O Homem de Giz : No ano de 1986, Eddie e sua turma de amigos passa a maior parte de seus dias criando brincadeiras e procurando aventuras na pacata em Anderbury (provavelmente, uma fictícia cidade em algum lugar do Reino Unido). As crianças acabaram desenvolvendo um código secreto, que consiste em desenhos feitos a giz – aqueles usados em quadro negro.

A brincadeira começa quando homenzinhos palitos são rabiscados no asfalto, na calçada de casa, em parques e outros lugares; e essas mensagens somente eles entendem. Um dia, através de um desenho misterioso esses amigos acabam chegando a um corpo desmembrado, com partes dele espalhado por distintos locais do bosque. Dessa forma, a vida das crianças nunca mais será a mesma, do mesmo modo que a vida de diversos adultos que os cercam.

Em 2016, Eddie é um adulto de 42 anos que se esforça para superar as histórias do passado. Passaram-se 30 anos, mas a chegada de uma carta anônima com o desenho de um homem de giz sendo enforcado reacende o antigo crime, e perguntas que não tiveram respostas voltam à tona. E logo em seguida, um dos meninos da antiga turma de Eddie, agora um homem, aparece morto e Eddie constata que precisará ir até o fim para encontrar as respostas do que de fato aconteceu quando eles tinham apenas 12 anos.

“Foi a primeira vez que compreendi como as coisas podem mudar de uma hora para outra.”

Nosso narrador é Eddie Monstro, na verdade, Edward Adams. Ele compõe um grupo de amigos junto de Nick (sem apelido, pois é a única menina, e eles acham que não combina ou não é preciso) – uma linda menina, com cabelos ruivos e pouco feminina para os padrões; Gav Gordo – tipo um líder entre eles, possuía os melhores brinquedos, a melhor bicicleta, a melhor casa e fazia as piores imitações; Hopp (ou David Hopkins) – considerado o mais gentil dos meninos, era criado somente por sua mãe que fazia faxina em vários lugares da cidade; e Mickey Metal – dotado de pouquíssima empatia e muito sarcasmo, ele usava aparelhos nos dentes e tanto seu temperamento, como ele mesmo eram feios.

Aos fãs de Stephen King, não é difícil fazer algumas comparações desde o começo da trama. O Homem de Giz começa intercalando o passado e o futuro no decorrer dos capítulos, e possui um próprio ‘Clube dos Otários’, onde até algumas características são parecidas com os seis integrantes que enfrentam o ser conhecido por Pennywise. As crianças de O Homem de Giz também são atormentadas por um grupinho de valentões, mas aquilo que percebemos como referências e inspirações de It não vem com um sentimento incômodo e sim com aquela sensação agradável de reviver algo bom e que deixou saudades.

Podemos enxergar Eddie como nosso protagonista. Toda a história gira em torno dele, e os fatos começam a desenrolar, quando em uma feira de parque, ele presencia um acidente trágico com um brinquedo chamado Twister. Nesse momento Eddie estava admirando uma linda jovem (Garota do Twister), ao lado de um homem que viria num futuro próximo ser seu professor de inglês: o senhor Halloran – albino e que se veste de maneira bem peculiar. O brinquedo quebra e machuca quase que mortalmente essa garota, dilacerando parte de seu rosto, como também uma de suas pernas.

Por incentivo do Sr. Halloran (e só por isso), Eddie ajuda a moça e após cuidados médicos, ela resiste e não morre. De certa forma Eddie e o Sr. Halloran criam certo vínculo, e foi o professor que, mais tarde, deu a ideia dos desenhos do Homem de Giz para ser um tipo de código entre os amigos. E assim eles o fazem, deixando mensagens secretas e com cores diferentes para cada membro do grupo.

Indo um pouco ao futuro, descobrimos que Eddie gosta muito de rotina desde muito novo. Ele deixa tudo bem arrumado, desde suas meias até livros e fitas (tudo em ordem alfabética!). E isso desde criança. O que podemos ir percebendo é que ele tem alguns sintomas de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), e o comportamento de colecionismo é um bom exemplo disso. Ele guarda objetos de todo tipo, às vezes coisas usadas e sem qualquer valor monetário, que para os outros podem ser considerados inúteis. Vale ressaltar que alguns itens de sua coleção foram apropriados de forma indevida – Eddie tinha a “mão leve” em algumas ocasiões; a cleptomania caracteriza-se como a incapacidade de resistir ao impulso de furtar objetos desnecessários para uso pessoal ou de baixo valor monetário.

“São estas coisas que nos moldam: não as que podemos mudar, mas as que não podemos.”

Dica de Leitura: O Homem de Giz

O mistério do corpo desmembrado parece ser resolvido de forma muito fácil, e ninguém mais insistiu com esse assunto. Mas, nas primeiras páginas de O Homem de Giz nós descobrimos de cara que alguém pega a cabeça da moça esquartejada e a guarda dentro de uma mochila. Precisamos lidar com essas incógnitas (Quem pegou a cabeça? Onde ela está? De quem é o corpo?) durante a narração da história.

Tanto aos 12 anos, como quando está com 42 anos, Eddie sofre de ‘sonhos lúcidos’ – percepção muito tênue entre realidade e sonho. Às vezes, algumas respostas ou ameaças chegam a ele através desses sonhos/pesadelos. E ele meio que dá ouvido a essas intuições. Juntando várias dessas pistas e informações, ele vai refazendo alguns passos em busca de descobrir quem foi que assassinou a garota esquartejada.

Em certo momento Eddie lembra-se de um conselho de seu pai, onde ele o passa o seguinte ensinamento: “Nunca suponha. Questione tudo. Sempre enxergue além do óbvio”. Para seu pai quem supunha, era burro. Suposições geralmente nos faz errar. À partir do momento que Ed (para ele Eddie é para quando ele era criança) se lembrou desse ensinamento do pai, ele fica muito mais objetivo em suas buscas. Toda e qualquer pista se torna importante, e cada para cada mistério ele busca uma razão e explicação.

“Os idiotas correm para onde os anjos têm medo de pisar.”

Dica de Leitura: O Homem de Giz

Além dos sintomas e possíveis transtornos que Ed aparenta possuir, ele também tem muito medo de sofrer do Mal de Alzheimer, doença que fez seu pai definhar com pouco mais de 40 anos. Assim Ed vive apreensivo sobre sua memória, e está sempre se questionando se esse mal o vai tocar através da hereditariedade. Ele nunca foi muito afeito à bebida quando jovem, pois sempre preferiu ficar estudando (considerado um nerd pelos amigos), hoje, porém, acaba se tornando bastante companheiro da bebida na fase adulta, onde vive na mesma casa de sua infância, dormindo no mesmo quarto de sempre.

Se tem algo que admiro muito em um autor – principalmente em um novo autor e em seu livro de estreia – é ele nos entregar um protagonista “quebrado”, um protagonista real, com falhas, com medos,com transtornos aos quais estamos todos nós sujeitos. Esses autores conseguem se achegar muito mais ao leitor!

Em certo momento da narrativa é dito que ‘todo garoto quer encontrar um cadáver’, e esse foi um dos momentos que a memória afetiva bateu lá no conto O Corpo (Stephen King, no livro Quatro Estações), conto esse que deu origem à adaptação Conta Comigo – quatro amigos que vão atrás de um corpo de um garoto, e que também enfrentam um valentão irmão mais velho de um dos meninos do grupo. Outra sensação de Déjà vu foi ler que Gavin, o Gav Gordo, emagreceu fazendo atividades físicas e principalmente corrida, assim como o nosso queridinho Ben Hanscom (de It).

“Ninguém nunca encontrou respostas no fundo de uma garrafa. Obviamente não é para isso que elas servem. A ideia é chegar ao fundo da garrafa para esquecer as perguntas.”

Resenha de livro: O Homem de Giz

C. J. Tudor foi muito feliz em sua narrativa onde intercala os anos do passado e do presente a cada capítulo, trazendo desta forma aquela necessidade ao leitor de ler ‘somente mais um capítulo’, e quando menos dos damos conta, já chegamos ao fim da história. Aconteceu comigo! E o suspense é bem arquitetado, pois nos deixa com um misto de curiosidade com a certeza de que estamos começando entender algo. Porém, como sempre acontece em um bom thriller, nós estamos enganados. Os personagens são muito bem construídos, suas personalidades são delineadas na infância e podemos perceber como se desenvolveram até a idade adulta. Os mistérios nos deixam intrigados a cada fim de capítulo, onde quase sempre é desvendada mais uma peça chave e significante para construção do todo.

Ela brinca quase no final do livro a respeito de histórias com “pontas soltas”… Pois já sabemos que um bom thriller é aquele que nos prende, e que nos deixa além de agoniados, muito curiosos. Mas, que esse thriller se proponha a responder os questionamentos levantados durante a narração é imprescindível. E Tudor foi certeira! Não deixou a desejar e nos pegou de surpresa com um final bastante satisfatório.

“E não se pode lutar contra a loucura, porque ela sempre vence.”

A autora se declara uma grande fã de Stephen King, e aqueles que lerem O Homem de Giz poderão fisgar algumas referências e/ou inspirações em diversos trechos de sua obra. Ela também afirma gostar muito de Harlan Coben, e embora seu thriller tenha sido desenhado de forma mais lenta (e não de forma eletrizante como Coben gosta de fazer), podemos perceber que a inspiração nesse estilo de escrita foi muito bem fundamentada. Também se pode perceber uma homenagem ao mestre das noites em claro em certa parte de O Homem de Giz.

C. J. Tudor nasceu em Salisbury e cresceu em Nottingham (Inglaterra), onde ela ainda vive com seu marido e filha. Deixou a escola aos 16 anos, e teve diversos tipos de empregos. Diz sempre ter gostado de escrever, e que teve muito material seu negado pelas editoras. A ideia original para O Homem de Giz surgiu quando sua filha ganhou um balde com giz de um amigo de Tudor, e eles passaram um tempo desenhando por todo lado. A autora relata que sentiu algo meio assustador/meio sombrio nos bonecos palitos feitos a giz. E nós agradecemos aos inspiradores! Esse é um primeiro livro que vale muito a pena ler. Correm boatos de que uma adaptação cinematográfica pode acontecer também! Ela já está com um novo thriller no forno para muito em breve

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Resenha O Homem de Giz

Titulo: O homem de giz
 Autora: C. J. Tudor
Ano: 2018 
Páginas: 272 
Editora: Intrínseca 
Tradução: Alexandre Raposo 
Gênero: Mistério, Suspense
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