RESENHA DE LIVRO : A MENINA SUBMERSA : MEMÓRIAS - CAITLÍN R. KIERNAN
Em A Menina Submersa: memorias: India Morgan Phelps – Imp para seus amigos – é esquizofrênica. A verdade é que essa garota não pode confiar em sua própria mente. Está constantemente lutando com suas percepções da realidade, e tem certeza de que suas memórias a traíram de alguma forma, forçando-a a questionar sua própria identidade. E é assim que Caitlín nos conta essa história, através de uma narração não linear, porém, instigante e arrebatadora.

A autora consegue delinear toda obsessão de sua personagem, de maneira a convencer o leitor que cada trecho descrito é real e de fato aconteceu, ou mesmo que cada trecho desenvolvido é uma ilusão, um devaneio… Pois, desde o início sabemos que Imp é uma narradora não confiável (não é culpa dela), e em meio suas divagações, contos escritos, poesias rabiscadas, descrições de quadros e muitas referências culturais, podemos perceber que Caitlín inventou alguma coisa totalmente inovadora e imersiva dentro da fantasia e do thriller psicológico, mesclando o mundo do horror.

RESENHA: A MENINA SUBMERSA : MEMÓRIAS - CAITLÍN R. KIERNAN

Imp declara que ‘tecemos ficções necessárias, e às vezes elas nos tecem’, e é desta forma que conhecemos os detalhes dessa história que envolve uma garota que herdou um distúrbio psíquico de sua mãe, de sua avó e de outras familiares distantes. Não sabemos se Imp está tecendo a história, ou se a história é quem tece Imp. Ela é esquizofrênica, e esse distúrbio faz com que a pessoa perca a noção da realidade. Como sintomas, a pessoa pode apresentar delírios, alucinações, fala e escrita desorganizada, comportamento desorganizado e/ou catatônico, e demais sintomas negativos (diminuição na habilidade de expressar-se emocionalmente, falta de iniciativa, etc.).

E é por isso que Imp se declara não confiável desde o início de tudo, onde cabe ao leitor acreditar ou não, embarcar na história ou acreditar que é tudo delírio de nossa narradora. Pode ser que ela realmente não seja uma fonte segura para narração dos fatos, mas mesmo assim, se torna a única fonte que temos.

“Mas agora que criei meu começo, por mais arbitrário que seja, ele parece tão certo quanto eu acho que qualquer começo jamais será.”

Então, nesse primeiro momento Imp nos deixa a par dos acontecimentos com sua família, onde tanto sua mãe (Rosemary Anne), quanto sua avó (Caroline) cometeu suicídio em decorrência do sofrimento causado pela esquizofrenia. Ela entende e perdoa sua família, mesmo tendo ficado sozinha em seu cantinho lá em Rhode Island. Nunca conheceu seu pai, e quando criança, Imp construía continuamente uma checklist de maneiras bizarras e doloridas as quais ela desejava que seu pai viesse a falecer. Vive em seu apartamento alugado, onde escreve, lê e pinta quadros (sua maior paixão). Rosemary Anne levava sua filha a visitas a museus, e em um desses passeios Imp conheceu o quadro ‘A Menina Submersa’, de Philip George Saltonstall e cria toda uma obsessão a partir desse encontro.

A vida de Imp começa a mudar quando andando pela calçada, ela encontra uns itens abandonados e começa a procurar algum livro ou disco que lhe agrade. Mas, Abalyn é dona desses objetos e não fica feliz com essa liberdade de nossa narradora em mexer em suas coisas espalhadas. Imp acaba descobrindo que Abalyn foi despejada pela antiga namorada, e no fim da conversa, Abalyn está indo morar um tempo na casa de Imp, que realmente tem espaço de sobra e disposição para essa experiência. O trabalho de Abalyn é resenhar jogos de vídeo game, e por isso está sempre em casa. Ela é uma transexual que perdeu o contato com sua família por falta de aceitação. Ela e Imp engatam em um romance, e se tornam namoradas.

Numa noite qualquer, dirigindo sem destino certo, de madrugada, e deixando sua namorada em casa jogando (era seu trabalho, afinal), Imp vê uma garota na beira da Rodovia 122. Era como se antes não houvesse nada ali, e de repente, ali estava a moça. Nua, super misteriosa, e muda, ela simplesmente estava ali fitando a escuridão do rio Blackstone. Tudo que cerca esse acontecimento é muito sobrenatural. Nossa não confiável narradora para seu carro e vai até a garota, a protege e leva-a até ao automóvel, seu Honda. Ao chegar a sua casa com ela a reação de Abalyn não foi das melhores, afinal de contas, essa garota poderia representar qualquer tipo de perigo para elas.

Descobrimos que essa moça é Eva, e Eva é definitivamente a alma desse livro. Imp às vezes acredita ser Eva uma sereia. Ou um lobo que se transforma em mulher. Ela também pode ser o fantasma de uma mulher afogada – uma menina submersa. Às vezes ela acredita que Eva nem exista e é fruto de sua imaginação. Ou Eva também pode ser apenas uma garota com um passado, como qualquer outra pessoa. O leitor também fica confuso com todas essas conjecturas. Porém, e ainda bem, temos Abalyn para dar um pouco de crédito a alguns trechos. E Eva bem poderia encaixar como uma metáfora perfeita para esquizofrenia de Imp.

“A normalidade é um comprimido amargo do qual reclamamos.”

A Menina Submersa: Memórias 

O recurso de fluxo de consciência utilizado por Kiernan faz com que o leitor experiencie em sua própria pele quão confusa e incerta Imp se sente, e como sua vida passa a ser regida por sentimentos e sensações que ela não pode se quer garantir a si própria que são verdadeiros. Mesmo fazendo acompanhamento psiquiátrico regular e fazendo uso de medicação controlada, Imp se vê derrapando nas verdades que construiu para si.

Esse livro é repleto de referências musicais, literárias, e culturais de um modo em geral. Existe uma playlist no Spotify que torna a experiência ainda mais profunda. Durante a leitura é muito gostoso, e quase necessário, ir ressaltando e anotando essas referências, ou ir fazendo pequenas pesquisas para melhor adentrarmos a realidade de Imp. Mas, com a devida calma, uma vez que temos citados na história, por exemplo, certa música que pessoas escutaram para suicidar, ou a história daquela famosa floresta japonesa (Aokigahara) aonde milhares de pessoas vão para tirar sua vida. Parcimônia, cautela e ponderação ao lidar com essas informações!

“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo mais antigo e mais forte de medo é o temor do desconhecido.”

A Menina Submersa: Memórias 

A leitura é extremamente marcante e sensível, e não pense estar perdido na história sem saber para onde Imp está encaminhando o enredo de sua vida. Simplesmente sinta como ela sinta, e reflita como pode ser o dia-a-dia de alguém com um diagnóstico desses que é praticamente uma sentença. Em um nível mais estrito e pessoal, confesso que senti muita empatia pela narradora, por suas crises e dúvidas, pelos seus medos e sua falta de certeza.

Caitlín R. Kiernan nasceu em Dublin, mas vive nos Estados Unidos desde pequena. Tem 54 anos, é autora de livros de ficção científica e fantasia dark, e é paleontóloga. Escreveu dez romances, dezenas de histórias em quadrinhos e mais de 200 contos e novelas. O livro A Menina Submersa: Memórias, conquistou o prêmio Bram Stoker e James Tiptree, Jr. (destinado a obras de ficção científica ou de fantasia que ampliam e exploram a compreensão de gênero).

 ”Não vejo muita resolução no mundo; nascemos, vivemos e morremos, e no fim disso há somente uma confusão feia de negócios inacabados. ”

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A Menina Submersa: Memórias
Autora: Caitlín R. Kiernan
Ano: 2015
Páginas: 320
Editora: DarkSide Books
Tradutoras: Ana Resende e Carolina Caires
Gênero: Fantasia, Ficção Científica, Terror
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