O Dicionário Agatha Christie de Venenos, da autora Kathryn Harkup, é o novo lançamento da Editora Darkside Books, um verdadeiro presente para os fãs da Rainha do crime – como Agatha Christie é carinhosamente conhecida.
Kathryn Harkup é química, com mestrado e doutorado na área, mas descobriu que também gostava de escrever, e voltou-se para os crimes das estórias de Agatha Christie, uma vez que o envenenamento era uma das principais formas encontradas pela autora para matar seus personagens. Assim nasceu o Dicionário Agatha Christie de Venenos, primeiro livro e que foi selecionado para os prêmios Mystery Readers International Macavity e o BMA Book (Medical Books Awards).

Logo na introdução, Kathryn aponta características que podem ser responsáveis pela popularidade das estórias de Agatha Christie, seja pela simplicidade das mesmas, ainda que criasse enigmas aparentemente insolúveis, seja pelos dois dos detetives fictícios mais conhecidos – Hecule Poirot e Miss Marple.

Para além de ser uma contadora de estórias fantástica, Agatha demonstrava um conhecimento químico dos venenos que utilizava em seus personagens que até hoje impressiona os leitores. Kathryn nos revela que Agatha foi voluntária em um hospital durante a primeira guerra mundial, e que acabou ocupando uma vaga na farmácia, para a qual precisou de um treinamento específico – naquela época, as receitas médicas eram preparadas à mão, portanto a necessidade de conhecimentos práticos e teóricos de química e farmácia.

ICIONÁRIO AGATHA CHRISTIE DE VENENOS – KATHRYN HARKUP

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Durante seu tempo vago, e cercada por venenos, foi um pulo até pensar na trama para seu primeiro livro, O Misterioso Caso de Styles. Daí em diante, se tornou uma escritora prolífica, nos brindando com uma série de estórias recheadas de venenos – ela não era muito afeita a utilização de armas, ainda que o tenha feito.

Christie criou muitos cadáveres nas páginas de seus livros, mas as reações a eles tendem a ser a curiosidade e um Sorriso diante da perspectiva de pistas, subterfúgios e deduções brilhantes.”

Além do conhecimento químico, Agatha colecionava casos de crimes reais, e utilizou muitos deles para suas estórias. Sendo assim, Kathryn escolheu 14 dos venenos usados por Agatha, descrevendo os mesmos, sua origem, forma de ação, se há antídoto, casos reais que poderiam ter inspirado ou ser inspiração, além da aplicação nas estórias de Agatha – em apenas dois deles há spoiler, mas a autora explica antes e justifica a necessidade de apontar a forma de aplicação para melhor entendimento do leitor.

Mas, além da diversão pura e simples que podemos encontrar nas história de Agatha, seu profundo conhecimento trouxe mais do que aplausos de seus leitores. O Misterioso caso de Styles, por exemplo, foi resenhado pelo Phamaceutical Journal, que elogia a precisão científica da autora – e foi seu primeiro livro!

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Outra menção importante em Dicionário Agatha Christie de Venenos é ao uso do Tálio. Quando foi publicado O cavalo amarelo, em 1961, não havia tratamento para esse tipo de envenenamento. Mas Agatha descreveu os sintomas de forma tão exata que acabou conscientizando as pessoas sobre esse elemento mortal, e muitos estudos posteriores pesquisaram um antídoto. Inclusive há menção a dois casos em que envolvem envenenamento por Tálio e leitoras de Agatha – as duas pessoas perceberam semelhança nos sintomas em seus pacientes e os descritos em O cavalo amarelo, e assim possibilitar a recuperação dos pacientes, tendo recebido menção nos jornais à época.

“Os médicos que trataram (…) publicaram um artigo no British Journal of Hospital Medicine (…) os autores reconheceram sua dívida para com a falecida Agatha Christie, pelas descrições clínicas excelentes e atentas, e para com a enfermeira Maitland por nos manter atualizados quanto à literatura.”

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Também achei muito interessante que a autora pontua a forma que alguns venenos eram usados no dia a dia – afinal, a história da medicina é recheada de erros e acertos, e muitos dos venenos mencionados eram muito fáceis de serem encontrados e comercializados, e constavam da fórmula de medicamentos, cosméticos, produtos de fotografia, fertilizantes, ou seja, era fácil a vida de um envenenador até meados do século XX.

Além disso, alguns tem origem em plantas que estão ao nosso redor. Um exemplo interessante é o cianureto – que aparece em Um brinde de Cianureto, Os quatro grandes, O gerânio azul, E não sobrou nenhum, entre outros, é encontrado nas sementes de maçã, pêssego, damasco, folhas de louro e na mandioca brava – daí ter de deixar a mandioca de molho para eliminar o cianureto.

Eu leio as estórias de Agatha desde que pus os pés na biblioteca da escola, e fiquei encantada com esse livro. Dicionário Agatha Christie de Venenos é um livro para os fãs da autora, mas também para aqueles curiosos por química, botânica, medicina, estórias envolvendo venenos, já que é bem completo. Também traz, ao final, uma tabela com os livros (títulos no original e no Brasil), métodos utilizados para o(s) assassinato(s), além de um apêndice com as estruturas químicas citadas, bibliografia selecionada, e ilustrações botânicas ao longo do livro.

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Dicionário Agatha Christie de Venenos é uma exaltação do uso correto da ciência, do cuidado de um autor com sua obra, da genialidade na construção de estórias… Além de todo o capricho do texto, a autora traz uma linguagem de fácil entendimento, e a edição está um primor! Ler esse livro só me tornou mais fã de Agatha Christie!

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Título: Dicionário Agatha Christie de Venenos
Autora: Kathryn Harkup
Tradução: Camila Fernandes
Ano: 2020
Páginas: 288
Editora: Darkside Books
Gênero: Não Ficção
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