Wow. Essa foi a primeira palavra que consegui falar quando o filme acabou. Seguido de vários “eita” e um silêncio que eu não conseguia quebrar, tamanho o choque de realidade que Parasita me causou. Além de ser o primeiro filme coreano a ser indicado ao Oscar em toda a história da premiação, o filme é surpreendente e absolutamente imprevisível, o que talvez seja um de seus maiores trunfos.

Muito se discutiu sobre o que o filme de Bong Joon-Ho realmente fala, desde luta de classes até política e arquitetura e urbanismo. Algumas pessoas disseram que poderia se tratar de um filme cuja única intenção era narrar uma sequência de fatos inusitados e entreter o espectador de forma única, subjugando o óbvio e mostrando que nem sempre tudo está à primeira vista. Claramente, a narrativa de Joon-Ho se sobressaiu de forma totalmente inesperada na indústria do entretenimento.

Confesso que, inicialmente, eu não sabia nem qual era o tema do filme. Sobre o que ele tratava, sua sinopse… A única dica que eu tinha era o nome: Parasita. Pensei que seria um filme de terror e que seria um excelente filme de terror. Afinal, com todo o barulho que estava causando, só podia mesmo ser algo transcendental. Que engano o meu!

Para contextualizar, a história contada é a de Ki-Taek e sua família: os pais e a irmã. Desde o princípio, fica bastante explícito que se trata de uma família pobre morando em Seul. Morando em um semi-porão velho e encardido, a família passa os primeiros minutos do filme procurando por um lugar em que os celulares consigam roubar um pouco de wifi gratuito. Em seguida, vemos um bêbado urinando bem na frente da janela do porão que dá para, bem, o chão da rua.

É nesse momento que um amigo de Ki-Taek aparece para lhe presentear com uma pedra e dizer que tem uma indicação de emprego para ele. Como bom amigo, lhe confia a garota que ama e, junto, a família dela. E, apesar de conseguir o trabalho de uma forma um tanto quanto ilícita, acabamos felizes por ele. Afinal, sua família realmente está passando por necessidades e aquele emprego significa muito para eles.

parasita filme coreano concorrente ao Oscar

Até que a história começa a se desenrolar. Ki-Taek indica sua irmã como se fosse uma desconhecida. A irmã, por sua vez, causa a demissão do motorista e indica o pai. O pai acaba por causar a demissão da governanta e, surpresa surpresa!, a mãe deles acaba tomando esse posto. É claro que tudo é feito às escuras e a família sempre demonstra agir na melhor das intenções, sempre visando ajudar a família Park, responsável por suas contratações.

 

É um tanto quanto inevitável criar uma certa afeição por ambas as famílias. Apesar de golpistas, os Kim (família de Ki-Taek) são simples e hilários, passando aquela impressão de gente como a gente que causa tanta identificação. Mas eles só funcionam por conta da inocência que beira o absurdo dos Park. Ao mesmo tempo, os Park são adoráveis e afetuosos. Simplesmente porque o filme não trata de vilões, de bem ou de mal. Trata da realidade crua e simples.

Diferentemente dos doramas e filmes românticos, em Parasita é possível se enxergar uma Coréia do Sul muito mais suja, feia e com uma gritante injustiça social. Uma das cenas mais marcantes do filme e que inclusive foi veiculada amplamente na internet, é a cena em que a matriarca da família Park diz que a chuva do dia anterior foi uma bênção. Enquanto isso, na noite anterior pudemos ver a casa da família Kim completamente alagada e tomada de esgoto.

Sumariamente, pode-se dizer que o filme trata, sim, de diferenças sociais. E sim, também podemos dizer que se trata de arquitetura e urbanismo, uma vez que retrata ampla e cuidadosamente os espaços e suas diferenças. A casa dos Park, inclusive, é uma obra belíssima de arquitetura. Mas o filme também vai além e se dispõe a explorar esses espaços. Se dispõe a explorar a forma como pessoas ricas enxergam e tratam pessoas pobres.

Se dispõe, também, a exibir cenas frias e certamente cruéis, como a cena final em que Jessica, irmã de Ki-Taek leva uma facada e a família Park simplesmente a ignora, completamente absorvida em seu próprio drama de ter o filho mais novo passando por uma convulsão. É claro que ambas as situações são graves, mas o fato é que eles simplesmente se comportam como se não houvesse mais ninguém ali machucado.

O fato é que o diretor, Joon-Ho, ousou narrar uma história com cunho muito real e extremamente próximo da vida diária de milhares de pessoas pelo mundo. De forma completamente inusitada e, sim, surpreendente, o coreano dá um passo importante na história do cinema. O filme segue um ritmo característico da fotografia coreana, mesclando com narrativas mais hollywoodianas. Se supera, porém, com as reviravoltas imprevisíveis e que acontecem de forma muito natural.

Acima de tudo, acredito que Parasita é uma história sobre pessoas. Sobre como pessoas reagem a determinadas situações. Talvez eu possa soar pretensiosa, mas o filme me soa como uma personificação da célebre frase de Thomas Hobbes: o homem é o lobo do próprio homem. E, sem dúvidas, o homem também é o parasita do próprio homem.

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Parasita filme koreano

Ficha Técnica:
Estreia: 7 de novembro de 2019
Duração: 1h12min
Gênero: Comédia, Drama, Thriller
Direção: Joon-ho Bong
Elenco: Kang-Ho Song, Woo-sik Choi, So-Dam Park
Distribuidora: Pandora Filmes