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PARASITA – 2019 | ALERTA OSCAR

08 fevereiro, 2020 por

PARASITA - 2019

Wow. Essa foi a primeira palavra que consegui falar quando o filme acabou. Seguido de vários “eita” e um silêncio que eu não conseguia quebrar, tamanho o choque de realidade que Parasita me causou. Além de ser o primeiro filme coreano a ser indicado ao Oscar em toda a história da premiação, o filme é surpreendente e absolutamente imprevisível, o que talvez seja um de seus maiores trunfos.

Muito se discutiu sobre o que o filme de Bong Joon-Ho realmente fala, desde luta de classes até política e arquitetura e urbanismo. Algumas pessoas disseram que poderia se tratar de um filme cuja única intenção era narrar uma sequência de fatos inusitados e entreter o espectador de forma única, subjugando o óbvio e mostrando que nem sempre tudo está à primeira vista. Claramente, a narrativa de Joon-Ho se sobressaiu de forma totalmente inesperada na indústria do entretenimento.

Confesso que, inicialmente, eu não sabia nem qual era o tema do filme. Sobre o que ele tratava, sua sinopse… A única dica que eu tinha era o nome: Parasita. Pensei que seria um filme de terror e que seria um excelente filme de terror. Afinal, com todo o barulho que estava causando, só podia mesmo ser algo transcendental. Que engano o meu!

Para contextualizar, a história contada é a de Ki-Taek e sua família: os pais e a irmã. Desde o princípio, fica bastante explícito que se trata de uma família pobre morando em Seul. Morando em um semi-porão velho e encardido, a família passa os primeiros minutos do filme procurando por um lugar em que os celulares consigam roubar um pouco de wifi gratuito. Em seguida, vemos um bêbado urinando bem na frente da janela do porão que dá para, bem, o chão da rua.

É nesse momento que um amigo de Ki-Taek aparece para lhe presentear com uma pedra e dizer que tem uma indicação de emprego para ele. Como bom amigo, lhe confia a garota que ama e, junto, a família dela. E, apesar de conseguir o trabalho de uma forma um tanto quanto ilícita, acabamos felizes por ele. Afinal, sua família realmente está passando por necessidades e aquele emprego significa muito para eles.

parasita filme coreano concorrente ao Oscar

Até que a história começa a se desenrolar. Ki-Taek indica sua irmã como se fosse uma desconhecida. A irmã, por sua vez, causa a demissão do motorista e indica o pai. O pai acaba por causar a demissão da governanta e, surpresa surpresa!, a mãe deles acaba tomando esse posto. É claro que tudo é feito às escuras e a família sempre demonstra agir na melhor das intenções, sempre visando ajudar a família Park, responsável por suas contratações.

 

É um tanto quanto inevitável criar uma certa afeição por ambas as famílias. Apesar de golpistas, os Kim (família de Ki-Taek) são simples e hilários, passando aquela impressão de gente como a gente que causa tanta identificação. Mas eles só funcionam por conta da inocência que beira o absurdo dos Park. Ao mesmo tempo, os Park são adoráveis e afetuosos. Simplesmente porque o filme não trata de vilões, de bem ou de mal. Trata da realidade crua e simples.

Diferentemente dos doramas e filmes românticos, em Parasita é possível se enxergar uma Coréia do Sul muito mais suja, feia e com uma gritante injustiça social. Uma das cenas mais marcantes do filme e que inclusive foi veiculada amplamente na internet, é a cena em que a matriarca da família Park diz que a chuva do dia anterior foi uma bênção. Enquanto isso, na noite anterior pudemos ver a casa da família Kim completamente alagada e tomada de esgoto.

Sumariamente, pode-se dizer que o filme trata, sim, de diferenças sociais. E sim, também podemos dizer que se trata de arquitetura e urbanismo, uma vez que retrata ampla e cuidadosamente os espaços e suas diferenças. A casa dos Park, inclusive, é uma obra belíssima de arquitetura. Mas o filme também vai além e se dispõe a explorar esses espaços. Se dispõe a explorar a forma como pessoas ricas enxergam e tratam pessoas pobres.

Se dispõe, também, a exibir cenas frias e certamente cruéis, como a cena final em que Jessica, irmã de Ki-Taek leva uma facada e a família Park simplesmente a ignora, completamente absorvida em seu próprio drama de ter o filho mais novo passando por uma convulsão. É claro que ambas as situações são graves, mas o fato é que eles simplesmente se comportam como se não houvesse mais ninguém ali machucado.

O fato é que o diretor, Joon-Ho, ousou narrar uma história com cunho muito real e extremamente próximo da vida diária de milhares de pessoas pelo mundo. De forma completamente inusitada e, sim, surpreendente, o coreano dá um passo importante na história do cinema. O filme segue um ritmo característico da fotografia coreana, mesclando com narrativas mais hollywoodianas. Se supera, porém, com as reviravoltas imprevisíveis e que acontecem de forma muito natural.

Acima de tudo, acredito que Parasita é uma história sobre pessoas. Sobre como pessoas reagem a determinadas situações. Talvez eu possa soar pretensiosa, mas o filme me soa como uma personificação da célebre frase de Thomas Hobbes: o homem é o lobo do próprio homem. E, sem dúvidas, o homem também é o parasita do próprio homem.

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Parasita filme koreano

Ficha Técnica:
Estreia: 7 de novembro de 2019
Duração: 1h12min
Gênero: Comédia, Drama, Thriller
Direção: Joon-ho Bong
Elenco: Kang-Ho Song, Woo-sik Choi, So-Dam Park
Distribuidora: Pandora Filmes

 

 

 

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14 Comentários

  • Valéria
    fevereiro 17, 2020

    Nossa, se eu já taba curiosa pra assistir, depois do teu texto fiquei mais ainda. Eu tbm achei se tratar de algo na vibe terror asiático [são dos melhores] mas depois conversando com um amigo que me indicou, eu percebi que o filme era genial na crítica que põe em pauta.

    Ja querooo assistir assim que possível.
    Küss

  • Karina Rodrigues
    Karina Rodrigues
    fevereiro 17, 2020

    Vic, eu adorei Parasita!!! Ele cria na gente uma sensação de incômodo que é difícil ficar apenas sentado e vendo o filme passar. É uma sensação palpável! Um filme que, como vc disse, trata de situações reais, desigualdade, e com pessoas reais e toda a crueldade que pode existir ali.
    Oscar inesperado e merecido!

  • Erika Monteiro
    fevereiro 17, 2020

    Oi, tudo bem? Ainda não tive oportunidade de assistir o filme mas já vi alguns comentários sobre. O que mais chama atenção são as discussões que ele levanta. Como mudamos a vida daqueles que nos cercam, e como somos moldados por isso também. Impressionada que ganhou o Oscar. Um abraço, Érika =^.^=

  • Alice Teixeira
    fevereiro 17, 2020

    Oi oi,
    Eu já vi o filme e adorei a notícia de que o meu filme favorito, tinha ganhado o oscar. Além de uma obra muito bem maestrada, o longa foi muito bem feito com o cenário e atores bem envolventes e tocantes. Fiquei tão feliz quando li o seu post, pois, finalmente os doramas e filmes coreanos (k-dramas) estão ganhando espaço entre leitores e cinéfilos.

    Beijoss, Enjoy Books

  • RENATA CRISTINA SILVA AVILA
    fevereiro 16, 2020

    Fiquei tao feliz quando Parasita ganhou o oscar foi super merecido. Já assisti de novo porque esse é um filme que se ve muitas vezes

  • Ana Elisa Monteiro
    Ana Elisa Monteiro
    fevereiro 16, 2020

    Vic, vou te confessar uma coisa, assim que vi sobre esse filme a primeira coisa que pensei foi, não vou ver porque é coreano e já tive péssimas experiências com filmes coreanos. A segunda foi, é um filme sobre algum vírus ou animal e tal, algo apocalíptico. Mas depois que o Oscar passou, acabei vendo que estava errada. Com a sua crítica então, vejo que me enganei mesmo e estou arriscando dizer que acho que darei uma chance para esse filme. Afinal, ele não deve ter ganhado como Melhor Filme atoa né? Parabéns pela crítica!

  • Carol Nery
    Carol Nery
    fevereiro 16, 2020

    Ual, Vic! Que arraso de crítica! Adorei…
    Mesmo tendo ficado contente com a ecleticidade nas premiações na noite do último Oscar, eu confesso que não tive tempo de ver Parasita antes do que queria.
    Mas, mesmo se não tivesse levado nada de prêmio pela academia eu simplesmente iria querer assistir, só por sua análise aqui. Adoro “coisas” cruas assim. Que retratam como o mundo funciona de verdade. Beijocas!

    Carol

  • Nayara Borges
    fevereiro 16, 2020

    Eu estou muito curiosa com esse filme, desde a premiação do Oscar e acredito que muita gente deve tá também, afinal foi uma surpresa né? Eu ainda não tinha lido nada pra saber do que se trata o filme, primeira vez que leio e olha, fiquei ainda mais curiosa. O filme parece trazer bastante críticas sociais, isso é bem legal.

  • Vitor Damasceno
    fevereiro 16, 2020

    ‘Parasita’ já está na história do cinema, alem de ser o primeiro em muita coisa e ter levado todos os premios principais (principal mesmo é Cannes, rsrs). Temos que concordar que ele é filme bom pra caramba !

  • Leticia Rodrigues
    fevereiro 16, 2020

    Parasita é um filme que estou me preparando pra ver, tenho um apego as obras sul coreanas, sou viciada em doramas e filmes coreanos.

  • Debora Sapphire
    fevereiro 16, 2020

    Wow. Gostei bastante de conferir o seu post tão completo e bem escrito sobre o filme que recebeu essa premiação inédita de melhor filme e sendo estrangeiro no Oscar! Confesso que tenho muita curiosidade em conhecer o trabalho do diretor Bong Joon-Ho. E depois de ler as suas considerações sobre o filme, nota-se que realmente todo o reconhecimento é merecido.

  • Lilian de Souza Farias
    fevereiro 16, 2020

    Infelizmente, ainda não assisti Parasita, só li elogios ao filme, mas ainda não tive oportunidade, gosto d tudo que tenha o teor político de nos tirar da alienação, de mostrar as coisas como verdadeiramente são, também aprecio quando a luta de classes é destrinchada, acho necessário, o sistema capitalista ou neoliberal, só provoca miséria.

  • Hanna Carolina Lins de Paiva
    fevereiro 15, 2020

    Acredita que não assisti esse filme anda? Mesmo que ele tenha ganho o Oscar e tudo, só vejo comentários positivos, mas anda não conferir para ter minhas própria opinião a respeito.
    Mas parece ser de fato um filme que mexe com a gente, ainda mais por nós mesmos não sabermos o que faríamos se estivéssemos na mesma situação.
    Bjks!

    Mundinho da Hanna
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  • Yasmine Evaristo
    fevereiro 11, 2020

    O que mais me agrada ao fim de “Parasita” é perceber que assim como a família opta, e se empenha, para obter todos os benefício de uma boa vida explorando os patrões, a classe social mais alta é a constante parasita da camada mais baixa que tem como única função manter o bem estar do outro. O filme, além de ser um meio de retratar a realidade sul-coreana de locais distintos também é cheio de boas escolhas em sua execução que permitem que o ritmo seja mantido e o suspense construído de maneira envolvente.