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TERRA AMERICANA – JEANINE CUMMINS | RESENHA

15 maio, 2020 por

TERRA AMERICANA - JEANINE CUMMINS

Terra Americana, da autora Jeanine Cummins, é um livro que anda a ser bastante comentado. Ele foi escolhido para fazer parte do clube de leitura da famosa apresentadora Oprah Winfrey no mês de janeiro. Isso já imputa expressão tamanha à obra, que traz consigo a ‘promessa’ do mesmo ser um dos principais lançamentos de 2020. Contudo, o livro recebeu todo tipo de crítica, e acabou por se tornar motivo de discussões mais acaloradas e profundas. Embora Cummins tenha alcançado elogios de Stephen King, assim como da supracitada apresentadora americana, as críticas ferrenhas por uma mulher “branca” se meter a falar a respeito da vida de imigrantes mexicanos, não teve perdão!

Em Terra Americana conhecemos Lydia Quixano Pérez, que é dona de uma livraria em Acapulco – México. Ela conhece uma pessoa enquanto atende seus clientes, e acaba por deixar que essa amizade fique bem intensa. Quase dá início a um relacionamento emocional profundo com ele. Seu nome é Javier, e ele escreve poesias (não tão boas, ok, mas escreve). Javier também gosta dos mesmos livros que Lydia, tem uma história triste em sua vida assim como ela (doença que matou seu pai), e a visita com certa frequência.

Lydya é casada com Sebastián, um repórter, um jornalista investigativo. E os dois são pais de Luca, uma criança de oito anos, com percepções acima da média. Sebastián está motivado a escrever sobre um cartel de drogas que domina e aterroriza Acapulco, bem como, fazer um perfil jornalístico do homem que controla esse cartel – o Los Jardineros. E, por conseguinte, após a matéria tão desejada por Sebástian ser publicada, os temores de Lydia a respeito de investigar esse assunto infelizmente se tornam realidade.

“Ela sabe que o luto é uma espécie de loucura. Ela sabe.”

TERRA AMERICANA - JEANINE CUMMINS

Em uma festa de comemoração dos quinze anos de uma sobrinha de Lydia, uma chacina acontece. Somente Lydia e Luca sobrevivem, e eles precisam decidir o que fazer agora que não podem mais viver em Acapulco. Eles perderam tudo! Principalmente Sebastián… E essa desgraceira toda aconteceu devido à matéria publicada a respeito do narcotraficante que é chefe do cartel que foi exposto na publicação.

O que acontece então, é que Lydia e seu filho Lucas tornam-se, imediatamente, migrantes ali em seu próprio país. Eles precisam desaparecer sem deixar rastros. No entanto, a mulher perceberá que a abrangência do cartel é imensa, e que as capacidades de La Lechuza (A Coruja) de os rastrearem são tremendas. Ele tem olhos em todos os cantos e lugares. E Lydia não sabe quando e nem como ela e seu filho estão sendo rastreados… E esse é o mote principal da obra: Narrar a fuga desenfreada e desesperada de Lydia, para não ser encontrada pelos Los Jardineros.

“Há uma reverência renovada depois de terem visto o trem com os próprios olhos, o peso inexorável das rodas nos trilhos, os homens agarrados ao exoesqueleto, como insetos em uma vidraça.”

TERRA AMERICANA - JEANINE CUMMINS

E as críticas ferrenhas que não perdoaram Cummins? Por quê? E a explicação é: há muitas reclamações de pessoas que sabem e que viveram o drama da imigração, ou mesmo da vivência no México. Os relatos são de que muitas localidades não “batem”, que o dialeto é usado de forma errônea… Por exemplo, toda conversa acontece na língua original da autora, pontuada por uma palavra ou outra em dialeto local. A impressão que se passa, é que Lydia conversa o tempo todo em outra língua, que não sua língua materna. Escritores latinos também não ficaram satisfeitos com essa temática escolhida por Cummins, uma vez que sentem ter perdido o seu direito de lugar de fala, para alguém que não conhece profundamente seja por vivência ou nacionalidade.

Assim, a verossimilhança que alguns leitores e críticos de Terra Americana procuraram, não foi encontrada, abrindo assim essa brecha para tantas reclamações e insatisfações. Acredito que, caso fosse uma obra narrando os percursos de um brasileiro, mas escrito por um norte americano, também sentiríamos essa conotação gritante. Algo que dá sim para perceber enquanto estamos lendo a obra. Porém, confesso que me fiz de cega a toda essa polêmica antes de concluir o livro, antes mesmo de começar a obra. Eu sabia que havia todo esse burburinho, contudo me mantive alheia para poder ter uma visão mais ‘clean’ sobre a obra em si.

“Os migrantes ficam alertas a tais perigos: eles se agacham, se deitam, se inclinam. Esticam os braços e as pernas, e prendem a respiração.”

TERRA AMERICANA - JEANINE CUMMINS

O massivo clamor de boicote à escrita da autora, ou de Terra Americana, no caso, a meu ver é bem exagerada. Uma vez que Cummins não nos entregou uma biografia, um livro de não ficção, ou um estudo de caso. Terra Americana se trata de ficção, e essa abordagem, embora incorreta – como podemos entender após ler a respeito de tais reclamações – não torna o livro um manuscrito apócrifo. E sim uma história, algo gerado da fantasia e da imaginação de alguém, que se sentiu no direito de contar algo que nasceu em seu imaginário.

Enfim, como uma obra dentro do gênero da ficção, eu tive uma experiência muito interessante. Pois não sou acostumada a ler esse tipo de livro, e me senti bastante comovida – oras, sou mãe! A empatia manda um olá. – e incomodada com todas as situações que Lydia e Luca enfrentam em busca da “Terra Prometida”, em uma alusão clara a um lugar que não fossem alcançados pela mão de La Lechuza. E assim, vou finalizando por aqui, pois você terá condições de deixar passar essa indicação, ou de recebê-la como uma oportunidade de estar antenado a respeito do que todo mundo tem falado sobre Terra Americana, e tirar suas próprias conclusões.

Lydia não consegue ver do lugar escuro onde está, mas pode sentir. Ela sabe que é a hora perfeita do dia lá fora, no deserto. Ela imagina as cores. O asfalto cinza brilhante, a terra vermelha sofrida. Os tons extravagantes riscando o céu. Quando fecha os olhos, consegue vê-las, as tintas no firmamento. Deslumbrantes.”

 JEANINE CUMMINS

Ah, a edição que a editora Intrínseca nos trouxe está realmente muito bonita. Eu tenho uma tendência a amar tudo que tenha nuances de azul, e a capa ficou muito agradável à vista, uma vez que contém dentro de suas páginas uma história tão dolorida e castigada. Senti como que os pássaros em azul estampados na capa buscassem uma liberdade limitada pelo simbolismo do arame farpado. As folhas são em papel pólen, como a maioria dos leitores amam. E a diagramação interna é bem simples, com fonte confortáveis para a leitura. Concluindo, nada menos do que a Intrínseca sempre faz!

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Título: Terra Americana
Autora: Jeanine Cummins
Ano: 2020
Páginas: 416
Editora: Intrínseca
Gênero: Ficção, Literatura Estrangeira
Nota: 4/5
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