Serpentário foi o meu primeiro contato com o autor Felipe Castilho. Esse livro foi bastante recomendado por um amigo (alô Avellar – pode mandar mais indicação boa como essa!!!). Ah, ele também foi indicado no #ClubedolivroBH em 2019. Sua capa (bem como o tema), já me ganhou antes de eu conseguir tê-lo em mãos… Enfim, hoje quero falar sobre como foi bom conhecer essa história. Também quero falar o quanto Serpentário é um ótimo livro. Só elogios…

“Sentir piedade em vez de medo era uma grande etapa naquele eterno ciclo de nascer e morrer.”

Primeiramente, Castilho tem um estilo de escrita muito maduro. Ele faz parte dessa gama de “novos” autores nacionais que estão brilhando no meio literário. É muito confortável ler uma história que se passa em seu país, com personagens que possuem nomes como o seu, e frequentam ou visitam lugares que você ou já foi, ou já ouviu falar. Isso também foi muito bem aproveitado pelo autor. Senti-me “em casa”, mesmo não vivendo nos lugares citados em Serpentário.

Os protagonistas da história são Caroline, Mariana, Hélio e Paulo. Os fatos são narrados por Carol, que às margens de um réveillon, está se encaminhando para o litoral de SP. Ela e seus amigos, quase todos “bem de vida”, sempre passavam essa data por lá quando adolescentes. Suas famílias possuem casas na região. Exceto Paulo, que era menino humilde, de pele escura, caiçara, nascido e criado ali mesmo no litoral. Sua mãe era empregada de um casal rico, e tanto Paulo quanto sua mãe viviam nessa mansão.

“Quando amanheceu, estava indisposta e a vontade de viver a abandonara, o que significava que era um dia normal, como qualquer outro.”

Serpentário vai nos conduzir entre o passado (1999) e presente (2018). Quando ainda adolescentes algo aconteceu na viagem costumeira de “virada de ano” desses amigos. E podemos perceber claramente que esse acontecimento foi pontual em suas personalidades. Cada um deles ficou marcado e foi modificado pelo evento, que vem ser o plot do livro. A ideia inicial de Carol é que essa viagem, 19 anos após o fatídico acontecimento, seja reparadora, restauradora e acima de tudo, libertadora.

A todo o momento a gente consegue perceber as sutis referências a serpentes. Carol ficou muito traumatizada desde 1999. Ela não consegue lidar com seu medo de cobras. E às vezes fantasia a respeito disso. Foi necessário até intervenção medica para lidar com suas questões psicológicas. E os amigos que dantes eram tão unidos, acabaram por não conviverem mais tão próximos nesses 19 anos.

SERPENTÁRIO -FELIPE CASTILHO

“Na minha opinião, a maneira mais covarde de ataque é fazer com que alguém acredite ser mais fraco do que é. Fazer com que uma história seja esquecida é igualmente cruel. Covardia pura. Porém, preciso admitir, é eficaz.”

Vi muita gente comentado que essa narrativa entre presente e passado os fizeram perceber um link com It, do Stephen King. Pra mim não… Eu não senti essa referência, mesmo que os adolescentes do passado precisassem enfrentar algo no futuro. E olha que de Stephen King eu entendo. Porém, inegáveis são as influências vindas desse grande autor, assim como de H. P. Lovecraft e até mesmo Robert W. Chambers. E isso e algo maravilhoso. Gosto muito de narrativas que intercalam presente e passado. Às vezes até aquelas que intercalam o futuro. Não me incomodam e não me fazem pensar necessariamente em It, A Coisa.

Mas, obviamente percebemos que um trauma do tempo passado marcou e continua pungente na vida desses amigos. Castilho não entrega nada de graça. Os fragmentos de memórias passadas que vamos captando, não nos conduzem de forma plena ao real motivo dos traumas e medos. Serpentário tem um clima que gosto muito. Toda essa história misteriosa é envolta em muito suspense e mistério. Terror propriamente dito, não senti. Mas um clima sensacional que fez com que eu não desgrudasse do livro.

De forma geral, cobras e serpentes são repulsivas. Raro àqueles que não abominam esses seres, ou pelo menos prefiram manter distância. E Castilho usa e abusa de situações envolvendo esses répteis pecilotérmicos. Caroline precisará enfrentar sua maior fobia, perante nossos olhos, vezes incontáveis. A Ilha das Cobras (principal mote do livro) realmente existe no litoral de SP. Também é conhecida como Ilha da Queimada Grande.

Pesquisando, descobri que “em 1500 metros de comprimento e 500 metros de largura, a ilha conta com cerca de 45 cobras por hectare.” Desesperador, não é?! Jamais colocaria o pé em um lugar assim. Ah, mas não se preocupe. A visitação a essa ilha não é permitida! Para se entrar ali, se faz necessário ter uma autorização vinda da Marinha do Brasil. E como eu não vou atrás desse documento, estou em paz.

“É um mundo de predadores, Carol. Temos que fazer de tudo para ficar no topo da cadeia alimentar.”

Algo que não posso deixar de comentar, é que Castilho faz muitas citações e referências aos anos 90/2000. É muito legal ler sobre assuntos que você também viveu, também presenciou… É muito fácil você se pegar cantando as músicas da época. Ainda mais porque essa é uma arte atemporal. Enfim, fiquei encantada com a quantidade de similaridade com minha geração. Foi uma boa sacada do autor. Nos deixa bem mais à vontade com suas 368 páginas.

Quando você estiver com seu livro em mãos, entretanto, perceberá que Mariana, Hélio e Paulo fazem parte da história constantemente. Você também perceberá posteriormente e entenderá (assim espero), o motivo de eu não falar muito sobre eles. A construção de cada personagem é muito importante para a chegada do clímax dessa história. Claramente estou contornando os fatos principais para que você possa aproveitar o máximo do que Castilho criou. Eu AMEI Serpentário. Foi uma das minhas últimas leituras de 2019, e ajudou a salvar meu ano…

“Nomes são superestimados e desaparecem da mente dos nossos amigos mais rápido que as boas ações que fazemos para obter a aprovação deles.”

Acredito que o desfecho da obra cabe considerações e interpretações. Talvez, sua compreensão final não seja a mesma que a minha. Pode ser que você não goste tanto quanto eu gostei. E ainda, as citações e referências podem não ter sido tão especiais a você quanto foi a mim. Com isso, fato é que Felipe Castilho inegavelmente conseguiu me convencer com Serpentário, e ganhou uma leitura de suas futuras (e anteriores) obras publicadas.

Concluindo, exalto aqui, enfim, a edição maravilhosa que a editora Intrínseca produziu. E eu nem sou fã da cor verde, que ficou maravilhosamente bem no corte das folhas. A capa é uma confusão de alguma coisa que remete a répteis. Mas, que ao mesmo tempo, só me deu vontade de ter logo esse livro em meu poder. Trabalho impecável! E Serpentário possui uma história dentro da história. Que a editora e autor tiveram o cuidado de ela ressaltar em uma impressão diferente (mas tudo em papel pólen), com fonte diferenciada. E, afinal, recheada de muito suspense. Só veio a acrescentar!

“Para a Carol, que me apresentou aos livros (…).”

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Título: Serpentário
Autor: Felipe Castilho
Páginas: 368
Ano: 2019
Gêneros: Fantasia, Ficção Científica, Literatura Brasileira, Terror
Editora: Intrínseca
Nota: 5/5
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