CINEMA

O ESCÂNDALO | ALERTA OSCAR

16 janeiro, 2020 por

Estreia hoje o filme “O Escândalo” (Bombshell, 2019), candidato ao Oscar em quatro categorias. Inspirado em fatos reais, aborda casos de assédio na famosa e conservadora rede de TV americana Fox News. O filme conta com uma linha de frente de peso, tendo como protagonistas as atrizes Charlize Theron, Nicole Kidman e Margot Robbie, enfrentando diretamente o então poderoso produtor Roger Ailes. Mas será que cumpre o que promete?

Megyn Kelly (Charlize – com uma caracterização sensacional!) é uma famosa jornalista, advogada e comentarista política do Fox News. Tem um programa em horário nobre. Sua história começa a ser contada a partir de sua participação no debate presidencial dos Estados Unidos em 2016. Ela bateu de frente com Donald Trump em relação a seus tratamentos pejorativos e ofensivos direcionados às mulheres e seus múltiplos tweets agressivos. Porém, sendo sua emissora “bem próxima ao candidato” ela foi direcionada a colocar panos quentes, ainda que ele a tenha acusado de estar em seu período menstrual.

Gretchen Carlson (Kidman) é uma ex-miss e jornalista também do canal Fox News. Era uma das apresentadoras de um programa de horário nobre. Porém, ao se voltar contra comportamentos machistas e assediadores na própria emissora, ela foi colocada em um programa só seu. Isso, em um horário de pouquíssima relevância à tarde. Ao ser demitida, ela decide ir em frente com seu plano de lutar judicialmente para derrubar o poderoso Roger Ailes. Contudo, em “O Escândalo” veremos que ela precisará da ajuda das outras.

Kayla (Margot Robbie, personagem fictícia) é uma produtora iniciante do programa de Gretchen. Com uma postura bastante conservadora, ainda que muito ambiciosa, a jovem deseja estar na frente das câmeras. E isto a motiva a seguir em frente na emissora que sempre sonhou, tentando cavar oportunidades. Só que isso acaba por fazer com que ela vá parar na sala de Ailes. Lá ela ouve frases como “eu poderia pegá-la e levá-la ao topo da lista, mas preciso de algo em troca.”

“O Escândalo” aborda um caso muito sério e real acontecido por trás das portas da Fox News. Através da coragem de Gretchen Carlson e diversas outras mulheres, foram quebrados (ou expostos) anos de uma estrutura de assédio. Para que fique um pouco mais claro: Fox News seria como a Record aqui no Brasil, defendendo os costumes e valores familiares de forma bem conservadora.

Qual foi minha surpresa então ao encontrar em “O Escândalo” um filme com diversas partes de humor? Ao se expor um CRIME de tamanha dimensão, o mínimo e coerente seria uma postura responsável e séria a respeito dos fatos. Então passamos a considerar algo que não deveria nem ser relevante em 2020, mas é: direção e roteiro feitos por homens. Acredito que a abordagem seria outra se fosse feita por uma mulher, que entende a gravidade do que está sendo abordado.

Outro fato crítico que acredito ter pesado nessa produção foi o receio de bater de frente contra os Murdock, donos do Império da Fox. Sendo assim, é triste ver uma produção dessa, com um elenco de estrelas, orçamento e um caso enorme para trabalhar, não estar preparada para o que se propõe. Sendo assim, fazendo um trabalho mediano, com vários alívios incoerentes.

E não me entenda mal, as três atrizes estão brilhantes no filme, no entanto isso diz mais sobre o talento delas mesmas do que do roteiro. Charlize é quem mais tem destaque e inclusive narra algumas partes da história, seguida por Margot Robbie. Ironicamente, por último, visto que foi o estopim de tudo, a Gretchen de Nicole Kidman. Elas deram o melhor de si dentro do que foi possível, e é inegável a gigante competência de cada uma.

“O Escândalo” revela um grande problema em sua divisão de tempos e prioridades. Enquanto é gasto um grande tempo para abordar o confronto Magyn X Trump e Kayla X Roger, Gretchen passou despercebida em vários momentos. Inclusive, tendo pouquíssimas falas e aparições. A segunda metade do filme foi tão rápida e atropelada que não deixou clara a linha temporal dos fatos. O que resultou em um final brusco, corrido e incompleto.

No entanto, “O Escândalo” apresenta diálogos bem fortes, que exemplificam os terrores que podem ocorrer (e ocorrem) por trás das câmeras. Algumas escolhas cinematográficas foram muito infelizes, na minha opinião. Como: a quebra da quarta parede (quando o personagem se comunica diretamente com o público); o zoom nos rostos das vítimas quando elas estão no momento do assédio; uma voz para os pensamentos da vítima durante o assédio em tons cômicos; músicas bem animadas; e o pior… Uma câmera focalizando bastante o corpo de Margot Robbie – como se fossem os olhos do assediador – quando é pedido a sua personagem que levante o vestido (poderia ter sido uma câmera atrás dela).

Roger Ailes, a grande figura de opressão às mulheres da empresa, é retratado hora como atencioso, hora como machista, racista, assediador, ao mesmo tempo que doente, fraco e até caricato. A mesma inconstância é vista nas personagens principais. Tendo como destaque Kayla, que começa muito conservadora, depois lésbica não assumida, ambiciosa e que faz tudo pelo cargo, conservadora novamente… Parece que tentaram alcançar vários públicos ao mesmo tempo e se perderam.

Mas é inegável como, ainda sim, essas três atrizes maravilhosas conseguem fazer o filme brilhar. Donas de atuações exemplares, mesmo com falhas no roteiro e direção, você consegue sentir o drama das personagens. Acredito que por isso sejam merecedoras das indicações ao Oscar que receberam. Pena Nicole Kidman não ter conseguido seu espaço para destaque.

Apesar de todas as ressalvas (que não foram poucas), a produção desses filmes que mostram a verdade escondida por trás do brilho das câmeras é extremamente benéfica. Pois, uma vez que está escancarado, o jogo se inverte. As mulheres passam a ter coragem de bater de frente e os homens receio de investir e assediar com tamanha naturalidade.

Finalizando, acredito que até mesmo a possibilidade de se produzir um filme desse estilo, e também de séries como The Loudest Voice (originada do livro homônimo, e que também aborda a história de Roger Ailes) e The Morning Show (aborda casos de assédio de um querido âncora de TV) venha a partir da força do movimento #metoo. Este, criado pelas atrizes americanas após as denúncias ao produtor Harvey Weinstein, o movimento ganhou bastante destaque e tem fortalecido as vozes das profissionais do meio. Nada mais justo, uma vez que todas merecemos ser reconhecidas pelo nosso trabalho e não por medo, por ser sexy ou por “cair de boca”.

______________________________________________________________________________________________________________

 

 

Estreia: 16 de janeiro de 2020
Duração: 1h 49min
Gênero: Biografia, Drama
Direção: Jay Roach
Elenco: Charlize Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie
Distribuidora: Lionsgate Films

veja os posts relacionados

Deixe seu comentário

11 Comentários

  • Ingrid Barbosa
    janeiro 20, 2020

    Ouvi comentários sobre este filme, que me desanimaram, em relação a distração no tema. Mas quem sabe não ganha uma chance de ser visto?!

  • Aline Tavares
    janeiro 20, 2020

    Eu assisti o trailer de O escândalo no cinema e fiquei interessada, principalmente pq o elenco feminino é muito bom. Porém a resenha me deixou com um pé atrás para assistir o filme. Parece que o roteiro e a direção não fazem jus a importância do tema.

  • Flavia
    janeiro 20, 2020

    Ainda não assisti esse filme, mas parece ser bem interessante e acho super válido retratarem esses casos, para pelo menos incentivar outras pessoas que passam pelos mesmos problemas a tomarem alguma atitude contra. Nem sempre adaptações de casos reais ficam bem no cinema, mas gostei das suas colocações e espero em breve assistí-lo também.

  • Vic
    janeiro 20, 2020

    É uma pena sabe que um filme com um potencial gigante desse teve que ser “moderado” por conta de uma “censura”. Mas só pelo elenco e pela história em que se baseia esse filme, certeza de que vale super a pena!

  • Alice Teixeira
    janeiro 20, 2020

    Oi oi,
    Eu ainda não vi o filme, mas desde o momento que vi o trailer soube que séria uma obra de digna de Oscar. Tanto as atrizes como todo o elenco em si, fizeram algo incrível com o filme, e mesmo eles tendo certo receio do escândalo que séria expor tudo isso, pra mim fizeram um ótimo trabalho.

    Beijoss, Enjoy Books

  • Valéria
    janeiro 20, 2020

    Oi, Karina… Poxa, uma pena que a temática tenha sido abordada de maneira não tão séria como deveria, se tratando de um assunto tão pesado e tenso. De qualquer forma, acho que é válido assistir pra ver a interpretação das atrizes. Gosto mto dos trabalhos de Theron e Kidman.

    Sugestão anotada.

  • Liv Resenhas Caóticas
    janeiro 20, 2020

    Não sabia que esse filme tinha saído. Acho uma pena quando um assunto tão importante é abordado de maneira que não dê a ênfase que ele merece. De qualquer maneira, fico curiosa para conhecer a história. Adoro as atrizes e veria só por elas!
    Abraços,
    Liv | Resenhas Caóticas

  • Débora Vicente
    janeiro 19, 2020

    Que resenha maravilhosa! Realmente, é difícil trazer a lealdade em uma adaptação de fatos reais, acho que ainda mais quando se trata de um assunto tão sério.
    Adorei sua critica, você nos trouxe os pontos bons e os pontos ruins e sua opinião sobre o filme em geral, com muitos detalhes e sem spoilers!
    Parabéns ❤

  • Debora Sapphire
    janeiro 19, 2020

    Achei muito melhor conhecer mais sobre esse filme pelo que você escreveu e apresentou aqui, do que o que eu já tinha visto em trailers no cinema. Porque eu sou daquelas que tem receio em assistir ou ler obras com dramas baseadas em fatos reais. Então, geralmente nem presto muito atenção. E agora, lendo aqui, pude notar o quanto esse roteiro é valioso, promissor e rico em defender causas importantes. Além das críticas socias presentes.

  • Aruom Fenix
    janeiro 19, 2020

    Desde que vi o trailer desse filme non cinema já estava louca para assistir, mas agora depois de ter lido a sua resenha realmente virou um caso de necessidade! Parabéns pela resenha seu trabalho esta incrível!

    Bjs Aruom Fênix

    Blog Leituras de Aruom

  • Hanna Carolina Lins de Paiva
    janeiro 18, 2020

    Eu não estou muito ligada nos filmes concorrentes ao Oscar, na realidade nunca fui, rsrsrs. Mas com relação a esse filme, fiquei de queixo caído quando vi um elenco de peso como esse, num tema que é tão relevante e necessário, ser tratado dessa maneira. Mesmo que os produtores e roteiristas fossem homens, por que não pediram auxílio de quem realmente passou por esses momentos, para fazer algo mais perto da realidade? E outra, se querem falar sobre um assunto tão poderoso e, ao mesmo tempo perigoso, já que é um vespeiro, tem que ter coragem, não fazer um filme com toques de humor, só para “disfarçar” o que essa criatura perversa fez… Sinceramente, não entendi a real mensagem desse filme, era para denunciar, mas ao mesmo tempo a gente tem que o olhar o lado do agressor e ver que “não é tão ruim assim”?! Não faz sentido algum! Não faz!

    Mundinho da Hanna
    Pinterest | Instagram | Skoob