O Diabo de Cada Dia (The Devil All The Time) é uma adaptação que estreou no serviço de streaming Netflix, e foi baseada na obra de Donald Ray Pollock – O Mal Nosso de Cada Dia (2011 nos Estados Unidos e 2020 no Brasil). Livro esse que entrou para minhas melhores leituras de 2020 e você pode conferir minha resenha aqui. Eu assisti ao filme logo que ele foi liberado lá na Netflix, e foi muito reconfortante vê tudo que li e imaginei ir tomando formas e cores. Virando gente e atos. Preciso dizer nesse primeiro parágrafo que eu AMEI a adaptação. Então segue o baile…

O filme é um thriller norte americano, que foi dirigido pelo diretor “meio-brasileiro” Antonio Campos (“Depois da Escola”, 2008). Para esse longa, o diretor e co-roteirista ao lado de seu irmão Paulo, contou com um dos elencos mais estrelados dos últimos tempos. E arrisco um palpite: ele pode pintar nas indicações ao Oscar em 2021! Assim sendo, depois das devidas apresentações, quero falar um pouco da minha experiência com o filme, uma vez que virei uma fã alucinada do livro…

Iremos acompanhar sobre a vida de várias pessoas que vivem em Ohio. A época retratada é pós a 2ª Guerra Mundial (décadas de 50 e 60), onde um dos personagens principais e veterano da supracitada guerra, Willard Russell (Bill Skarsgård) acaba por ter uma experiência bastante traumática. Esse acontecimento pode ter incomodado sua psique mais do que a própria guerra em si. Sua experiência religiosa também fica destemperada. Assim o recebemos e conhecemos, até o momento que se apaixona por Charlotte (Haley Bennett), uma garçonete que ele só viu dessa vez em uma parada de ônibus.

Russell estava realmente amando aquela mulher, pois um tempo depois ele retornou, arrebanhou o coração da moça, e logo estavam casados, vivendo em Knockemstiff – lugar que realmente existe, e fica em Ohio. Desse lindo amor – uma das poucas coisas bonitas que você encontrará nessa história – nasce o filho único do casal, Arvin Russell (nosso protagonista!). Entretanto, o menino tinha um relacionamento meio distante com seu pai enquanto criança. E foi com cenas extremamente fortes, que a admiração por seu “velho” nasceu. Seu pai lhe dá dicas, verdadeiros ensinamentos de como achava certo agir. E isso foi o que estabeleceu o relacionamento dos dois, e moldou o caráter do garoto. Cenas da “igreja” que Russell construiu pra si e seu filho no meio da floresta poderá lhe roubar alguns minutos de sono…

Muita coisa ruim acontece com gente boa e inocente. Esse é um tipo de filme onde as pessoas sofrem, e elas podem até chegar a surtar. Não existe muito limite de certo ou errado. As personagens, embora tenham um peso forte da tradição religiosa, buscam sempre fazer o que querem, do jeito que dá vontade e como acham que é o certo. Dessa forma, existem diversos tipos de personalidades se correlacionando em um lugar quente, sujo, e onde parece que o tal do Judas perdeu as botas. Na verdade, parece que nem o Senhor Jesus que eles tanto adoram, se lembra daquele canto (quase insignificante) no meio oeste do mapa.

Temos o Reverendo Preston Teagardin (Robert Pattinson) que sabe recitar a bíblia de cor. Porém vive uma vida de perversão, focado em usufruir do corpo de meninas da sua paróquia, como também pode humilhar uma ovelha do seu rebanho sem ao menos piscar. Suas pregações entusiásticas beirando o absurdo mostram muito da qualidade camaleônica de Pattinson – uma das interpretações preferidas neste longa. Mas, não chega perto de ser a pior pessoa que você conhecerá aqui.

Você também irá conhecer um policial corrupto chamado Sheriff Lee Bodecker (Sebastian Stan). Os caminhos deles e de Arvin não se cruzam tão somente uma vez. Sendo o primeiro encontro no pior dia da vida do garoto Russell. O sheriff tenta a todo custo uma reeleição, mas vive envolvido com negócios sujos. Ele também precisa se preocupar muito com sua irmã Sandy Henderson (Riley Keough) e seu cunhado Carl Henderson (Jason Clarke). Esse casal dará muito trabalho, quando decidem viajar de “férias” com um hobby nada cristão ou, na verdade, nem um pouco dentro da lei.

Não poderia deixar de falar do núcleo familiar onde Arvin foi criado. Ele vive com Lenora (Eliza Scanlen), sua irmã de criação na Virgínia Ocidental. A história dos pais da garota é bem resumida no filme, mas não senti que fez MUITA falta, ou que atrapalhou nosso entendimento dos fatos. Os dois foram criados pela mãe de Willard, uma senhora muito cristã, muito devota e super dedicada. Emma (Kristin Griffith) é uma mãe postiça muito amorosa. E sofre com “O Diabo de Cada Dia” que precisam enfrentar para seguir vivendo.

Não podemos deixar de olhar o panorama completo, como um todo. Você vai entender o que Pollock quis mostrar no livro, e Campos na adaptação, somente se enxergar a história como um todo. Quando você perceber que são pessoas comuns, vivendo corriqueiramente, mas flertando com o mau, com o impuro… Tudo aquilo que não percebemos até que somos atingidos no meio da cara. O estrago já está feito! Em O Diabo de Cada Dia não existem uma alma sequer a fim de praticar o bem. A hipocrisia é a palavra que mais sobressai em meio a muitos dessas personagens.

Acredito que o filme é um completo muito melhor para quem teve a experiência da leitura. Contudo, defendo a obra de Campos como um filme independente. Onde você conseguirá saber o que está acontecendo, desde que tenha atenção em perceber como a linha tênue (quase inexistente) entrelaça toda a trama, fazendo que caminhos se cruzem. É como na vida real. E essa sensação de realidade, de “gente como a gente”, que pode a qualquer momento ser atormentado com uma catástrofe diária, me fez estar conectada de corpo e alma com o Ohio dessa gente toda que tentei apresentar a vocês.

Os detalhes são tantos, e eu queria ficar aqui pra sempre conversando sobre esse livro e filme. Mas, O Diabo de Cada Dia será mais bem apreciado se eu contiver meus dedinhos ágeis aqui nesse teclado. Ah! Preciso recomendar que você assista ao filme em sua versão com o áudio original! A experiência da fala e entonação de voz dos atores Skarsgård e Pattinson é algo que dá todo um clima a essa exibição. Eu gosto muito de sotaques, e da forma como os atores se transformam totalmente, se entregando àquele papel. E para mim esses dois em especial merecem um ponto extra pela dedicação e capacidade. Nasceram realmente para serem atores, para interpretar outras vidas!

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Estreia: 16 de setembro de 2020
Streaming: Netflix
Duração: 2h 18min
Gênero: Suspense, Drama
Direção e Roteiro: Antonio Campos
Elenco: Tom Holland, Bill Skarsgård, Robert Pattinson, Haley Bennett
Produtora: Max Born
Produtor: Jake Gyllenhaal
Distribuição internacional: Netflix