Entrando para a lista dos bons thrillers psicológicos deste ano, que não foram poucos, chega o lançamento do Grupo Editorial Record “Menina Boa, Menina Má”, livro de estréia da autora Ali Land. A autora trabalhou por anos com tratamento da saúde mental, o que lhe serviu de embasamento para a história criada e propiciou essa interessante discussão de como ficaria a cabeça (e o coração) de uma criança vítima direta dos abusos de um psicopata e/ou serial killer que tenha relações de parentesco com este, como no caso do livro, uma filha de uma assassina. Haveria algum dano permanente e irreversível na criança?

Annie tem 15 anos e após sofrer e assistir abusos de sua mãe contra crianças indefesas, acabou por denunciá-la à polícia. Enfermeira carinhosa “de fachada”, sua mãe enganava mães desesperadas em abrigos sociais, vítimas de maus tratos em casa, e as convencia a lhe dar seus filhos pequenos, mal sabendo que as pobres crianças encontrariam um destino ainda pior.

Seu alvo eram os meninos, mas acontecia de pegar meninas também. Mais de um fator foi determinante para a decisão final de Annie e agora ela se vê em uma nova casa, com uma nova família, com um novo nome, uma nova escola… Porém ela não tem tanta certeza assim se conseguiu se soltar das amarras de sua monstruosa mãe.

“O Playground.
Era assim que ela chamava o lugar.
Onde os jogos eram cruéis e o vencedor era sempre o mesmo.
Quando não era a minha vez, ela me fazia assistir.
Um buraco na parede.
Me perguntava depois. O que você viu, Annie?
O que você viu?”

Em 30 semanas será o julgamento de sua mãe e toda a cidade está indignada com o caso. Seu novo “pai temporário” é seu psicólogo Mike, que vem tentando preparar a garota para o confronto com as partes que ela aceita contar para ele (mas ela não conta tudo para Mike). Com uma voz insistente que não sai de sua cabeça, Milly (não mais Annie) se pega questionando como deve agir em diversas situações, deixando aflorar um lado nem sempre muito bom. E como agravante, o seu novo lar não pode ser necessariamente chamado de calmo e acolhedor, principalmente no que diz respeito a sua “irmã adotiva” Phoebe e sua “mãe adotiva” Saskia.

Se você acha que já viu de tudo sobre a mente dos psicopatas, principalmente agora que está na moda este tema inclusive tendo vários filmes e séries a respeito (como o sucesso da Netflix Mindhunter que nós já falamos AQUI), fique de olho neste livro, pois, pela sinopse, você já saberá que ele veio para inovar.

Ele não vai falar da mente doentia que pratica o ato e sim daquela que foi diretamente submetida a ele e das então possíveis conseqüências. A partir da suposição de que a filha da psicopata possa ter sido influenciada ou condicionada por diversos aspectos da conduta da mãe, o leitor é conduzido por uma série de fatores e incertezas que o fazem questionar, em determinado momento, as reais intenções de Milly.Entender a garota e a dimensão da influência de sua mãe é algo admirável, ainda mais porque o livro é todo escrito em primeira pessoa na voz de Milly/Annie, como se ela tivesse contando sua história para sua mãe.

“Os corações das crianças pequenas são órgãos delicados. Um começo cruel neste mundo pode moldá-los de maneiras estranhas.” Carson McCullers, 1917-1967

A inserção à nova família e os grandes conflitos que vieram com ela me deixaram um pouco em dúvida no começo, pois acredito que em uma situação de fragilidade escolheriam melhor o lar a acolher a garota. Milly/Annie tem diversos problemas de relacionamento com a filha do casal, que tem a sua idade, o que piora ainda mais seu estado mental.

Toda essa bomba emocional passar despercebida ao responsável pela recuperação e proteção psicológica da menina me preocupou em diversos momentos, ainda mais com ele morando debaixo do mesmo teto que ela, mas a autora conseguiu justificar suas intenções no final. O meu único questionamento que ficou, embora não tenha prejudicado a finalização da história principal, é que a autora inclui ao longo do livro diversos personagens e não conseguiu dar a todos eles uma conclusão, deixando-os meio aleatórios/superficiais.

 

“Minha pele está quente, mas por dentro eu sinto frio, é difícil explicar. 
Li num livro uma vez que gente violenta tem a cabeça quente, 
enquanto psicopatas são frios de coração. Quente e frio. Cabeça e coração. 
Mas e se a gente sai de uma pessoa que é as duas coisas? O que acontece?”

Então para aqueles que não podem ver uma capa misteriosa, uma sinopse chamativa, uma trama que não te deixa dar uma pausa na leitura e um final surpreendente, “Menina Boa Menina Má” é uma excelente pedida para você descobrir até que ponto vai a influência e o condicionamento da mente humana.

Já adianto que não será uma leitura leve ou fácil, apesar de viciante. Os crimes relatados são com crianças e envolvem agressões físicas e abusos sexuais (não existem descrições completamente explícitas, mas vários relatos são feitos). É possível escolher ser bom ou ruim mesmo quando você viveu a vida toda com exemplos maus?

“A srta. Kemp não notou o gesto que a Phoebe fez pra mim quando saímos do vestiário.
 Um dedo atravessando a garganta. Os olhos grudados em mim. Morta. 
Eu. Morta.
Até parece.
Phoebe, querida.”
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Título: Menina Boa, Menina Má
Autora: Ali Land
Ano: 2018
Páginas: 376
Editora: Record
Gênero: Crime, Ficção, Suspense e Mistério
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