Em Objetos Cortantes, conhecemos Camille Preaker. Ela é uma repórter de um jornal sem muito prestígio na cidade de Chicago. Ela esteve internada em um hospital psiquiátrico para tratar sua tendência à automutilação, que é um comportamento intencional envolvendo agressão direta ao próprio corpo sem intenção consciente de suicídio. Algumas pessoas com essa tendência adquirem certos rituais de autoagressão e passam muito tempo pensando em como executá-la. Camille se cortava, e convive agora com seu corpo todo marcado.

O editor-chefe da publicação do jornal tem uma nova tarefa para Camille, e ela precisará voltar à sua cidade natal para cobrir um caso de assassinato de uma adolescente e desaparecimento de outra. A repórter nunca mais havia voltado à Wind Gap nos últimos 8 anos, pouco conversou com sua mãe (neurótica), e tem quase nenhum conhecimento de seu padrasto e sua meia irmã.

Hospedou-se na casa de sua família, e assim, de uma hora para outra, precisou lidar com as reminiscências de seu passado não tão distante.O que Camille descobre em seu retorno à Wind Gap entrevistando moradores e antigos conhecidos, bem como os segredos de sua própria família os quais vai se recordando, é tão marcante e traumatizante quanto suas cicatrizes sob as roupas.

“Eu me corto, sabe? E pico, e fatio, e gravo e furo. Sou um caso muito especial. E tenho determinação. Minha pele grita, vê?”

 

O estilo de escrita da autora é viciante, uma vez que a gente se envolve tanto com a trama, e não quer largar o livro enquanto não souber como será finalizada tal história. Gillian Flynn consegue construir em suas narrativas situações corriqueiras, trazendo à realidade o que de errado poderia acontecer. Suas personagens são falhas, cheias de “defeitos”, e de uma forma bem empática, sempre conseguem ganhar nossa máxima atenção. Flynn consegue pegar coisinhas mínimas, e transformá-las em coisas assustadoras, ou no mínimo perturbadoras. Esse é o poder mágico da escrita dela.

Como a grande maioria dos leitores de Objetos Cortantes que eu já tenha conhecido, me interessei por essa obra depois de ter lido (e A-M-A-D-O!) outro livro da autora, o Garota Exemplar. A qualidade da escrita, aliada ao enredo fantástico da história de Amy Dunne e seu marido Nick, acabou respaldando meu interesse em me jogar de corpo e alma nessa história.

E da mesma forma que cheguei sem saber nada sobre Garota Exemplar e fui tremendamente surpreendida, me admirei já nas primeiras páginas de Objetos, boquiaberta em perceber a ousadia da autora em abordar temas tão pesados e complexos, e diluí-los em uma narração fluída e envolvente. Gillian Flynn realmente sabe o que faz, entende sobre o que quer escrever, e consegue prender seu leitor com teias invisíveis e resistentes.

No decorrer da história podemos acompanhar a investigação de Camille pela cidade onde cresceu, e onde seus problemas psicológicos deram os primeiros sinais de alerta. Ela também não consegue ter uma relação muito boa com sua mãe, pois aparentemente ela (a mãe) nunca se recuperou da perda de outra filha muitos anos atrás, e é uma mulher muito severa e que pressionou Camille além do seu limite. A meia-irmã também é uma personagem digna de nota, dona de uma perspicácia sem medida.

Obviamente iremos construindo um arcabouço de informações sobre o caso, que vai elevando nosso nível de estresse até chegar ao clímax da história. Flynn nos entrega um final atordoante, onde, por mais que tenhamos sofrido a cada página junto de Camille (uma narradora impecável), nós ainda aguentaríamos mais, ainda quereríamos mais, e mais…

Objetos Cortantes (de 2006) foi o primeiro livro publicado da autora, e nos mostra menos pretensão que seu terceiro e mais aclamado livro, Garota Exemplar (de 2012), porém os traços ousados e o estilo peculiar e um tanto cru que a autora usa e abusa para expor seus personagens, já está lá bem presente desde então. Ela também tem publicado o livro Lugares Escuros (de 2009), e um conto escrito especialmente a pedido do autor George R. R. Martin.

“– Uso este vestidinho por causa de Adora. Quando estou em casa, sou a bonequinha dela.
– E quando não está?
– Sou outras coisas. Você é Camille, minha meia-irmã. A primeira filha de Adora, antes de Marian. Você é pré e eu sou pós.”

Nos últimos dias do mês e abril a HBO liberou um teaser da adaptação de Objetos Cortantes que terá o mesmo título do livro original, Sharp Objects. O diretor Jean-Marc Vallée (que já venceu um Emmy pela série Big Little Lies), estará no comando dessa produção que conta com a brilhante Amy Adams na pele da jornalista Camille Preaker. A promessa de estreia nas telinhas é para o mês de julho.

Gillian Flynn é uma escritora estadunidense de literatura (ficção e thriller) e crítica televisiva de 47 anos, vive em Chicago com seu marido e filho. Figurou em 2014 a lista de escritores mais bem pagos do mundo, pela revista Forbes.

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Titulo: Objetos Cortantes
Autora: Gillian Flynn
Ano: 2015
Páginas: 254
Editora: Intrínseca
Gênero: Suspense e Mistério, Romance
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