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RESENHA | FLORES PARA ALGERNON – DANIEL KEYES

21 junho, 2019 por

FLORES PARA ALGERNON - DANIEL KEYES

Flores para Algernon é um livro clássico, nascido de um conto publicado em 1959 e transformado em um romance, já em 1966. Ganhador de prêmios e adaptado três vezes para filmes e uma vez para um drama japonês, apenas em 2018 o livro ganhou sua tradução para o português e foi lançado pela Editora Aleph.

Eu poderia escrever uma resenha imensa, com detalhes, spoilers e citações e mesmo assim, nada poderia preparar os leitores para o choque e o estado de arrebatação em que entramos ao ler o livro de Daniel Keyes. O que podemos presenciar nessas páginas é uma história comovente.

Embora no começo de Flores para Algernon possa ser até irritante tentar ler com os erros de grafia do personagem, rapidamente me afeiçoei a Charlie. Escrito na forma de diário e do ponto de vista do protagonista, o mergulho em sua mente é inevitável. E a profundidade que podemos extrair disso é enorme, delicada e, honestamente, cruel.

De fato, após o estranhamento inicial da leitura, passamos a um ponto de imersão na realidade de Charlie, uma pessoa com grande deficiência intelectual. E passamos a perceber como todos nós, enquanto sociedade, tratamos pessoas assim. O coração fica em pedaços quando vemos Charlie chamar de amigos as pessoas que zombam dele diariamente.

QUOTE FLORES PARA ALGERNON

Em contrapartida, Charlie é doce, amigável e honesto, o que nos aproxima mais do personagem de forma a enxergá-lo melhor. Sem o véu de sua falta de intelecto para nublar a paisagem. Facilmente percebemos, com essa leitura, o quanto podemos julgar alguém por fatores que fogem à responsabilidade da própria pessoa.

Tanto quanto é amável, o protagonista é também esforçado. Mais do que qualquer coisa, Charlie deseja ser inteligente. Desde muito pequeno acostumado a ouvir que precisava se esforçar, aprender e evoluir, ele vincula todos os seus problemas à deficiência. Frequentemente, repete que tudo será diferente quando for inteligente.

Não apenas esforçado, como também corajoso, ele opta por fazer a cirurgia proposta. O resultado é imprevisível, visto que é um experimento. Mas nesse ponto, já estamos envolvidos demais no livro e passamos a torcer por Charlie. Torcer para que a cirurgia funcione e ele possa ser a pessoa inteligente. Torcer para que ele passe a ser respeitado e tratado da forma correta, por seus “amigos”, empregadores e mesmo pelos médicos do experimento.

Sem dúvida, Flores para Algernon é completamente viciante. Depois que se pega o ritmo, o que mais queremos é saber mais, não apenas sobre o experimento, mas sobre a vida de Charlie. Quais suas próximas atitudes? Como sua mente pode se ampliar? Que nível de inteligência e conhecimento ele pode atingir?

A capacidade de gerar empatia que o autor consegue trazer é fascinante. Nos coloca em uma posição de grande reflexão sobre a sociedade, sobre nós mesmos e sobre nossos comportamentos enquanto seres humanos. Mesmo 50 anos depois, o tema ainda permanece muito atual e relevante.

Em sua nova persona, após a cirurgia, Charlie ainda é capaz de despertar essa empatia. Começamos a ver o mundo de sua nova perspectiva e, eventualmente, somos ultrapassados por ele em inteligência. Em meio às novas emoções e percepções do personagem, é fácil notar que a inteligência emocional nem sempre acompanha o progresso intelectual.

Apesar de o conhecimento ajudar Charlie a perceber melhor o mundo ao seu redor e mostrar-lhe a verdadeira face das pessoas com quem convivia, ao mesmo tempo, o conhecimento também abre uma porta de infelicidade em seu mundo. A incompreensão por parte dos outros, o isolamento e a solidão são dolorosos. Visto que as pessoas geralmente têm medo do que não compreendem, é assim que o dócil Charlie passa a ser visto: com temor.

Em suma, acompanhamos sua progressão através das páginas. Sua escrita se modifica, os erros ortográficos somem, dando lugar à sentenças bem estruturadas. Sua mente se modifica. Traumas do passado vêm à tona e nosso protagonista passa a lutar com algo completamente diferente da deficiência intelectual, um novo tipo de rejeição.

Seja como for, o romance de Daniel Keyes é uma das obras mais tocantes que já li e, sem dúvidas, me tirou completamente da minha zona de conforto. Apesar de muito fluida, a leitura não é leve. Não é fácil. Flores para Algernon É um livro denso, profundo e melancólico. Impossível terminar a leitura sem se sentir absolutamente devastado e sem ar.

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Título: Flores para Algernon
Data da primeira publicação: abril de 1959
Autor: Daniel Keyes
Número de páginas: 288
Gêneros: Conto, Ficção científica, Romance epistolar, Romance psicológico
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9 Comentários

  • Nicole Linhares
    junho 25, 2019

    Lembro que vi a moça da editora aleph falar deste livro no evento do clube do livro BH e sei que fiquei muito interessada por ser uma história envolvente, gosto deste suspense que o livro cria este cenário perturbador.

  • Fátima Cristina Amaral
    junho 25, 2019

    Esse livro é incrível, deu até vontade de reler. Quando Charlie começa a ser quem era antes, me batia uma tristeza a cada pagina, as coisas que tinha conquistado e aprendido se desfazendo, muito triste, chorei demais no último relatório, uma semana com o psicológico abalado.

  • Jaum
    junho 25, 2019

    Livros clássico readaptado sempre nos deixa com um pé atrás, por conta de mudanças e alguns acréscimos na história original. Mas a resenha me deixou bem convincente

  • Ana Carolina
    junho 25, 2019

    Ganhei esse livro em um dos encontros do Clube. Tá na listinha pra ler

  • Ana
    junho 25, 2019
  • Mary Cândido
    junho 25, 2019

    Muitas vezes queremos sempre mais do que temos. Acreditamos que só seremos felizes com a aceitação da sociedade. Isso não vai muito longe. Não existe somente na família ao lado. Esta atitude nos persegue desde a infância. Nos faz querer ser de acordo com o qie outro quer e deixamos de acreditar em nosso potencial.

  • Jéssica Cristina Fontoura Amaral
    junho 25, 2019

    Oii, adorei sua resenha e me serviu para fazer desejar ainda mais ler esse livro. Estou namorando ele há um tempinho, em alguns aspectos me lembrou de A Menina Submeresa de Caitlín R. Kiernan.

  • Camille Ferreira
    junho 25, 2019

    Gosto de livros com essa temática, que aborda pessoas que possuem ‘problemas” diante da sociedade, pois eu meio que sinto nessa categoria, entao esses livros sempre me dao forca, e outros pontos de vista para superar a cada dia meus proprios medos.

    Quero ler

  • Nicole Ferreira Soares
    junho 25, 2019

    É um livro que irá me tirar da zona de conforto, e será um tema novo para me aventurar irei ler com toda certeza.