O Sorriso da Hiena do autor Gustavo Ávila foi publicado de forma independente, e esse é seu primeiro livro. Ele nos conta a história de William, um super-respeitável psicólogo infantil, que também atende crianças em uma parceria com vítimas de casos policiais. Sua grande chance chega quando tem a oportunidade de realizar um estudo onde o motivo é entender como a maldade humana é desenvolvida. Isso vem de encontro com seu mais íntimo desejo, pois sempre considerou que não fazia o necessário para tornar o mundo um lugar melhor.

A proposta para esse estudo acontecer chegou por e-mail e o remetente é o misterioso David. Cabe a William pensar e repensar sobre o Código de Ética que rege sua profissão e vida, bem como os mais diversos dilemas morais aos quais será submetido, já que a forma de delinear esse estudo seria através de uma situação muito traumática para a criança: ter presenciado o assassinato dos pais de forma brutal. Por David ter vivenciado esse trauma aos oito anos, ele decidiu repetir essa “experiência” com outras famílias, concedendo a William a chance de não só atender as crianças traumatizadas, mas também acompanhar o crescimento e desenvolvimento das mesmas, observando e registrando as possíveis influências do acontecimento traumático na vida delas.

“E a dor, Sr. William, ela é contagiosa feito uma doença. Lá dentro a única coisa que eu aprendi foi a passar a minha pra frente, na esperança de que ela sumisse de vez. Mas ela não sumiu. E, não importava quantas vezes eu machucasse alguém, a minha dor continuava em mim.”

 O Sorriso da Hiena - Gustavo Ávila

Para mim um bom livro de literatura policial é aquele que além de despertar sua curiosidade desde as primeiras páginas fisgando toda sua atenção, ainda consegue te enredar a cada fim de capítulo, tornando o livro necessário. Você não quer mais esperar até o próximo intervalo ou até o próximo trajeto de ida ou volta de uma atividade para poder continuar a explorá-lo. E Gus Ávila acertou em cheio em cada estratégico cliffhanger, onde aguça nosso interesse e fascínio pela obra a ponto de ficarmos horas seguidas buscando entender melhor a mente de David, e tentando ponderar até onde William poderia ou vai chegar. E o que descobrimos? É que quase não existem limites nessa história.

Esse tipo de escrita visceral é meu estilo preferido de literatura, principalmente quando está intrinsecamente correlacionada com fatores psicológicos. A mente humana é um universo de possibilidades, e cabe ao autor delinear os possíveis caminhos que suas personagens irão seguir. Claro que de forma sutil, pois o que enxergamos ao ler O Sorriso da Hiena é uma história que bem poderia ser real e acontecer com um profissional especializado nessa área, por exemplo. Queremos acreditar que a resposta ao e-mail de David seria um “não, eu não posso me envolver com uma atrocidade dessas, mesmo visando um estudo desse porte”, ou simplesmente que William o ignorasse vezes sem fim se David continuasse a insistir. Contudo, não foi essa a decisão que o autor escreveu; não foi essa a escolha de William.

“A paciência é a característica mais perigosa que um inimigo pode ter.”

 O Sorriso da Hiena - Gustavo Ávila

Agora que conhecemos David e Willian, precisamos falar sobre Artur. O detetive Artur Veiga é muito capacitado e reconhecido em seu meio, e ele está à frente da investigação de crimes que estão acontecendo na cidade, e que logo no início demonstraram estar interligados, no entanto o segredo dos crimes não é concedido ao leitor, somente a policia. O detetive é uma pessoa prudente, reservada e distante. Diagnosticado com Síndrome de Asperger, ou seja, tem prejuízo qualitativo na interação social, ele demonstra pouco interesse em desenvolver reciprocidade social e emocional, mas é totalmente excelente no que se propõe a fazer.

Durante a leitura, Artur se comprovou um personagem muito interessante. A todo tempo fiquei imaginando sua dificuldade em realizar seu trabalho. Ele precisava lidar diretamente com pessoas a todo tempo. Diariamente é necessário confrontar e interrogar alguém, e um adulto com esse diagnóstico escolhido pelo autor, deve sofrer muito para chegar ao fim de cada dia com sua “sanidade” preservada. É exaustivo psiquicamente.

Assim sendo, vemo-nos enredados nessa tríade de “relacionamentos” que se criou entre detetive, psicólogo e assassino. Todos os três são homens extremamente competentes em sua área de atuação, e que acabam ligados ora pelo acaso, ora pelas determinações de David. O que logo podemos perceber, é que nesse caso, David, o assassino, é o maestro que dita as sequências em que a história será escrita.

“Deus não escreve a sua história. Só risca as linhas.”

 

O autor a todo tempo brinca com nossos conceitos de moralidade, e eis aqui nos proposto uma grande reflexão. Peguei-me muitas vezes durante a leitura (e até sem o livro nas mãos), pensando nas escolhas de Willian – afinal somos uma liberdade que escolhe; nos motivos de David – somos responsáveis pelo mundo e por nós mesmos; nas consequências dos atos dos outros sobre nossas vidas; enfim… a máxima de Jean-Paul Sartre mais uma vez pululou à minha mente: Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você. Mas, claro, essa é uma interpretação completamente pessoal e cada um que se interessar em fazer essa leitura precisará dar conta de seus próprios pensamentos e sentimentos.

Ávila foi excepcional a meu ver, pois nos trouxe um thriller psicológico, onde temos um pouco de Harlan Coben, outro tanto de Agatha Christie, mas que se passa em nossa realidade, em uma cidade do Brasil. Trouxe a calamidade e o suspense, bem como todo o medo que esses casos possam provocar na população, para bem perto do nosso cotidiano. Ponto positivo para ele! Acredito que toda essa ousadia foi seu trunfo em ser convidado a publicar seu livro independente pela editora Verus, do Grupo Editorial Record.  O Sorriso da Hiena do escritor Gustavo Ávila teve seus direitos de adaptação comprados pela TV Globo.

Sobre o autor:

Gustavo Ávila Nasceu em 1983 e cresceu em São José dos Campos-SP, hoje vivendo na capital de SC. Levou mais de três anos até colocar todos os pontos nos is para a publicação de seu primeiro romance, O Sorriso da Hiena, e agora está se dedicando à escrita de seu segundo livro, de título Quando a Luz Apaga. O autor também tem um conto de publicação independente, Pá de Cal, e que vale muito ser conhecido!

“- E se eu interpretar errado o que o senhor está me dizendo, sr. Rossi?
– Nós somos os únicos responsáveis pelas nossas interpretações.”

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O Sorriso da Hiena -  Gustavo Ávila 
Livro: O Sorriso da Hiena –  Gustavo Ávila
Ano: 2015
Páginas: 304
Editora: Verus editora
Ficção, Suspense e Mistério
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