Sabe quando nos deparamos com uma pessoa “de lua” que nos surpreende mudando de humor repentinamente? Em momentos assim é comum alguém dizer: “Fulano” é Bipolar. Mas será que realmente sabemos de todas as dificuldades enfrentadas pelas pessoas que de fato são diagnosticadas com esse transtorno? Em Me Diga Quem Eu Sou o leitor encontrará um relato verídico escrito por uma mulher que abrirá momentos marcantes de sua vida e te fará enxergar a pessoa por traz de um emaranhado de sentimentos conflitantes.

“Sou bipolar. Fui diagnosticada quando tinha 21 anos. Ou seja, vivo entre dois mundos. De um lado a depressão; de outro, a mania, a euforia. Nunca sei para que lado estou indo até mergulhar num dos extremos.” Pág. 9

Antes de ler o livro eu não fazia ideia de que esse distúrbio psiquiátrico podia resultar em sintomas tão graves e complexos como depressão e episódios de obsessão. Não sabia que tipo de história encontraria e me vi diante de uma mente vulnerável e inquieta resultando em uma vida conturbada, marcada por altos e baixos. Compreendi ser esse um transtorno grave e que afeta não só o bipolar, mas também a família, amigos e pessoas que convivem e presenciam a manifestação dos sintomas.

Percebi rapidamente que Helena vivia entre o fantasioso e o real. Uma leitura, por exemplo, era capaz de provocar delírios e levá-la a agir impulsivamente e correr muitos riscos, baseada em uma realidade imaginária. Uma maneira bem perigosa de se viver, tanto que a autora relata ter sofrido agressões, assédios e por diversas vezes acabou nas mãos da polícia. Sua prisão, contudo acabava sendo a solitária dos hospitais psiquiátricos. A triste trajetória de surtar e acabar sendo internada se repete varias vezes.

Narrando em primeira pessoa ela nos conta de maneira detalhada a dura realidade de suas internações.  O desrespeito, o tratamento invasivo e às vezes violento. Conta do desespero naquele ambiente de loucura, da convivência com outros internos, das medicações e seus efeitos colaterais… Oscilação de humor, demência, insanidade, crises, surtos, delírios… Tudo isso faz parte do relato de Helena. É uma leitura que incomoda e ao mesmo tempo desperta curiosidade, empatia e admiração.

Tive a sensação de estar conhecendo muito intimamente a autora. Acho que todos irão se sentir assim após ler sobre trechos de sua infância, adolescência e vida adulta. Ela nos conta das viagens que fez, das amizades, dos estudos, da vida profissional… Menciona sua dificuldade para permanecer na realidade, lidando com seus transtornos em incansáveis tentativas de manter a sanidade e reassumir o controle da própria vida. Conhecemos também sua vontade de mudar o mundo, sua generosidade e envolvimento com questões sociais.

A autora me pareceu uma mulher bastante sensível.  Há momentos em que o texto tem “um q” de poesia, mas também há partes compostas por um texto mais pesado.  Houve situações em que ela era provocativa e acabava se expondo ao risco de ser violentada e isso me chocava.  É uma obra nacional e o fato de a autora mencionar cidades e lugares que eu conheço me aproximou ainda mais da história. Achei a capa perfeita, a imagem nublada me fez pensar na confusão vivida por Helena.

Admirei muito a persistência da personagem real, sua vontade e capacidade de recomeçar. Ela também escreve sobre a necessidade de se perdoar. Abre seu coração, seus sentimentos, suas dificuldades, sonhos e frustrações. Torci e ainda torço para que cada vez mais ela consiga se superar e encontrar maneiras de manter o equilíbrio. Em minha opinião ela é um exemplo de que podemos e devemos seguir em frente sempre. Dificuldades todos temos, mas elas não irão nos parar enquanto nossa vontade de vencê-las for maior.

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Essa matéria foi escrita por  Nathalia enquanto ainda era colunista do Coisas de Mineira 

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Título: Me diga quem eu sou
Subtitulo: Uma bipolar em busca da sanidade
Autora: Helena Gayer
Ano: 2017
Páginas: 120
Editora: Objetiva
Gênero: Biografia, Autobiografia, Memórias