‘Você’, da autora Caroline Kepnes, foi lançado em 2018 pela Editora Rocco. Tendo dado origem a uma série homônima na Netflix, e considerado um best-seller pelo The New York Times, hoje falaremos um pouco da minha experiência com esse livro, que se tornou tão famoso.

Em ‘Você’ nos deparamos com Joe Goldberg, que trabalha e administra uma livraria do East Village. Preciso dizer antes de tudo, que a ideia original de ‘Você’ é bastante imersiva. O leitor vai acompanhando a narrativa da autora, ora acreditando, ora desacreditando no que os olhos estão lendo. E desde a primeira página de ‘Você’ nós já podemos perceber quão “perturbado” Joe pode ser.

Guinevere Beck é uma aspirante a escritora. Bela e charmosa – mas também egocêntrica e um bom tanto manipuladora –, a moça prefere ser chamada simplesmente de Beck, e é assim que nos referiremos a ela daqui em diante. ‘Você’ é sobre Beck. É sobre como podemos estar à mercê de uma pessoa transtornada ou até de um maníaco, sem ao menos nos dar conta disso. Beck é, sobretudo, um alerta a respeito de quão aberta são e/ou estão as cortinas dos nossos bastidores.

“As pessoas passam por seu apartamento térreo, ligeiramente acima da rua, e não param para olhar embora você esteja realmente em exibição”.

Joe é nosso narrador, e ele passa por todo o livro, contando sua história. Ele literalmente narra os fatos do que faz, e os motivos pelos quais os faz, à Beck. O que pra ele é algo normal, fácil e natural… Para o leitor se torna algo assustador. Toda essa invasão de privacidade foi só o início do que Joe seria capaz de – achando supernormal – fazer para alcançar Beck.

Acredito que esse estilo de narrativa, bem como, a palavra ‘Você’ começando alguns capítulos e parágrafos, tenha sido uma espécie de artimanha da autora para imergir, bem como, captar seu leitor. Uma narração intimista, extremamente focada no amor que Beck despertou em Joe. A culpa foi dela?

Não há como dizer que ‘Você’ não seja um livro das lembranças mais íntimas de Joe sobre quando Beck surgiu em sua vida. A partir daí conheceremos à rotina de ambos. A de Joe, porque estamos acompanhando seus dias. A de Beck, porque Joe faz questão de esquadrinhar cada cantinho de sua vida. E o que assusta, é a forma como tudo que Joe faz para descobir algo a respeito de Beck, é uma réplica do que qualquer cara poderia fazer na vida real.

“Digo a ele que não consigo deixar de ver o vídeo (Você), pensar no vídeo (você) e desejar poder viver dentro do vídeo (você). Digo a ele que perdi o interesse em tudo por causa desse vídeo (você) e preciso ter algum controle”.

Kepnes é uma jovem autora que se deu bem de cara com sua primeira história. Agradando o grande público, ‘Você’ ganhou rosto e vida na pele dos atores Penn Badgley (o Dan, de Gossip Girl) e Elizabeth Lail (a Princesa Anna de Arendelle, em Once Upon a Time). Pronto! A partir daí, contudo, mesmo sem ter tido contato com a série da Netflix, não consegui mais desassociar esses rostos conhecidos, dos personagens principais.

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Por ter suas contas (perfis) em plataformas e redes sociais, todas Públicas e sem restrições de quem poderia ter acesso, Beck deixou – e aqui não estou culpando a moça, só inferindo uma constatação pessoal – Joe entrar de cabeça em sua vida. Ele descobriu seu endereço e quem eram suas amigas. Ele descobriu o que ela gostava de fazer e onde frequenta. Ele conseguiu alimentar sua OBSESSÃO que a cada dia, só crescia mais. Para Joe, ele não era um talvez, mas ele era sim O CARA para a vida de Beck.

Contudo, pelo ritmo do que já disse até aqui, podemos ter garantias que esse amor demais, esse interesse desacerbado, que tudo isso, não nos levará a um “felizes para sempre”. E, mesmo essa história já sendo conhecida de tantos seja pelo livro Você, seja pela série da Netflix, eu não vou me delongar, pois, é óbvio que não quero dar nenhum spoiler.

“A única coisa mais cruel que uma gaiola pequena onde um pássaro não pode voar é uma gaiola grande onde um pássaro pensa que pode voar”.

Algo que senti latente na escrita de Kepnes é o teor das suas cenas sexuais. A autora dá um show em retratar uma cena de sexo, e talvez, se ela enveredasse por esse caminho seria muito mais feliz. Opinião, gente! Só isso… Eu não sou uma leitora de literatura hot, mas senti que se Kepnes seria boa em uma história mais caliente, e deixando de se envolver em uma espécie de thriller. Quem sabe?

VOCÊ - CAROLINE KEPNES

Joe é nosso anti-herói em ‘Você’. Acompanhando suas reações e sensações, o leitor se vê confuso em seus sentimentos e às vezes, poderá se pegar torcendo para algo dar certo na vida do rapaz. Mesmo tendo certeza que ele não é um cara legal. Com tanta pesquisa sobre Beck, e de se tornar um Stalker na forma mais grave que esse termo pode ter, Joe acaba por se formatar em “o homem dos sonhos” de Beck. Claro! Ele está na vantagem, seguindo todos os seus passos, sem ela ao menos se dar conta.

Acredito que podemos associar alguns trechos da narração, como uma espécie de Síndrome de Estocolmo (estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo amor ou amizade perante o seu agressor). Não somos nós a pessoa agredida, mas somos postos à prova enquanto leitores. Somos submetidos de maneira intrínseca à pessoa obcecada que Joe é.

‘Você’ é um livro que não é difícil de ler. Eu achei que os capítulos foram passando até numa velocidade boa, e terminei o livro em pouco tempo. Mas, embora a trama seja interessante e eu me tenha visto curiosa a respeito de como essa confusão Joe/Beck iria terminar, ‘Você’ não funcionou para mim. Não é o tipo de leitura que me agrada, ou que eu recomende aos amigos. A mim pareceu ser mais uma forma de envolver sexo – num ritmo quente –, transtorno de personalidade, e a vida na rede social de forma escancarada.

Ficou alguma lição? Claro! Repensemos a quem nós entregamos o direito de conhecer nossa vida, nossa intimidade. Ademais, a internet nos tornou acessíveis, nos tornou inábeis com o “face to face”, e até mesmo, nos deixou totalmente à mercê do outro. Coisas boas acontecem? Sim. Em ‘Você’ a gente pode perceber quão perigoso e doentio pode ser deixar tudo liberado e sem censura, ali, no mundo virtual.

“É possível conhecer as pessoas. Eles mostram quem são. Você apenas tem que estar observando”.

Concluindo, gostaria de salientar que temos inúmeras e valiosas citações em “Você”. Tanto quando se trata de música, passando pela literatura (se fala bastante sobre o mestre King), até chegar ao cinema. Foi algo que achei bem legal na trama. Citações de nomes de atores, de cenas, de falas. Algumas coisas ficam na mente da gente. E isso realmente valeu a pena.

A análise psicológica que podemos fazer das personagens também foi um bônus. Joe, por exemplo, parece ser um docinho de coco. Mas, sua mente é bem deturpada, usa termos chulos quase sempre em seus pensamentos. O fato é que nunca vi um bando de gente tão complicado vivendo a tão poucos graus de separação!!! Mas, não espere um thriller que te aterrorize por suspense, ou por muito sangue. Seria uma história que te assusta pelas possibilidades, contudo.

Finalizando, eu gostaria de avisar pra minha xará, a autora, que o uso exacerbado da palavra VOCÊ causa repulsa no leitor mais puro, quanto mais a mim que sou bem chata. Sim, a gente entendeu o título da obra. Deu pra entender que Joe narra suas peripécias pra Beck, e que ela é o tal Você. O duro foi dar conta da quantidade de Você espalhado a cada capítulo. Exagerou querida!

“Eu matei por você. Eu mereço Você”.

Ah, gente… Só um adendo: Certamente se você romantizou esse livro, a relação construída pelas personagens, se você acha que existem pontos positivos de alguma forma nessa trama, por favor, CUIDADO! Talvez você precise de ajuda de profissionais da saúde mental. hahahaha

A edição que recebi é aquela com os atores do seriado na capa, portanto já não rola aquela preferência. Gostei da textura e da fonte do título do livro. No mais, a diagramação é simples, sem qualquer detalhe mais rebuscado. As folhas são levemente amareladas, e a página de guarda dessa edição veio parecendo ter sido cortada à régua. Mas, relevamos! hahaha

“(…) o problema com os livros é que eles terminam. Eles seduzem você. Eles abrem as pernas para você e te colocam pra dentro. E você vai fundo e você deixa seus pertences e suas amarras ao mundo na porta e você gosta de estar lá dentro e você não quer os seus pertences e suas amarras e então, o livro evapora. Você vira a página e não há nada e nós dois estamos chorando”.

Sobre a autora:

Caroline Kepnes é de Cape Cod, Massachusetts. Seu primeiro romance, Você, foi indicado para um CWA New Blood Award. Caroline se formou em Civilização Americana na Universidade de Brown. Ela trabalhou como jornalista de cultura pop para a Entertainment Weekly. Também trabalhou como redatora de TV para “7th Heaven” e “The Secret Life of the American Teenager“. Hoje, ela escreve em tempo integral. Sua residência oficial é em Los Angeles (Fonte)

“Você não entrou aqui por causa dos livros, Beck. Você não precisava dizer meu nome. Não precisava sorrir, escutar ou me dar atenção. Mas fez isso. Sua assinatura está no recibo. Essa não foi uma transação em dinheiro e não foi um débito. Isso foi real”.

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Você é sobre obsessão, crimes e os perigos aos quais estamos sujeitas.

Série You: 
1. Você
2. Corpos Ocultos 

Titulo: Você
Autor: Caroline Kepnes
Ano: 2019
Páginas: 384
Editora: Rocco
Gêneros: Suspense e Mistério
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