Precisamos Falar Sobre o Kevin, da autora Lionel Shriver, foi um livro publicado no ano de 2003. A história trata de um massacre acontecido em uma escola, porém ao contrário de Columbine, esse caso é ficcional, surpreendentemente. Esse romance foi vencedor do Baileys Women’s Prize for Fiction (antigo Orange Prize for Fiction) em 2005 – um dos mais prestigiados prêmios literários do Reino Unido, concedido para a melhor obra de ficção publicada no ano anterior. O interessante é que esse prêmio é concedido para obras escritas por autoras, salvo do idioma inglês, independente de sua nacionalidade.

“Na verdade, achar que somos excepcionais é talvez a regra geral.”

No Brasil, a editora Intrínseca nos trouxe uma edição em 2007 com a capa preferida pelos fãs da obra, e em 2012 uma capa inspirada na adaptação cinematográfica estrelada por Tilda Swinton e Ezra Miller nos papéis principais. Ressaltando aqui minha total admiração e reverência por ambos os atores, que viveram atuações dignas de serem premiadas pelo Oscar. Adaptação essa que revive quase que fielmente a obra de Shriver em sua perfeição. Umas das adaptações mais fiéis, a meu ver. Pouca liberdade poética foi tomada aqui, pois o livro em si já nos paralisa em tempo e espaço, e tudo que queremos é ficar em um canto, desolados, por um tempo!

LIVRO PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN - LIONEL SHRIVER

Em Precisamos Falar Sobre o Kevin, Shriver buscou “desenhar” para compreensão de seu leitor, como seria o ambiente de formação de um sociopata. Iremos conhecer Eva Khatchadourian, uma mulher muito viva e dona de si. Que ama viajar, conhecer, ousar. Uma mulher independente financeiramente e livre. Alguém que no passado viveu muito bem e da forma que quis. Mas, logo teremos noção que seus dias atuais não são nada fáceis, uma vez que ela se tornou uma espécie de pária para as demais pessoas a seu redor. O motivo? Chegaremos lá – ou não! Vá correndo ler esse livro.

Essa obra é escrita de forma epistolar. Eva (Uma referência à primeira mulher? Talvez!) escreve cartas direcionadas a seu marido, Franklin. Durante muitos relatos dela, primeiramente podemos perceber que algo drástico e duro aconteceu na vida desse casal. As cartas são sempre muito tocantes. “Hoje” temos noção de que Eva sempre escolheu o amor e o sexo a maternidade. É como se fosse uma forma de dizer que seu filho veio a ser seu “castigo”.

Eva: Você nunca quis ter alguém para brincar? Você pode gostar.

Kevin: E se eu não gostar?

Eva: vai ter que se acostumar.

Kevin: Só porque você se acostuma com algo não quer dizer que você gosta. Você se acostumou comigo.”

As cartas nos situam em como esse casal se uniu, e em como foi ter uma criança na vida deles a partir daquele momento. Resumindo, como foi receber Kevin, o filho. Você, após essa leitura (ou mesmo após assistir esse longa) dificilmente irá esquecer as implicações de se ter uma criança, de se pôr uma vida no mundo, de ter (ou não) a responsabilidade por tudo que seu filho faça acontecer. Inegavelmente!

Teremos a compreensão da vida que Eva e Franklin levam juntos anteriormente ao lermos as cartas que Eva escreve a ele. Entenderemos melhor como começaram os conflitos a respeito da criação do garoto. Eva e Franklin não aparentam quase que em momento algum uma paridade na forma de educar Kevin. Eles não são uniformes nisso. Não são um time! E desde cedo o garoto percebe o tipo de tratamento diferenciado entre um e outro. Kevin se dá conta como e com quem ele tem mais “folga” e liberdade. E, o que mais aparentou para mim, é que sendo Eva o contraponto dessa relação, Kevin a pune. Em todo tempo. A qualquer chance. Desde sempre.

Damo-nos conta de que uma tragédia aconteceu no futuro dessa família, mas não sabemos o que, nem a proporção disso. Enfim, é através dessas cartas que vemos Eva tentando se reerguer, se recuperar. Entretanto, ela busca pontuar o que acredita ter sido falha sua na criação de Kevin. Ela não deixa Franklin, por no momento estar ausente, isento de suas culpas. Eva bem sabe onde o marido errou também. E Kevin orbitou em torno dessa disparidade parental.

“Eu era feliz antes de você.”

Podemos perceber (melhor através do filme) como Kevin é uma alma livre, e que tem muito de Eva nele. Kevin é muito mais parecido com Eva do que com Franklin, que parece ser uma pessoa totalmente alienada da realidade que acontece dentro de sua casa. Ele não conhece seu filho de verdade. Ele não enxerga os vieses que Eva se depara a todo o momento. Pois Kevin é mau, é vingativo, é provocativo, é irônico… E não pensem que estou falando de um Kevin adolescente. Estou dizendo isso de uma criança de 3 anos, 5 anos, 8 anos! Podemos enxergar claramente quem Kevin é. A verdade, é que nessa história, Franklin era o cego – e condescendente –, o tempo todo.

Há uma época, eu realizei algumas palestras a respeito de Precisamos Falar Sobre o Kevin para alunos de Psicologia. Durante minhas leituras e pesquisas eu acreditei e defendi que Eva poderia sofrer de Normopatia. Seria alguém que aparenta certa “normalidade”, mas apesar disso, esconde uma patologia. Ao longo dos envios de cartas, percebemos que Eva pode ter desenvolvido alguns processos defensivos, buscando uma chance de não avançar em desordens psíquicas mais severas. Uma forma de, todavia, se privar, de se proteger, uma vez que é tão estigmatizada na sociedade atual onde vive.

Eu me pergunto se esse livro é sobre Eva, ou se é sobre Kevin, de fato. Pois em vários momentos podemos perceber que Eva tem uma característica passiva, com ares de ausência. Refiro-me no tempo pós união a Franklin. O que é um enorme e visível contraste da mulher que conhecemos no passado. Além disso, hoje Eva apanha e não revida. É agredida de formas diferentes, e se sente conformada por recebe esse tratamento. Uma mulher quebrada, destroçada… E por quê? O que aconteceu na sua vida foi exclusivamente sua culpa? Ela tinha ausência de afeto por Kevin. E Kevin demonstrava odiar sua mãe desde sempre.

“… parte dela reconhece no filho muito mais seu objeto de hostilidade do que de amor, e como um espelho, é isso que Kevin devolverá à mãe.”

Eu poderia discorrer sobre esse livro/filme eternamente, a saber… Ele é muito rico em conceitos, em construções psicológicas, em ensinamentos e em percepções. Certamente vejo-me em uma espécie de “laboratório” a respeito do ato de ser mãe, de criar filhos, e de identificar distúrbios nos relacionamentos. Não poderia Kevin estar em busca de obter atenção, afeto e carinho de forma negativa? – punição. Será que ele está, contudo, implorando por afeto?

Finalizando, eu acredito e defendo que as atitudes drásticas que Kevin toma e que muda o rumo da vida de toda sua família, são atos realizados a fim de provocar algum sentimento, seja esse qual for, em sua mãe! Kevin é um garoto antissocial (psicopata) ou um ser perdidamente necessitado de uma mãe? O garoto ia crescendo e se tornando uma bomba. Bastávamo-nos esperar o momento que aconteceria a explosão. Ao fim, você decide se sente amor ou ódio por Kevin. E isso era tudo que ele esperava verdadeiramente de seus pais: Enxerguem-me. Vocês PRECISAM falar sobre o Kevin.

“Quando a gente monta um show, não atira na plateia.”

“Para assegurar-se que o amor existe, o sujeito pode necessitar saber que o ódio também tem sua presença.” ~ baseado em D. Winnicott

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Título: Precisamos Falar Sobre o Kevin
Autora: Lionel Shriver
Ano: 2007
Páginas: 464
Gêneros: Ficção, Crime, Literatura Estrangeira
Nota: 5/5
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