Um lugar bem longe daqui, da escritora estadunidense Delia Owens, foi o oitavo livro da caixa Intrínsecos, e já é um fenômeno editorial, com mais de 2 milhões de cópias vendidas, tendo seus direitos adquiridos por Reese Whiterspoon.

Vamos conhecer Kya Clark, uma garota abandonada por sua família que precisa compreender a natureza a seu redor para poder sobreviver. A história, que se divide entre passado e presente, nos traz a vida da “menina do brejo” e uma investigação de um assassinato que se dá 17 anos depois de quando Kya é mencionada pela primeira vez.

Aos seis anos, Kya vive no pântano – pejorativamente denominado brejo pelos habitantes da cidade, e vive em um casebre junto com seus pais e irmãos. Até que sua mãe, cansada da violência do marido alcóolatra, é a primeira a abandonar a família. Na sequência seus irmãos, um a um, também vão abandoná-la, até que seu pai um dia também vai embora, deixando a menina quando tem cerca de nove anos.

“Kya quis gritar que podia ser nova, mas não era burra. Sabia que Pa era o motivo pelo qual todos partiam; o que não entendia era por que ninguém a levava junto.”

As interações da família se davam quando iam à cidade em busca de mantimentos, ou quando o pai abastecia a lancha – então ela entende que essas interações precisam continuar. Como Kya sempre foi uma boa observadora e uma boa ouvinte, ela consegue sobreviver com os conselhos da mãe e de seu irmão mais próximo, e depois da observação da própria natureza.

Como ela já sabia manejar a lancha de seu pai, vai até a cidade para abastecer e acaba por encontrar em Pulinho, que tem um posto de combustível, um ponto de apoio. Bom, estamos na Carolina do Norte dos anos 1960, carregada de preconceito – Pulinho e sua esposa Mabel são negros, e estão à margem daquela cidade. Mas isso não tira a solidariedade desse casal, que estenderão a mão de uma forma lindíssima para aquela garota abandonada.

“Barkley Cove tinha escola para brancos. Do primeiro até o décimo segundo ano, as crianças frequentavam uma escola de tijolos de dois andares que ficava no outro extremo da Main em relação ao escritório do xerife. As crianças negras tinham a própria escola, uma estrutura de cimento de um andar só perto de Colored Town.”

Mas, mesmo sendo discriminada, agentes educacionais foram em busca de Kya para que ela fosse à escola, e depois foram em busca da menina para que fosse levada a um orfanato. Kya sempre conseguia fugir de todos.

Durante uma das caminhadas de Kya, ela se depara com presentes, a acaba por permitir que o garoto Tate, amigo de seu irmão, se aproxime dela. Como ele também é apaixonado pelo pântano, está sempre por lá. Ele ensina Kya a ler e escrever, e é uma das amizades mais lindas que vamos acompanhar. Mas, percebendo que Kya poderia ter muita dificuldade em se ajustar ao mundo, e ele consegue vaga para cursar Biologia, acaba por abandoná-la. E ela mais uma vez sente a dor de um abandono.

Um lugar bem longe daqui fala muito de como necessitamos de um mínimo de convívio humano, e Kya acaba permitindo a aproximação de outro garoto, Chase. Eles ficam muitos próximos, e é aí que as duas estórias, a menina do brejo e o assassinato do jovem considerado a joia de Barkley Cove, se cruzam. Por conta desse relacionamento, Kya será suspeita da morte de Chase.

“Jackson costumava ignorar os crimes cometidos no pântano. Por que impedir ratos de matarem outros ratos?”

Um lugar bem longe daqui

Quando um livro é elogiado demais, costumo ficar desconfiada. E foi assim que comecei essa leitura. No início, Um lugar bem longe daqui é devagar, como uma praia sem ondas… claro que trouxe discussões fortes, mas quando a história começa a dar ondas, de repente me vi no meio de uma ressaca – desculpem, achei gráfico descrever dessa forma.

Acompanhar o crescimento da Kya é doloroso, mas ela é uma menina forte, e encontra pontos de apoio que estarão com ela em todos os momentos – mesmo de longe. Perceber a discriminação racial também é difícil – e assusta, quando percebo que isso ainda está em nossa sociedade. Mas, a parte de história natural… enquanto bióloga, só posso dizer que é apaixonante. A forma como Kya se relaciona e aprende a respeitar o ritmo e os sinais da natureza, é descrito de uma forma tão leve que não fica parecendo aula – mas espero que tenha sido. Delia Owens é uma cientista que se tornou escritora, e é de uma leveza para descrever os ritmos do pântano…

E ainda temos toda a trama do suspense. Incrível toda a descrição de como essa investigação se dá, porque um homem querido daquela cidade tem de ter uma explicação para sua morte. E o preconceito volta à tona. Mas… depois que tudo é elucidado, o livro continua, e eu fico pensando: ok, entendi, gostoso de ler, mas já acabou, né? Achei errado. Cenas pós créditos de deixar de queixo caído. Até agora.

“Ela estava ligada ao planeta e à vida nele de um modo que poucas pessoas estão. Solidamente enraizada nessa terra. Nascida dessa mãe.”

Um lugar bem longe daqui traz muitas discussões, que permanecem e que vamos ampliando sempre que pensamos no livro de novo. Por isso, preciso dizer: Leiam… não é um movimento por nada, esse livro é incrível mesmo!

Sou assinante da Caixa Intrínsecos e, depois da leitura, ainda me deliciei com a revista, que enriquece com uma discussão sobre preconceito racial daquela época e de hoje, a formação da cientista Delia Owens, um texto sobre ilustração científica, outro sobre a observação de pássaros, para que você possa passarinhar por aí, e ilustrações belíssimas!

Um lugar bem longe daqui fala de esperança, de amor. De luta e superação. E que fica guardado com a gente por muito tempo. Leitura favoritada!

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Título: Um lugar bem longe daqui
Autor: Delia Owens
Ano: 2019
Páginas: 336
Editora: Intrínseca
Gênero: Drama, suspense, policial
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