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RESENHA | UM CASAMENTO AMERICANO – TAYARI JONES

11 setembro, 2019 por

Um casamento Americano

Em “Um Casamento Americano”, da autora Tayari Jones, acompanhamos a história de Celestial e Roy, dois jovens negros que tem suas vidas viradas de cabeça para baixo no primeiro ano de casados. Depois que Roy é julgado injustamente por um estupro que nunca cometeu e condenado a 12 anos de prisão. Ele passa 5 anos na cadeia enquanto o advogado, primo de sua esposa, tenta provar sua inocência.

Entretanto “Um Casamento Americano” é muito mais que acompanhar o desfecho sobre a prisão e libertação de Roy, é sobre racismo, colorismo, distância, infidelidade e também sobre a entidade casamento e o quanto uma situação trágica pode distanciar duas pessoas.

“Mamãe, eu disse, e então o choro chegou. Eu não chorava desde que fui condenado e me humilhava diante de um juiz que não se importava. Naquele dia horrível, meus soluços arrogantes se fundiram com o acompanhamento matinal de Celestial e Olive. Agora eu sofri uma capela; o choro queimou minha garganta como quando você vomita licor forte. Essa única palavra, mamãe, foi minha única oração enquanto eu falava no chão como se estivesse sentindo o Espírito Santo, apenas o que eu estava passando não era o êxtase. Eu explodi naquela terra negra e fria com dor, dor física. Minhas articulações doem; Eu experimentei o que parecia um bastão na parte de trás da minha cabeça. Foi como se eu revivesse todos os ferimentos da minha vida. A dor continuou até que não. e digo, suja e gasta. ”

Em seu primeiro momento, através de uma narrativa em primeira pessoa, vamos conhecendo Celestial e Roy e como foi que se conheceram e desenvolveram o relacionamento, até o dia da prisão do Roy. Ali, através da escrita linda e triste de Tayari Jones, descobrimos um casal apaixonado em sua vida de marido e esposa. As diferenças existem, mas eles tentam se ajustar ao outro, respeitando ao máximo as suas diferenças e criação.

No segundo momento, através de cartas e trechos em primeira pessoa, a autora mostra de uma forma linda e sensível como as situações e a distância vão afastando duas pessoa que se amam de verdade, mas que não podem manter a paixão viva entre eles. É nesse momento que a autora nos apresenta André, o melhor amigo da Celestial, que sempre esteve ao lado dela e agora está ainda mais. Vemos a transformação da amizade para o romance entre eles.

“Quando eu a vi flutuando pelo corredor em minha direção, ela e seu pai estavam rindo como se tudo isso fosse apenas um ensaio geral. Lá estava eu, sério como quatro ataques cardíacos e um derrame, mas então ela olhou para mim e franziu os lábios de tinta rosa em um pequeno beijo e eu entendi a piada. Ela estava me deixando saber que tudo isso – as garotinhas segurando o trem de seu vestido, minha jaqueta da manhã, até o anel no meu bolso – era apenas um show. O que era real era a dança da luz em seus olhos”

Por último, de uma forma surpreendente, acompanhamos o que acontece com os três depois que Roy sai da cadeia. Como lidar com a atual situação deles, um ex-casamento, um novo romance, um amor que ainda continua… Tudo isso é tratado de forma muito humana, mostrando os erros e acertos por parte de todos os envolvidos nessa trama, composta por criação, medos, desejos, injustiças, erros do Estado e como eles afetam e destroem vidas.

Particularmente, senti muita falta de mais indignação por parte de todos os personagens sobre a prisão e o racismo tão escancarado. Achei que autora deixou muito leve essa parte, que faltou questionamento político, gritos de revolta mesmo. Estávamos falando de uma pessoa presa durante anos por causa da cor da sua pele, solta com no máximo um tapinha nas costas. Mas ao mesmo tempo, entendo o que a autora tentou passar, que tudo que queremos depois de um momento tão dificil é esquecer, pegar os cacos do que sobrou, continuar e estar o mais perto do normal possível.

“A emoção humana está além da compreensão, suave e ininterrupta, como uma esfera feita de vidro soprado.”

Um casamento Americano

Não foi um livro fácil de ler, a angústia e injustiça que você sente no decorrer de toda a história é palpável, principalmente pelo fato de ser em primeira pessoa, revezando entre os três personagens principais. Algumas vezes cheguei ao ponto de pensar “será que toda essa situação complicada nunca vai acabar?”, porém me lembrei que quando vivemos algo, vivemos intensamente, principalmente em situações dolorosas. O mesmo acontece com eles.

Outro fato que deixa a leitura bem difícil é ter momentos em que não se cria nenhum tipo de empatia pelos personagens e suas angústias. Isso acabou fazendo “Um Casamento Americano” me dar a sensação de ser mais arrastado do que deveria. Além, é claro, do fato dele ter passado muito rápido pelas questões de racismo, me dando até a impressão de conformismo com essa realidade por parte da autora, através de seus personagens.

“Mas o lar não é onde você pousa; lar é onde você inicia. Você não pode escolher sua casa mais do que sua família. No poker, você recebe cinco cartas. Você pode trocar três delas, mas duas são suas para ficar: família e terra natal. ”

No geral eu esperava um pouco mais sobre “Um Casamento Americano”, principalmente pela indicação da Oprah em seu clube de leitura, e pelos prêmios que ganhou. Mas também não posso dizer que não gostei ou que não vale a leitura, pois me serviu de reflexão sobre relações familiares, e que o casamento é mais que aquele papel assinado.

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Um Casamento AmericanoTitulo: Um Casamento Americano
Autora: Tayari Jones
Ano: 2019
Páginas: 228
Editora: Arqueiro
Drama, Romance
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1 Comentário

  • Diane Ramos
    setembro 14, 2019

    Olá…
    Adorei sua resenha!
    Ainda não conhecia esse livro, mas, pelos seus comentários parece ser bem pesado devido a tantas injustiças… Acredito que seja um livro que nos faz refletir bastante também.
    Anotei a dica e espero poder ler em breve 😉
    Bjo

    http://coisasdediane.blogspot.com/