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RESENHA | EM ALGUM LUGAR NAS ESTRELAS – CLARE VANDERPOOL

06 setembro, 2019 por

EM ALGUM LUGAR NAS ESTRELAS - CLARE VANDERPOOL

Em Algum Lugar nas Estrelas é um romance intenso da autora norte-americana Clare Vanderpool que mescla uma oportunidade de voltar à infância com a chance de relembrarmos como crescer é uma tarefa difícil e, às vezes, muito confusa. Foi publicado no Brasil em 2018 pela editora DarkSide. E, sendo DarkSide, sabemos que a edição vem recheada de perfeição, não é mesmo?

Esse é o segundo livro de Vanderpool, mas seu primeiro no Brasil. E ela fez tanto sucesso que a DarkSide publicou seu romance de estréia, também: Minha Vida Fora dos Trilhos, que eu pretendo ler assim que possível. Afinal, a escrita da Clare é super fluida e muito gostosa de se ler.

O título em inglês do livro é “Navigating Early” (Navegando Early) e, por mais que não pareça agora, esse título faz todo o sentido do mundo. O título em português é muito cativante e traz uma ideia misteriosa muito atrativa para o livro, também. Inclusive, eu não posso nem negar que foi o que me atraiu de cara.

“Às vezes, ele entra e ocupa uma carteira, mas sai assim que o professor fala algo de que ele discorda. É tão esquisito que ninguém faz nada sobre isso.” (pág.34)

Aliás, não só o título, mas a capa também é maravilhosa. Ela é dura, com alguns detalhes em verniz localizado e um ilustração encantadora (de verdade) que mescla água, céu, constelações e nuvens. O que eu mais acho bonito é que as cores são super equilibradas e toda a capa consegue ser lida e visualizada sem nenhuma perda de informação. A capa é delicada e tem um toque místico.

Por dentro, existem várias páginas pretas com desenhos brancos. A temática segue a capa: constelações, mapas do céu e bússolas. Essas páginas estão no começo e no fim do livro. O miolo é em papel Pólen e, sinceramente, eu acredito que esse é um dos melhores (se não o melhor) tipo de papel para miolo de livros, visto que ele não cansa a visão e facilita a leitura. Nas aberturas de capítulos temos algumas constelações também.

Ok! O livro é lindo mesmo, mas…. vamos à história? Em Algum Lugar nas Estrelas conta a história de dois garotos, Jack e Early (lembra do título que eu disse que faria sentido? Aguenta um pouquinho que você já vai juntar as peças!) e de Pi. Sim, você leu certo. Pi, o número infinito, 3,14 e etc. e tal. Bom, pelo menos, o que Early imagina que seja a história de Pi.

“Lembrei o que Early Auden havia dito. Ele ouvia Louis Armstrong às segundas, Frank Sinatra às quartas, Glenn Miller às sextas e Mozart aos domingos. A menos que chovesse. Se chove é sempre Billy Holiday.” (pág70)

O fato é que Jack acabou de perder sua mãe. E depois disso, ele precisa se mudar do Kansas para estudar em uma nova escola: um internato no Maine. E, previsivelmente, ele não está nadinha empolgado para isso. Não só porque sente muita falta da mãe e da rotina que eles tinham juntos, mas também porque, agora, ele só tem o pai. E Jack sente que o pai não se preocupa muito com ele e sempre está ausente (ele é capitão da Marinha e a história se passa no fim da Segunda Guerra Mundial).

Mas Jack também está tendo um pouco de dificuldade de fazer novos amigos no colégio militar. Não é bem porque ele não quer, é só que ele não sabe muito bem como lidar com tudo o que está acontecendo. Sem dar muitos spoilers do livro, existe muita coisa que o garoto ainda precisa resolver dentro de si. E sabemos bem como é difícil ter uma conclusão em assuntos tão delicados quanto a perda de alguém que amamos.

Já Early é um menino que todos diriam que é um pouco excêntrico porque ele não parece ter amigos, vive isolado, só aparece às vezes nas aulas e tem alguns comportamentos… peculiares. Ele perdeu o irmão na guerra e, depois disso, dizem que ficou ainda mais estranho. O que não é dito no livro, porém, é facilmente perceptível, é que Early é autista. À época, essa terminologia não existia e possivelmente é por isso que não foi incluída no livro.

Aos poucos, Early e Jack se aproximam. Early é capaz de ajudar Jack em uma tarefa árdua: remar. Acontece que Jack sabe basicamente nada sobre isso e precisa aprender pois existe uma regata na escola. E ele é realmente ruim em remar. Por isso, Early o ajuda e o treina. E isso deixa os dois mais próximos e uma amizade muito sincera começa a se desenvolver ali.

“Ele diz que quando vê os números que começam com 3,14, só enxerga um monte de algarismos que não significam nada mais que números. Isso me deixou triste por ele. Para mim, eles são azul e roxo, areia e mar, áspero e liso, barulho e sussurro, tudo ao mesmo tempo.” (pág. 125).

EM ALGUM LUGAR NAS ESTRELAS - CLARE VANDERPOOL

Nesse meio tempo, é claro, Early começa a contar a história de Pi. Por vezes, essa é a única forma de comunicação que Jack consegue extrair dele. E, acreditem, por mais que seja, teoricamente, a história de um número, é uma história muito incrível. Às vezes, pensei: ah, mas lá vem essa história de novo. Apenas para, alguns minutos depois, já estar completamente envolvida de novo.

Desse modo, convivendo muito proximamente com Early, Jack vai aprendendo a lidar com ele. Com seus dias certos para ouvir certos discos. Os dias de silêncio em que ele simplesmente não queria ouvir música. E, sempre que chovia, era Billie Holiday que embalava o dia, sua voz melódica ressoando no pequeno quarto de Early. Ele também descobre que Early acha que seu irmão não morreu na guerra e está apenas perdido.

Entretanto, o ponto mais importante da história é no feriado de natal, quando ficam apenas os dois na escola. É neste feriado que Early decide procurar o irmão. Ele tem certeza de que ele precisa encontrá-lo e levá-lo de volta para casa. Seu irmão também estudou ali e era muito popular. Então, Jack o acompanha em uma jornada que parece um pouco sem pé nem cabeça pela floresta próxima da escola.

“Senti uma inquietação crescer dentro de mim. Não queria ficar sozinho com a tristeza, a chuva e os fantasmas do passado. Sabia que seguiria Early onde quer que ele fosse. Ele pode se perder e me levar junto, mas é melhor do que ficar perdido e sozinho. Era o que eu pensava, pelo menos.” (pág. 104)

Decerto, é uma aventura arriscada, perigosa e que faz os meninos viverem coisas inimagináveis. A sensação que tive lendo esse livro foi a de que eu não sabia se estava lendo algo que realmente aconteceu (no livro, claro), ou se era apenas delírio de um deles, que logo acordaria ou voltaria à realidade. Mas acontece, para eles.

Entre percalços, brigas, preocupação um com o outro e o medo de tudo ao redor, a amizade dos dois cresce e se torna ainda mais sólida. Também conseguimos ter um vislumbre mais profundo do mundo e da mente de Early, de como ele funciona e pensa. E temos uma conclusão para a sua certeza de que o irmão não morreu.

Claro que eu não vou contar, mas posso dizer que o livro é emocionante e muito, muito tocante. É uma obra sensacional e raramente vi algo semelhante. Clare Vanderpool escreve com uma sensibilidade enorme e é capaz de tocar o coração de seus leitores de uma forma suave. Em Algum Lugar nas Estrelas é um livro sobre luto, crescimento, aceitação. É um livro lindo, lindamente escrito.

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Em Algum Lugar nas Estrelas
Título: Em Algum Lugar nas Estrelas
Autora: Clare Vanderpool
Ano: 2016 / Páginas: 288
Idioma: português
Editora: DarkSide Books
Gêneros: Fantasia, Aventura, Drama, Infantojuvenil
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