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O ANO DA GRAÇA – KIM LIGGETT | RESENHA

25 junho, 2020 por

O ANO DA GRAÇA , de Kim Liggett, é uma distopia com críticas a um sistema patriarcal opressivo, que detêm o poder através da visão deturpada que as mulheres são uma ameaça simplesmente por existirem.

Estamos no Condado de Garner, onde as mulheres não têm voz: não podem sonhar, não podem rezar em silêncio, e até mesmo seus cabelos têm de ser presos em uma trança. Isso tudo porque há a crença de que elas carregam uma magia que pode tentar os homens, da mesma forma como Eva fez.

“Nos dizem que temos o poder de fazer homens adultos saírem de suas camas, deixar garotos alucinados e enlouquecer as esposas de tanto ciúme. Acreditam que nossa pela emana afrodisíaco poderoso, a essência potente da juventude, de uma menina à beira de se tornar mulher. É por isso que somos banidas aos dezesseis anos, para liberarmos nossa magia na natureza antes de voltarmos à civilização”

Para que sejam purificadas de sua magia, ao completarem 16 anos, as meninas passam por um ritual de purificação – O Ano da Graça. Ninguém fala sobre isso, o que serve para criar um clima de suspense e medo. As meninas são enviadas para uma ilha, mas, antes, passam por uma cerimônia onde algumas são escolhidas como esposas, e recebem um véu de seus futuros maridos – se voltarem. As demais terão seus destinos traçados pelo conselho do condado.

“Casar não significa privilégio algum para mim. Não há liberdade no conforto. As algemas podem ser acolchoadas, mas não deixam de ser algemas.”

Tierney James é uma garota que acabou de completar 16 anos. Até então, levava uma vida de aventuras ao lado do amigo Michael, sob o olhar atento do seu pai, médico do condado. Suas duas irmãs mais velhas já passaram pelo Ano da Graça, e ambas já estão casadas. Tierney tem mais duas irmãs mais novas.

Por ter um espírito tão livre, tem dificuldades em aceitar as regras de sua comunidade, mesmo que ainda tenha medo de sua magia – afinal, contrariando as ordens, ela sonha frequentemente com uma garota que lhe oferece uma flor vermelha. Mesmo sem compreender, ela sabe que não poderia ser feliz amarrada em um casamento, então sempre se empenhou em se mostrar como uma péssima candidata.

“Somos proibidas de sonhar. Os homens acreditam que os sonhos são uma forma de escondermos nossa magia. Sonhar por si só já bastaria para que eu fosse punida, mas, se descobrirem com o que eu sonho, eu iria para a forca.”

No dia da cerimônia, as meninas trocam o laço branco de suas tranças pela cor vermelha, e vão para a praça esperar a deliberação sobre quem sairá de lá com o véu. Apesar de todo seu trabalho, Tierney é uma das 12 escolhidas – para sua surpresa e indignação. Porque isso também coloca um alvo em suas costas, já que outras 18 meninas só poderão tomar seu lugar caso ela não volte do confinamento.

O ANO DA GRAÇA - KIM LIGGETT 02

Após a cerimônia, as meninas são escoltadas até o acampamento, de onde só voltarão após um ano. Durante esse tempo, caso tentem sair da ilha, poderão ser caçadas por predadores, que tem permissão de matar aquelas que tentarem fugir para vender os pedaços de seus corpos cheios de magia no mercado, e de onde tem de voltar – vivas ou em pedaços, caso contrário as irmãs mais novas são expulsas do condado e tem de viver às margens, onde normalmente se prostituem.

Então, pela segurança de suas irmãs, Tierney sabe que terá de sobreviver ao Ano da Graça!

“Eu costumava me perguntar como as mulheres podiam fechar os olhos para as coisas no Condado, coisas que estavam acontecendo bem na frente delas, mas algumas verdades são tão horríveis que você não pode sequer admiti-las para si mesmo.”

O Ano da Graça é considerado uma mistura de O conto da Aia e Jogos Vorazes, o que poderia deixar o leitor incomodado. Mas a autora consegue extrair pontos importantes das duas obras e entregar uma historia com um frescor revigorante.

Aqui se faz isso de uma forma impressionante. As mulheres, quando saem da ilha, estão alquebradas, desiludidas, mutiladas, traumatizadas a tal ponto que não deveriam ter forças para erguer suas vozes. E assim se mantêm o Status quo no condado.

A historia é bem complexa, e eu não trouxe grande parte dos acontecimentos sobre o que ocorre na ilha porque acredito que deve ser um degustar muito pessoal. Muitas reflexões podem ser gestadas a partir dessa leitura, mas acho que o principal seria de como nos acovardamos e nos calamos frente a tantos disparates. São homens que pautam sua masculinidade na diminuição do papel feminino. Que são mais inteligentes, mais fortes, que contribuem verdadeiramente para a construção de uma sociedade. As mulheres são apenas ‘fraquejadas’. E não merecem papel de destaque.

O ANO DA GRAÇA - KIM LIGGETT 001

Mas em O ano da Graça temos Tierney. Ela não é uma super mulher, que vai enfrentar todos. É uma menina quase como as outras, que se permite sonhar, mas que duvida de sua força. Nem acredita que tem. O desabrochar dela é lindo de se acompanhar. É um crescimento gradativo, por isso bem crível.

Os outros personagens também tem papéis significativos: Michael Welk, o melhor amigo de Tierney; Hans, um dos guardas responsáveis por conduzir as moças até a ilha, que já amou alguém no passado; Kiersten Jenkins, uma das garotas do Ano da Graça, que acredita veementemente na magia das mulheres; Gertrude Fenton, que é rejeitada por conta de um problema anterior e acaba se tornando uma aliada da Tierney; Ryker, um dos predadores, além de uma figura chamada de usurpadora, vista como o mal que pode se abater sobra a comunidade.

“Quando nossas escolhas são tiradas de nós, o fogo cresce por dentro. Às vezes, acho que poderíamos incendiar o mundo inteiro, queimá-lo até só restarem cinzas, com nosso amor, nossa fúria, e tudo que há em nós.”

E um final… de deixar com lágrimas até o mais duro dos leitores. Termina com esperança. É um final que pode deixar alguns mais incomodados, até agora não sei se posso afirmar que foi aberto. Mas foi condizente, espero sinceramente que não tenha continuação.

Vale lembrar que O ano da Graça vai ser adaptado, com roteiro de Ashleigh Powell e será produzido e dirigido por Elizabeth Banks, conhecida por seu envolvimento em histórias que mostram a força das mulheres.

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O ANO DA GRAÇA - KIM LIGGETT

Título:  O ano da Graça
Autor:  Kim Liggett
Ano: 2020
Páginas: 356
Editora:  GloboAlt
Gênero:  Distopia
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22 Comentários

  • Karina Rodrigues
    Karina Rodrigues
    junho 29, 2020

    Oie, Maisa!!!
    Vc sabe minha relação com esse livro, neh! To basicamente no começo ainda, mas que leitura forte. Eu gosto muito do gênero e gosto muito de detalhar e ir a fundo de cada quote. Na sociedade em que vivemos, livros assim são extremamente necessários.
    Parabéns pela ótima resenha!
    Bjos

    • Maisa Gonçalves
      Maisa Gonçalves
      julho 23, 2020

      Karina, obrigada! Pois é, a gente vai sentindo um ódio durante a leitura… depois me conte se gostou do livro!

  • Erika Monteiro
    junho 29, 2020

    Oi Maisa, tudo bem? O que mais gosto em distopias é essa possibilidade de discutirmos sobre um outro cenário para a sociedade em que vivemos. Muitos autores já trouxeram histórias semelhantes e sempre levantam questionamentos parecidos. Como você bem lembrou de Jogos Vorazes e O conto da Aia. Na minha opinião este segundo é muito denso por sinal. Que bom a autora ter conseguido construir uma boa trama. Um abraço, Érika =^.^=

    • Maisa Gonçalves
      Maisa Gonçalves
      junho 29, 2020

      Érika, sim, ótimas reflexões! Eu achei que ela conseguiu levar uma discussão importante para o público jovem. Obrigada!

  • Yasmine Evaristo
    junho 29, 2020

    É na segunda resenha que leio sobre esse livro e a curiosidade sobre ele ao aumenta.

    • Maisa Gonçalves
      Maisa Gonçalves
      junho 29, 2020

      Yasmine, daqueles livros que a gente tem raiva, sabe, porque é tão próximo do que vivemos… que seja mais um farol para a sororidade!

  • Oi! Nossa, como eu quero esse livro! Esses dias li uma resenha dele que já me instigou. Vc só me fez ter mais certeza disso aqui, porque gosto demais de abordagens assim, com essa temática, na Literatura. A capa já me fora um chamativo, pra te falar a verdade. O contexto é incrível! Complexidade ao mencionar as mulheres e que me trazem a um tema que gosto tanto! Arraso de Resenha, com considerações perfeitas! Bjs

    • Maisa Gonçalves
      Maisa Gonçalves
      junho 29, 2020

      Ana Cláudia, obrigada! A capa está belíssima, e traz pontos importantes da trama. Bjos!

  • Debora Sapphire
    junho 28, 2020

    Sensacional as suas considerações a respeito dessa obra. Eu particularmente, gosto muito de uma distopia com críticas a um sistema patriarcal opressivo, assim como este. Então, já despertou o meu interesse pela leitura do livro.
    Essa proposta de fazer uma crítica a esse sistema opressivo, cujo detêm o poder através dessa visão deturpada que vêem as mulheres como uma ameaça pelo simples fato de sua existência, me pareceu ser uma obra necessária e impactante. Interessante que terá adaptação.

    • Maisa Gonçalves
      Maisa Gonçalves
      junho 29, 2020

      Débora, já estou ansiosa pela adaptação, pode ser um filme belíssimo! Abraços.

  • Leticia Rodrigues
    junho 28, 2020

    li essa obra a poucos meses e posso dizer que pra um juvenil jovem adulto ele é muito bom, as relações femininas as questões religiosas, o controle e submissão tudo de modo fácil de ler mas que trazem a reflexao, uma das melhores leituras que tive nos ultimos meses.

    • Maisa Gonçalves
      Maisa Gonçalves
      junho 29, 2020

      Letícia, não é? Como as relações femininas são moldadas e nem percebemos! Abraços.

  • Valéria
    junho 28, 2020

    Oi, Maisa. Já tinha visto algumas opiniões sobre esse livro e achei a premissa interessante. Realmente lembrei de Atwood e jogos vorazes quando comecei a ler o texto. Mas como vc falou, a autora deve ter dado um enredo digno para a trama…
    Hahahsh e pensar que nesse primeiro parágrafo, não fica tão distante do pensamento de muitos homens em pleno 2020, é tragicômico.
    Espero ter a oportunidade de ler algum dia…
    Tschüss

    • Maisa Gonçalves
      Maisa Gonçalves
      junho 29, 2020

      Valéria, não é? Em pleno século XXI, e os homens ainda tem a necessidade de serem melhores – como se fosse uma competição. Pior, o que fazem às mulheres que permitem ou não tem instrução, nem percepção de como está tudo errado… Triste.

  • Graziela Costa
    junho 28, 2020

    Maísa, que resenha maravilhosa. Tai um livro que estou bem curiosa para ler, gostei muito de VOX e Aia e segue esse estilo!

    • Maisa Gonçalves
      Maisa Gonçalves
      junho 29, 2020

      Grazi, eu gostei mais do que Vox, achei o final tão decepcionante… Esse traz esperança, sabe, então me encantou mais. Depois dê uma chance!

  • Lilian Farias
    junho 28, 2020

    Eu li esse livro este ano, um juvenil muito bom, e que tão simbolicamente nos encontramos próximos dessa realidade, infelizmente, sobre o final, me deu a sensação de ser aberto, fiquei na dúvida, mas não me incomodei, o livro segue uma lógica e é preciso respeitar, de qualquer modo, achei fantástico.

    • Maisa Gonçalves
      Maisa Gonçalves
      junho 29, 2020

      Lilian, concordo com você, foi aquele final “- não é possível, será? Mas, preferi encarar como tendo dado tudo certo, apenas uma despedida. Enfim, entendo a escolha da autora. Bjos!

  • Joyce
    junho 28, 2020

    Nossa que livro hein! Confesso que já estou com vontade de ler e já vou coloca_lo na lista. Gostei do enredo e de tudo que ele proporciona ao leitor. Essa capa tá maravilhosa.

    • Maisa Gonçalves
      Maisa Gonçalves
      junho 29, 2020

      Joyce, e a capa reflete tanto do livro… Espero que a leitura te encante também!

  • Hanna Carolina
    junho 27, 2020

    Gente, já fiquei incomodada só de ler o tema do livro. Apesar de ter gostado de ler O conto de Aia e ser fã da série Jogos vorazes, não sei se teria estômago para mais um livro no estilo nesse momento. Mas apesar disso, eu gostei da premissa dele e estou curiosa para saber como Tierney vai sair dessa situação. Quem sabe um dia eu dê uma chance ao livro e descubra. =)
    Bjks!

    Mundinho da Hanna
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    • Maisa Gonçalves
      Maisa Gonçalves
      julho 23, 2020

      Hanna, te entendo, é preciso estômago, principalmente no início. Mas guarde a indicação para um momento mais ameno!