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PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN – LIONEL SHRIVER | RESENHA

06 março, 2020 por

PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN - LIONEL SHRIVER

Precisamos Falar Sobre o Kevin, da autora Lionel Shriver, foi um livro publicado no ano de 2003. A história trata de um massacre acontecido em uma escola, porém ao contrário de Columbine, esse caso é ficcional, surpreendentemente. Esse romance foi vencedor do Baileys Women’s Prize for Fiction (antigo Orange Prize for Fiction) em 2005 – um dos mais prestigiados prêmios literários do Reino Unido, concedido para a melhor obra de ficção publicada no ano anterior. O interessante é que esse prêmio é concedido para obras escritas por autoras, salvo do idioma inglês, independente de sua nacionalidade.

“Na verdade, achar que somos excepcionais é talvez a regra geral.”

No Brasil, a editora Intrínseca nos trouxe uma edição em 2007 com a capa preferida pelos fãs da obra, e em 2012 uma capa inspirada na adaptação cinematográfica estrelada por Tilda Swinton e Ezra Miller nos papéis principais. Ressaltando aqui minha total admiração e reverência por ambos os atores, que viveram atuações dignas de serem premiadas pelo Oscar. Adaptação essa que revive quase que fielmente a obra de Shriver em sua perfeição. Umas das adaptações mais fiéis, a meu ver. Pouca liberdade poética foi tomada aqui, pois o livro em si já nos paralisa em tempo e espaço, e tudo que queremos é ficar em um canto, desolados, por um tempo!

LIVRO PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN - LIONEL SHRIVER

Em Precisamos Falar Sobre o Kevin, Shriver buscou “desenhar” para compreensão de seu leitor, como seria o ambiente de formação de um sociopata. Iremos conhecer Eva Khatchadourian, uma mulher muito viva e dona de si. Que ama viajar, conhecer, ousar. Uma mulher independente financeiramente e livre. Alguém que no passado viveu muito bem e da forma que quis. Mas, logo teremos noção que seus dias atuais não são nada fáceis, uma vez que ela se tornou uma espécie de pária para as demais pessoas a seu redor. O motivo? Chegaremos lá – ou não! Vá correndo ler esse livro.

Essa obra é escrita de forma epistolar. Eva (Uma referência à primeira mulher? Talvez!) escreve cartas direcionadas a seu marido, Franklin. Durante muitos relatos dela, primeiramente podemos perceber que algo drástico e duro aconteceu na vida desse casal. As cartas são sempre muito tocantes. “Hoje” temos noção de que Eva sempre escolheu o amor e o sexo a maternidade. É como se fosse uma forma de dizer que seu filho veio a ser seu “castigo”.

Eva: Você nunca quis ter alguém para brincar? Você pode gostar.

Kevin: E se eu não gostar?

Eva: vai ter que se acostumar.

Kevin: Só porque você se acostuma com algo não quer dizer que você gosta. Você se acostumou comigo.”

As cartas nos situam em como esse casal se uniu, e em como foi ter uma criança na vida deles a partir daquele momento. Resumindo, como foi receber Kevin, o filho. Você, após essa leitura (ou mesmo após assistir esse longa) dificilmente irá esquecer as implicações de se ter uma criança, de se pôr uma vida no mundo, de ter (ou não) a responsabilidade por tudo que seu filho faça acontecer. Inegavelmente!

Teremos a compreensão da vida que Eva e Franklin levam juntos anteriormente ao lermos as cartas que Eva escreve a ele. Entenderemos melhor como começaram os conflitos a respeito da criação do garoto. Eva e Franklin não aparentam quase que em momento algum uma paridade na forma de educar Kevin. Eles não são uniformes nisso. Não são um time! E desde cedo o garoto percebe o tipo de tratamento diferenciado entre um e outro. Kevin se dá conta como e com quem ele tem mais “folga” e liberdade. E, o que mais aparentou para mim, é que sendo Eva o contraponto dessa relação, Kevin a pune. Em todo tempo. A qualquer chance. Desde sempre.

Damo-nos conta de que uma tragédia aconteceu no futuro dessa família, mas não sabemos o que, nem a proporção disso. Enfim, é através dessas cartas que vemos Eva tentando se reerguer, se recuperar. Entretanto, ela busca pontuar o que acredita ter sido falha sua na criação de Kevin. Ela não deixa Franklin, por no momento estar ausente, isento de suas culpas. Eva bem sabe onde o marido errou também. E Kevin orbitou em torno dessa disparidade parental.

“Eu era feliz antes de você.”

Podemos perceber (melhor através do filme) como Kevin é uma alma livre, e que tem muito de Eva nele. Kevin é muito mais parecido com Eva do que com Franklin, que parece ser uma pessoa totalmente alienada da realidade que acontece dentro de sua casa. Ele não conhece seu filho de verdade. Ele não enxerga os vieses que Eva se depara a todo o momento. Pois Kevin é mau, é vingativo, é provocativo, é irônico… E não pensem que estou falando de um Kevin adolescente. Estou dizendo isso de uma criança de 3 anos, 5 anos, 8 anos! Podemos enxergar claramente quem Kevin é. A verdade, é que nessa história, Franklin era o cego – e condescendente –, o tempo todo.

Há uma época, eu realizei algumas palestras a respeito de Precisamos Falar Sobre o Kevin para alunos de Psicologia. Durante minhas leituras e pesquisas eu acreditei e defendi que Eva poderia sofrer de Normopatia. Seria alguém que aparenta certa “normalidade”, mas apesar disso, esconde uma patologia. Ao longo dos envios de cartas, percebemos que Eva pode ter desenvolvido alguns processos defensivos, buscando uma chance de não avançar em desordens psíquicas mais severas. Uma forma de, todavia, se privar, de se proteger, uma vez que é tão estigmatizada na sociedade atual onde vive.

Eu me pergunto se esse livro é sobre Eva, ou se é sobre Kevin, de fato. Pois em vários momentos podemos perceber que Eva tem uma característica passiva, com ares de ausência. Refiro-me no tempo pós união a Franklin. O que é um enorme e visível contraste da mulher que conhecemos no passado. Além disso, hoje Eva apanha e não revida. É agredida de formas diferentes, e se sente conformada por recebe esse tratamento. Uma mulher quebrada, destroçada… E por quê? O que aconteceu na sua vida foi exclusivamente sua culpa? Ela tinha ausência de afeto por Kevin. E Kevin demonstrava odiar sua mãe desde sempre.

“… parte dela reconhece no filho muito mais seu objeto de hostilidade do que de amor, e como um espelho, é isso que Kevin devolverá à mãe.”

Eu poderia discorrer sobre esse livro/filme eternamente, a saber… Ele é muito rico em conceitos, em construções psicológicas, em ensinamentos e em percepções. Certamente vejo-me em uma espécie de “laboratório” a respeito do ato de ser mãe, de criar filhos, e de identificar distúrbios nos relacionamentos. Não poderia Kevin estar em busca de obter atenção, afeto e carinho de forma negativa? – punição. Será que ele está, contudo, implorando por afeto?

Finalizando, eu acredito e defendo que as atitudes drásticas que Kevin toma e que muda o rumo da vida de toda sua família, são atos realizados a fim de provocar algum sentimento, seja esse qual for, em sua mãe! Kevin é um garoto antissocial (psicopata) ou um ser perdidamente necessitado de uma mãe? O garoto ia crescendo e se tornando uma bomba. Bastávamo-nos esperar o momento que aconteceria a explosão. Ao fim, você decide se sente amor ou ódio por Kevin. E isso era tudo que ele esperava verdadeiramente de seus pais: Enxerguem-me. Vocês PRECISAM falar sobre o Kevin.

“Quando a gente monta um show, não atira na plateia.”

“Para assegurar-se que o amor existe, o sujeito pode necessitar saber que o ódio também tem sua presença.” ~ baseado em D. Winnicott

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Título: Precisamos Falar Sobre o Kevin
Autora: Lionel Shriver
Ano: 2007
Páginas: 464
Gêneros: Ficção, Crime, Literatura Estrangeira
Nota: 5/5
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Onde Comprar: Amazon

 

 

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28 Comentários

  • RENATA CRISTINA SILVA AVILA
    março 16, 2020

    Oi Carol Amei mesmo seu texto

    Amo livros que nos deixam questionamentos e pelo que li na sua resenha esse é um desses casos. To bem chocada com tudo que li. Me tocou demais

    • Carol Nery
      Carol Nery
      março 16, 2020

      É. Realmente esse livro mexe com o psicológico de qualquer um!!!

  • Victoria
    março 16, 2020

    Caramba, Carol, eu lembro de quando vi o filme e fiquei de boca aberta, chocada, por muitos e muitos minutos. Ele é extremamente forte, né? Mas não li o livro ainda… Fiquei feliz de saber que a adaptação foi bem fiel, porque é uma história tão impactante, tão bizarra. Apesar de que seria interessante se o livro tivesse informações a mais, né? Enfim, adorei a resenha e adorei as fotos. Essa capa me deixa toda arrepiada de nervoso.

    • Carol Nery
      Carol Nery
      março 16, 2020

      Vic, eu acho o filme mais dinâmico, porque o livro por ser contado através de cartas, quebra um pouco aquele ritmo bom do filme. Algumas pessoas estranham. Outras amam! Eu sou apaixonada no livro, na história, e em como ela me enriqueceu como pessoa. Beijão

  • Erika Monteiro
    março 16, 2020

    Oi, tudo bem? Acompanhei algumas resenhas sobre o livro e me chamou bastante atenção como as opiniões são divergentes. Há quem concorde com algumas atitudes já outros condenam. Meu namorado defende que nada justifica o fato de uma pessoa ser mal caráter. Temos poder de escolha isso nos permite optar pelo certo ou pelo errado independente do lugar de onde viemos. Confesso que antes o considerava meio radical por pensar dessa forma, mas hoje mais madura quase que concordo 100% com ele. Não podemos ser reacionários, precisamos ser ativos. Não deixar que o mundo externo determine quem podemos ser. Sempre temos escolha de fazer o que é certo ou errado. Mas muitos tendem a se posicionar como vítimas. O que é uma pena. Um abraço, Érika =^.^=

    • Carol Nery
      Carol Nery
      março 16, 2020

      Hey, Erika. Muito interessante o ponto de vista do seu namorado. E como você também já tá quase tendendo a acreditar 100% da mesma forma. Eu, como psicóloga, tenho umas considerações diferentes. Mas, acredito um pouco no que vocês defendem. Obrigada por opinião tão bem embasada. Beijão

  • Leticia Rodrigues
    março 15, 2020

    lembro que a muitos anos atrás eu inicie o livro mas não consegui ir em frente pela sensação de mal estar que ele passava, eu consegui assistir o filme mesmo com o incomodo mas o livro não funcionou e até hoje quero voltar e tentar de novo mas ainda não achei abertura pra tentar.

    • Carol Nery
      Carol Nery
      março 16, 2020

      Eu li ele há vários anos. Eu tinha me formado há pouco em psicologia. E por isso acho que levei melhorzinho um pouco. Mas, realmente é um livro muito forte, muito pesado. A temática destrói a gente em pedacinhos!

  • Garoto de Outro Planeta
    março 15, 2020

    Nossa, que pesado esse livro/filme. Confesso que tenho um pouco de receio porque essas obras costumam ser um pouco sensacionalistas, mas fico curioso ao ver que o filme teve bastante aclamação. Acho que vou dar uma conferida. Estudo psicologia e gosto de estudar essas coisas.

    Obrigado pela dica 😉

    • Carol Nery
      Carol Nery
      março 16, 2020

      Psicologia é vida! A área que mais gosto dentro dos nossos estudos, é saúde mental, e principalmente a mente dos psicopatas. Esse filme/livro me ajudou a ter um outro olhar sobre o desenvolvimento de uma criança que pode ter nascido “quebrada”, ou foi construção do meio?

  • Nayara Borges
    março 15, 2020

    Eu não conhecia o livro. Parece ter uma carga emotiva bem grande, né? Sempre delicado falar sobre psicopatas e etc, eu li pouquíssimas coisas do tipo, mas gosto muito. Apesar da leitura ser difícil, é interessante conhecer um pouco sobre a cabeça de pessoas assim. Dica anotada!

    • Carol Nery
      Carol Nery
      março 16, 2020

      Legal, Nayara! Tomara que seja uma leitura instrutiva. É realmente algo que mexe com a gente.

  • MAISA GONCALVES DE CARVALHO
    março 15, 2020

    Carol, que livro incrível! Enquanto mãe, acabo me identificando com alguns conflitos que Eva parece passar. Fiquei muito curiosa, mas quero ler o livro antes do filme! Tenho certeza que depois da sua resenha estarei mais preparada para essa leitura!

    • Carol Nery
      Carol Nery
      março 16, 2020

      Maisa querida, está na mão!!! Só avisar que te empresto. Aliás, quem sabe eu não encaixe ele como nosso desafio, hein hein?? hahahaha

  • Debora Sapphire
    março 15, 2020

    Nossa, eu fiquei realmente intrigada por esse livro que trouxe um enredo sensacional como este. Essa história ficcional, que trata de um massacre acontecido em uma escola, é uma grande novidade para mim. Gostei que na sua resenha além de conter seu ponto de vista, está muito bem apresentado os pontos principais da obra. Pretendo me aventurar nesse tipo de leitura ainda, acho que seria ótimo e bem interessante.

    • Carol Nery
      Carol Nery
      março 17, 2020

      Hey, Debora. Obrigada pelo comentário. Fico feliz que minha resenha tenha despertado em ti essa vontade de conhecer mais sobre a obra como um todo. Grande abraço.

  • Maria Valéria
    março 14, 2020

    Desde que vi o filme fiquei louca pra ler a obra. Realmente, os atores dao um show de interpretação. Nossa, essa quote ‘antes de você eu era feliz,’ certamente seria algo pra me definir caso eu engravidasse e fosse mãe. Cruz credo. Só a ideia de ser mãe me dá asco…

    Parabéns pelo texto. Küss

    • Carol Nery
      Carol Nery
      março 17, 2020

      Eu sou mãe, e morri de rir com seu comentário!!! hahahaha Mas, eu sei que tem gente que nasceu pra ser mãe, outras que escolhem, umas não querem de jeito nenhum e tem também aquelas que a criança é que escolhe. hehehehhee
      Abraços

  • Lilian de Souza Farias
    março 13, 2020

    Eu não li o livro e nem assisti ao filme, infelizmente, mas sempre tive vontade, só nunca priorizei porque tenho uma lista grande e cara de livros, sempre fico esperando pegar um promoção dele, mas ainda não passou por mim… Como professora, vi muitos jovens e crianças querendo ser enxergados pelos pais, fazendo até coisas absurdas aos olhos de uma adulto mais desatento, mas cheia de sentindo para quem vive a realidade de ser esquecido por aqueles que deveriam dar atenção…

    • Carol Nery
      Carol Nery
      março 17, 2020

      Lilian, que ótimo ponto você abordou. Imagino que deve ver e conhecer uma realidade bem triste com alguns dos seus alunos. Obrigada pelo comentário que enriqueceu mais um pouco meus conhecimentos.
      Abraços

  • Yasmine Evaristo
    março 11, 2020

    Sem sombra de dúvidas esse é um dos melhores livros que já li e também um dos maia duros. Ao longo da leitura fui me sentindo estraçalhada por toda a relação de Eva com Kevin – e com o marido também. Levei seis meses, entre idas e vindas, para concluir a leitura, de tanto que me esgotei. Gostaria de assistir uma aula sua sobre a obra, pois sempre li o livro pelo viés social dos problemas enfrentados por uma mulher ao constituir uma família dentro do padrão estabelecido e também observando os dilemas da maternidade compulsória. Enfim, também poderia passar horas dialogando sobre esse livro. Abraços.

    • Carol Nery
      Carol Nery
      março 17, 2020

      Adorei saber que você também divagaria horas a respeito dessa história… É tão bom encontrar pessoas que entendem, ou que gostem de algo que falou tanto com você!! Essa história é uma das minhas preferidas no quesito “o que foi que deu errado?”.
      Obrigada pelo comentário. Abraços

  • Mary Soeiro
    março 10, 2020

    Não sei se eu um estilo de livro que particularmente leria.
    Mas pra quem gosta desse estilo.
    Beijos

    http://www.byglamour.com

    • Carol Nery
      Carol Nery
      março 17, 2020

      Verdade. Tem que gostar do gênero e estilo.
      Abraços

  • Marilene
    março 09, 2020

    Nooooossa, que história!!! Angustiante, eletrizante e atraente,sim, a história nos prende,o Kevin , era apenas um bebê! Fiquei na pensar: ” mais atenção, amor, carinho,salvaria o menino da natureza ruim?” Uma ficção bem realista,saber que por este mundão, muitos Kevins por aí, não? Após leitura, assistir ao filme que foi bastante fiel ao livro.Carol!

    • Carol Nery
      Carol Nery
      março 17, 2020

      Verdade. Eu infelizmente vi o filme primeiro, pois conheço essa história desde o lançamento. Não sei porque não trombei com essa obra antes. Mas, mesmo tendo lido há algum tempo, a história parece viva. Não esqueço, não deixo de gostar e de me interessar.
      Beijão, Mari.

  • Regiane
    março 08, 2020

    Esse livro é sensacional! Não dá vontade de parar de ler. Desde de pequeno percebemos que Kevin é um capeta em forma de guri. Foi muito bem escrito. É agoniante acompanhar a evolução dele. O filme é ótimo, Ezra e Tilda perfeitos.

    • Carol Nery
      Carol Nery
      março 17, 2020

      A gente nem gosta dessas figuras, né migs???
      Saudades dos nossos grupos de apoio.
      Beijão e obrigada pelo apoio de sempre