Rainhas Geek, escrito por Jen Wilde e publicado no Brasil em 2018 sob o selo Minotauro da Editora Planeta, é um livro com uma capa chamativa de cabelos pintados de rosa. E agora eu quero saber uma coisa: cadê os leitores que fazem parte de fandoms? Os geeks, nerds, cosplayers? Cadê a comunidade LGBTQI+? Esse livro e essa resenha são pra vocês! Inegavelmente, Rainhas Geek é um lindo tributo a todos os geeks e membros de fandoms espalhados pelo mundo. Afinal, a própria autora fala isso na dedicatória de seu livro.

Além disso, é um livro carregado de representatividade por todos os lados, chegando a um ponto em que sabemos que é um pouco forçado. Ainda assim, conta a história fofa e divertida de Charlie, uma youtuber e atriz bissexual, australiana e com ascendência chinesa, bem como a de Taylor, sua melhor amiga. Taylor tem transtorno de ansiedade generalizada (TAG) e também se encontra no transtorno do espectro autista (TEA).

As duas são melhores amigas de Jamie e o trio mora na Austrália. Jamie é um super fã de quadrinhos, enquanto Taylor é simplesmente alucinada pela saga Firestone e Charlie é uma gamer com um canal super legal no Youtube. Mas todos os três têm paixões em comum: o mundo geek e cultura pop no geral. Aliás, foi com a ajuda de seu canal que Charlie conseguiu um ótimo papel em um novo filme sobre zumbis, The Rising, e sua carreira explodiu.

“O medo que as pessoas sentem em raras ocasiões, reservado apenas para quando saltam de um avião ou ouvem um ruído estranho no meio da noite – isso oé  meu normal.”

Rainhas Geek - Jen Wilde

E como se só isso já não fosse incrível, ela vai participar dos painéis do filme na convenção mais hypada de todas: a SupaCon! Claro que a SupaCon é totalmente baseada na Comic Con, mas o importante é: Charlie vai poder levar os amigos! E pra quem não mora nos EUA e é apaixonado por cultura geek (alô, eu mesma!), poder ir à convenção é um sonho incrível que se realiza. E é claro que, além de fazerem a viagem dos sonhos, nossas protagonistas vão viver um fim de semana que vai mudar a vida delas. De verdade!

Não só porque Taylor espera conhecer a autora da Saga Firestone, sua autora favorita da vida inteira, que escreveu os livros responsáveis por seu crescimento e por ajudá-la a passar por vários momentos difíceis. Não só porque Charlie vai poder conhecer vários de seus fãs e participar de uma convenção como uma atriz convidada, além de conhecer pessoas que ela admira e idolatra. Embora todas essas coisas sejam importantes e super divertidas de se acompanhar, acabam sendo acontecimentos secundários.

“Minha ansiedade é invisível para os outros, mas muitas vezes é o foco da minha mente. Tudo que ocorre no dia a dia é filtrado por uma lente colorida da ansiedade.”

Rainhas Geek - Jen Wilde

Isso acontece porque, com sinceridade, Jen Wilde conseguiu amarrar todos os acontecimentos de uma forma muito fluida. Apesar de vários momentos em que dá até pra revirar os olhos e pensar “até parece que isso ia acontecer mesmo”, a narrativa é bastante dinâmica. O começo, entretanto, eu achei um pouco devagar, mas isso também pode ser pelo fato de o livro começar já com o trio chegando à convenção. E, por isso, a autora precisou apresentar seus personagens e dilemas com pausas maiores nas narrativas.

Acredito, porém, que isso não prejudicou o andamento de Rainhas Geek. Tentando evitar spoilers, vou dar um pequeno panorama do livro, que é narrado de dois pontos de vista: o de Charlie e o de Taylor. Ambas as personagens são muito identificáveis, porém, a que mais teve apelo, comigo, foi Taylor. Talvez por me identificar com a ansiedade dela (mas também com a bissexualidade de Charlie), gostava mais de ler a narração dela.

Charlie se envolveu com um colega de elenco, que no filme faz seu par romântico, e as coisas não deram nem um pouco certo. Agora ela precisa lidar com as consequências do término e o fato de ser seu primeiro amor, bem como sua grande humilhação, expostos ao público. Além disso, existe uma grande pressão do estúdio para que ela e o ex mantenham os rumores vivos para, bem, promover o filme. No meio disso, Charlie conhece uma youtuber por quem ela tem um crush enooooorme há anos e elas começam a interagir.

Paralelamente, Taylor é uma adolescente com uma ansiedade fortíssima. Além disso, ela está no espectro autista, sendo descrita no livro como Asperger (nomenclatura que, atualmente, caiu em desuso). Ela é absolutamente louca pela Saga Firestone e por várias vezes cita o quanto a saga a ajudou quando ela não tinha muito para onde correr. Ah, ela também quer conhecer a autora da saga, Skyler, como forma de se validar: se ela conseguir conhecer a pessoa mais importante do mundo, ela pode fazer qualquer coisa.

Jamie, o terceiro membro do trio, não tem um ponto de vista no livro. Mas nem por isso é menos importante. Ele claramente é apaixonado por Taylor, além de por quadrinhos. Jamie nasceu nos EUA e se mudou para a Austrália e criou vínculos com as garotas usando de base… Isso mesmo, a Saga Firestone. Jamie é um ótimo amigo, mas achei que sua participação no livro foi um pouco escassa. Por seu interesse amoroso em Taylor, senti que a autora o usou apenas como suporte para ela.

“- O amor é intenso. Você derruba todas as suas paredes pra deixar alguém entrar. Mas se a pessoa não é boa pra você, pode te demolir de dentro pra fora. E você acha que o que tem com essa pessoa é amor. então permite que isso continue.”

 Desde o começo, Jamie é super atencioso e cuidadoso com Taylor. Ele se lembra do que ela gosta, presta atenção em eventos que podem interessar a ela, se preocupa com suas crises, com quando uma situação pode ser muito para ela, a apoia e está ao lado dela o tempo todo. O apoio incondicional de Jamie é super fofo. Ainda assim, mesmo sendo um suporte maravilhosamente compreensível e afetivo, a história e a atuação dele são bem escassos. Acredito que o personagem poderia ser melhor desenvolvido.

Um ponto que eu realmente queria destacar é: Jen Wilde traz uma visão interna da ansiedade que chega a ser agoniante, de tão precisa. Por várias vezes, eu me peguei com os olhos marejados e pensando: SIM, é EXATAMENTE isso que eu sinto. Então, fica aqui registrado como ponto positivo! Porém, também, um pequeno aviso de gatilho. Porque sim, ele pode acontecer lendo essas cenas. Taylor também é uma garota gorda e o livro trata de gordofobia em algumas situações.

Paralelamente, também temos a bissexualidade de Charlie sendo retratada. No geral, todos esses detalhes foram tratados de forma leve e muito natural. Rainhas Geek é um livro leve e divertido de se ler. É um carinho na alma, apesar de sabermos que no realidade o mundo não é tão cor-de-rosa quanto os cabelos da capa. Mas, ainda assim, é um livro fofo e que super vale a pena ser lido e divulgado!

“Aqui meu esquisito é normal. Meu esquisito é acolhido, aceito e esperado.”

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Título: Rainhas Geek
Autor: Jen Wilde
Editora: Editora Planeta
Número de Páginas: 284
Ano de Publicação: 2018
Gêneros: Ficção, Jovem adulto, LGBT,  GLS,  Literatura Estrangeira, Romance
NOTA: 5/5
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