OS TESTAMENTOS – Em algum momento você já deve ter escutado falar sobre “O Conto da Aia. Pois é, a distopia não muito distante, que trata sobre a criação de um governo totalitário e teocrático onde as mulheres perderam todos os seus direitos! Ela teve enfim no ano passado, após os 35 anos lançamento do primeiro livro, a sua aguardada e necessária continuação. Bem, não vou mentir, eu tive medo… Mas, “Os Testamentos”, aborda dessa vez uma outra camada de mulheres que não foram representadas no primeiro livro e por isso é tão fascinante e instigante para leitura. Sério, Margaret, eu te amo muito!

Fica muito difícil falar sobre história, sem dar algum spoiler, então não estranhe se essa resenha parecer superficial. É intencional. Em “Os Testamentos” acompanhamos novamente o governo teocrático e totalitário de Gilead, porém 15 anos após os acontecimentos do primeiro livro. Ou seja, Gilead ainda existe! Desesperador, né?!

Em “O Conto da Aia” nós conhecemos como tudo começou, principalmente para a classe das aias. O livro detalha muito bem como estas eram escolhidas, as punições, deveres e faltas de perspectiva. No entanto, o livro fala também sobre a estrutura de Gilead, as econofamílias, os comandantes, as marthas, “o olho”, as colônias de punições e as Tias.

OS TESTAMENTOS - MARGARET ATWOOD

Vemos os planos sendo começados a entrar em prática e a resistência das mulheres frente às mudanças. Entendemos as camadas de controle propostas com a proibição da escrita e leitura, as definições dos preceitos religiosos distorcidos e a punição imediata a todos que ameaçam qualquer resistência. Vou deixar o link da minha resenha do primeiro livro aqui, pois nela detalho várias partes de Gilead.

Mas em “Os Testamentos” 15 anos já se passaram… As normas e “mandamentos” já se tornaram hábitos inquestionáveis, e uma nova geração que só conhece aquele lugar como verdade está surgindo. Meninas que foram criadas naquele regime, mulheres forçadas aceitar seu destino e homens cada vez mais seguros das impunidades de suas atitudes.

Ainda assim, ao olhar este governo bem de perto, vemos rachaduras! E o livro dessa vez não traz a visão de uma só personagem. Ele faz o paralelo entre três figuras diretamente envolvidas com Gilead, que terão suas histórias cruzadas em algum momento. São elas: uma tia, que participou da instauração do governo de Gilead; a filha de um importante Comandante, que cresceu em Gilead; e uma adolescente do Canadá que cresceu ouvindo as histórias horrendas do país vizinho e participa de manifestações contrárias ao governo.

OS TESTAMENTOS - MARGARET ATWOOD

Logo, perceba que terão voz as pessoas menos abordadas na história até agora e, digo por mim, fonte de grande curiosidade: as Tias e as filhas dos comandantes. A narrativa é feita em formato de depoimentos, e ao contrário de “O Conto da Aia” consegue ser bem mais leve e envolvente. Muita gente diz ter dificuldade com a quantidade de conteúdo e a linguagem do primeiro livro, então talvez tenha mais facilidade agora. Apesar de que é importante ressaltar que muita coisa pesada ainda é relatada aqui!

Honestamente, eu sempre quis saber sobre as Tias. Definidas como más, severas e alienadas, participantes da criação das regras, é muito importante ver como tudo começou para elas. O que elas eram antes, como foram escolhidas, como é viver em Ardua Hall (onde todas moram juntas) e como é ser a única classe de mulheres cultas (podem ler e escrever) e “com poder” em Gilead.

Consequentemente também é interessante ver a relação destas com as filhas dos Comandantes, visto que são suas professoras. E, claro, como essas filhas se comportam. Elas são o reflexo da nova sociedade, o resultado. Algumas são filhas roubadas das aias, outras nasceram das cerimônias com os comandantes, outras são das próprias esposas, são das econofamílias… Isso seria uma diferença? Seja para elas, para a sociedade, para o convívio?

Bom, o que eu tenho a dizer é que foi fantástico dar este salto no tempo e ver tudo o que aconteceu. A história das três personagens se une de uma forma muito especial e importante, sendo impossível não se envolver e até se emocionar. É um outro lado completamente diferente e ao mesmo tempo complementar de “O Conto da Aia”.

E se a sua dúvida for por não ter lido o primeiro livro, o que eu digo é o seguinte, eu aconselho a ler! O importante deste primeiro livro é como ele ambiente o leitor nos aspectos de funcionamento de Gilead, econômicos e sociais, sem focar só nas aias. Maaaas se você não tiver lido, porém, assistindo a série, vai entender perfeitamente bem.

Inclusive, se eu for te dar um conselho mesmo, eu acredito que seja bem interessante assistir a série antes deste livro de uma forma ou de outra. Isso porque a Margaret Atwood participa da produção da série, e alguns fatos que já extrapolam a história contada no primeiro livro são bem importantes para o desenrolar de “Os Testamentos“. Acredito ainda, que a série deva chegar nele…

Então é isso, a edição é linda e apresenta em sua capa uma mulher com a roupa igual a das aias, só que em verde fluorescente. Não vou dizer quem é ela, mas já adianto que, assim como vermelho chamativo da aia, esse verde também serve para demonstrar “pertencimento a alguém”.

E fique com a palavra de Margaret Atwood. Livros como “O Conto da Aia” e “Os Testamentos” não devem e nem podem ser levados apenas como distopias e ficção. Em tempos nacionais e mundiais nebulosos em que vivemos, nunca se esqueça que conhecimento é poder. Não permita que tirem isso de você!