RESENHA: O MENINO QUE DESENHAVA MONSTROS - KEITH DONOHUE

Em O Menino que desenhava monstros, você vai conhecer agora a história de Jack Peter, um garoto de 10 anos de idade e que está no espectro autista. A pessoa autista é geralmente caracterizada como um indivíduo que apresenta dificuldades ou impedimentos para as relações sociais, déficit de linguagem, ausência ou escassez de atividade imaginativa e comportamentos estereotipados. Aqui, nosso garoto também desenha monstros, obviamente!

Contudo, o título não é um grande spoiler, mas sim uma constatação de uma daquelas fases que todo autista passa rotineiramente. Mas, essa fase de fazer desenhos por todos os lados no caso de JP está perdurando há anos. Em se tratando de desenvolvimento infantil o ato de desenhar caracteriza uma forma de linguagem e é precursor da escrita. Foi bem interessante quando Jack desenvolveu esse hábito, mas por que de maneira obsessiva?

Cada vez mais, JP recua no contato humano e se volta para si, para sua casa e pela representação compulsiva e obstinada de monstros em folhas de papel. Os Keenan vivem em uma aldeia na costa do estado do Maine, que nos meses de inverno tende a ser bem pacata. Por um acontecimento traumático há cerca de três anos – Jack e seu único amigo, Nick, se afogaram no mar – o menino se recusa a sair de casa. Aliado a esse trauma, ele recebeu o diagnóstico de agorafobia (transtorno de ansiedade que leva a pessoa a ter medo ou ataques de pânico em relação a espaços abertos).

“Há alguns anos, quando diagnosticaram Jack, Holly mal conseguia pronunciar o nome do distúrbio; ela foi inundada por um oceano de orações, cujo nível só baixou com o tempo, quando o garoto ficou pior, não melhor.”

DICA DE LEITURA: O MENINO QUE DESENHAVA MONSTROS - KEITH DONOHUE

Tim e Holly são os pais de Jack Peter em Menino que desenhava monstros. E não se faz necessário eu relatar o quanto senti empatia pelos dramas enfrentados por Holly. A condição de JP vem se agravando, e essa mãe fica muito perturbada no dia que ao ir acordar seu filho pela manhã, ele acorda assustado e a agride com socos e deixando seu rosto marcado. Algumas pessoas ao lerem a respeito da situação emocional de Holly acabam por interpretar mal a forma que a mãe expressa o que sente após esse episódio. Ela conclui que não consegue mais lidar com JP. Ele está crescendo, se desenvolvendo fisicamente, e que por sua força, concomitantemente com a introspecção que vem se agravando, principalmente ela não consiga mais lidar com a criança. Toda essa situação com o filho perturbou a sanidade dessa mulher.

Ela pondera se o menino não precisa ser internado em uma clínica onde será mais bem assistido. O pai repudia a ideia. E Jack ouve escondido todas as conversas de seus pais. Ele não tem dificuldade em se expressar, não tem prejuízo na fala, e compreende as situações – assim como as consequências de seus atos. Jack é bastante inteligente, mas ao mesmo tempo, vive em um mundo à parte onde monstros rondam o tempo todo por seu quarto, e especialmente em volta de sua casa.

“Meu maior medo é que ele nunca seja normal… normal o suficiente para se integrar com os outros. Quero dizer, o senhor sabe, o que vai acontecer com ele quando não estivermos mais por perto?”

LIVRO: O MENINO QUE DESENHAVA MONSTROS - KEITH DONOHUE

Mesmo com tanta neve e distância entre os vizinhos, Nick é presença constante na vida e na casa de JP. De certa forma, os pais de Nick – Fred e Nell – o forçam a manter essa amizade, mesmo que não seja agradável a seu filho. Mas, eles insistem que Nick é tudo que Jack Peter tem. E eles estão certos nesse ponto. JP aceita até que bem a proximidade com Nick e sempre impões brincadeiras para eles dois. No fundo, os meninos apenas suportam a presença do outro.

O tema essencial de Menino que desenhava monstros gira em torno dos desenhos de JP, claro. Os monstros são reais? As manifestações estão acontecendo, ou haveria um surto de histeria naquela casa? Em meio ao silêncio iminente é que sons inexplicáveis ​​invadem a mente de Holly. Em paisagens inóspitas onde só deveria ter neve sobre neve, uma espécie de criatura esvoaçante, totalmente pálida e com cabelos revoltos assusta Tim (e porque não dividir com vocês que ele trará marcas em seu corpo de um confronto iminente?) – seria um enorme cão branco ou um lobo rondando por ali?

“Ultimamente, os monstros vinham persegui-lo dentro dos sonhos. Eles pousavam a mão em seus ombros. Sussurravam em seus ouvidos enquanto ele dormia…”

RESENHA: O MENINO QUE DESENHAVA MONSTROS - KEITH DONOHUE

Minha expectativa durante a leitura de Menino que desenhava monstros era a de descobrir logo se os monstros existiam. A todo tempo briguei comigo mesma em uma espécie de bipolaridade reflexiva, que se resumia em desenredar logo se: a) os monstros existem a partir dos desenhos de JP? b) Ele tem poder de dar vida às figuras do seu bloco de papéis? E garanto que, das três vezes que reli as últimas páginas de “O Menino Que Desenhava Monstros”, me arrepiei completamente. A proposta de Donohue foi perturbadoramente implacável e me acertou em cheio. Que história! Que desfecho… Quanta criatividade.

Gostei do clima sombrio que ronda toda a narrativa de Donohue. Achei pontual a história de fantasmas que foi contada à Holly por uma mulher (autista) que trabalha com o Padre da igreja da aldeia. Isso deu um foco para Holly, um motivo, quase que uma tábua de salvação. Deu-lhe um “para que” e um “por que”. A mãe vinha se sentindo muito mal por seu marido não compreender suas questões em relação ao diagnóstico do filho. Vemos negação, vemos culpa, vemos dor, e sentimos e sofremos com essa mãe, pelo menos eu sim!

“Meu maior medo é que ele nunca seja normal… normal o suficiente para se integrar com os outros. Quero dizer, o senhor sabe, o que vai acontecer com ele quando não estivermos mais por perto?”

O pai, por sua vez, foi a representação de alguém que larga praticamente tudo para se dedicar ao filho. Como JP não sai de casa, seu pai encontrou uma forma de trabalhar de forma esporádica, o que lhe permite ficar poucas horas fora de casa, e assim acompanhar Jip (é como ele chama o filho) em suas necessidades. Achei que Tim era um tanto condescendente, deixando que o filho manipulasse algumas ocasiões, porém, acredito que ele teve seus motivos. Cada um enfrenta o diagnóstico de filho da forma que consegue lidar. É algo pessoal em demasia, e me policiei para não tecer julgamentos severos.

Keith Donohue não me decepcionou na explicação da obsessão de JP (o desenhar). Uma obsessão que visava sua destruição, e que ao longo da história, fica muito claro que está é uma atividade quase que escravizadora para o menino. O autor sutilmente foi deixando pequenas pistas enquanto a narração de Menino que desenhava monstros ia mudando de voz – isso é fantástico, eu adoro. Temos alguns pontos de vista diferente das circunstâncias apresentadas. E confesso que até chegar à última palavra escrita por Donohue, eu não sabia o que ele iria me entregar. Teve suspense e terror sim – forças sobrenaturais, inspirado em H. P. Lovecraft, ou em uma mente instável como os narradores de Edgar Allan Poe – e claramente, isso mexeu comigo. Senti-me diretamente ligada com a história, e por esses motivos, acredito que a obra foi muito bem sucedida. Atribui 4 estrelas em 5 lá no Skoob.

“O que é aquela coisa?”

Falar sobre uma edição que nos é entregue pela editora DarkSide Books quase sempre nos torna repetitivos. Sinto-me presa em uma espiral eterna. Mas, positivamente falando, e vocês poderão perceber. A capa de “O Menino Que Desenhava Monstros” é fantástica. O título da obra e a boca monstruosa possuem uma textura diferenciada, que realça ao toque. A imagem da boca de um monstro como que se estivesse saindo através de dentadas do miolo do romance ficou assustadoramente deliciosa. Adam, meu filho de três anos, quando me via com o livro em mãos, olhando para a capa ele sempre dizia: dentes muito sujos. E eu me divertia com isso!

A diagramação interna é absurdamente maravilhosa. Temos sensações de rabiscos aleatórios a cada capítulo, e no final do livro ainda existem diversas páginas em branco com os títulos: “Desenhe aqui seus MONSTROS”, “Desenhe aqui suas LEMBRANÇAS”, “Desenhe aqui suas ANGÚSTIAS”, “Desenhe aqui suas CRIATURAS”, “Desenhe aqui seus PESADELOS”, e “Desenhe aqui seus SONHOS”. Nota 1000.

Keith Donohue é um escritor americano de 59 anos, nascido na Pensilvânia. Tem 5 romances escritos, e vive em Maryland. Seus livros já foram traduzidos para mais de doze idiomas. E os direitos de adaptação de “O Menino Que Desenhava Monstros” já foram comprados. Lançou um romance novo nos Estados Unidos no último mês de outubro. Li a sinopse e fiquei encantada. Será que chega por aqui? Estou doida para conferir mais obras dele. Amei seu estilo.

“Não é uma fase, Tim. Não é só mais um maldito capítulo, é todo o resto da história.”

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Titulo: O Menino que Desenhava Monstros
Autor: Keith Donohue
Ano: 2016
Páginas: 256
Editora: DarkSide Books
Nota: 4/5
Gênero: Suspense e Mistério, Sick Lit
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