. A maior parte delas, guardada num galpão, Fern se livra delas para sempre. Entretanto, carrega com ela, além de alguns pratos dados pelo pai (quebrados e agora colados), apenas suas melhores recordações.

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Data de lançamento: 15 de abril de 2021
Elenco: Frances McDormand, David Strathairn, Gay DeForest
Duração: 1h 48min
Gênero: Drama, Adaptação Literária
Direção: Chloé Zhao
Distribuidor: Walt Disney Pictures

 

 

 

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2 Comentários

  • Angela Cunha
    abril 14, 2021

    Só hoje consegui entender de fato os motivos desse filme estar sendo apontado como o grande vencedor, mesmo não tendo visto todas as indicações ainda e estar louca para ver o do Hopkins!
    Essa atriz é maravilhosa e preciso muito ver esse filme o quanto antes, só para mergulhar nessa viagem solitária e tão repleta de sentimentos!!!
    Beijo

    Angela Cunha/O Vazio na Flor

  • Paulo Daniel
    abril 13, 2021

    Suas postagens são ótimas, estou seguindo seu blog e curtindo bastante!! Parabéns!

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