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NÃO ERA VOCÊ QUE EU ESPERAVA – FABIEN TOULMÉ | RESENHA

08 setembro, 2020 por

Não Era Você Que Eu Esperava é uma Graphic Novel, publicada no Brasil pela editora Nemo em 2017. Escrita pelo autor e desenhista Fabien Toulmé, que é francês, e que viveu alguns dos seus anos de vida no nordeste brasileiro – porquanto, estava sempre em busca de um lugar tropical para se esquentar. Você terá contato então com uma auto ficção, ou seja, o autor se expõe completamente perante nossos atentos olhos.

Essa história é baseada em sua vida, sua família. E é assim mesmo, já vem com esse título que às vezes soa muito ríspido, ou muito duro, feio e você pode achar até que “desnecessário”. Todavia, é uma realidade nua e crua, que creio eu, você que não é pai e mãe pode até compreender, mas não conseguirá entender completamente.

Sendo muito sincera e verdadeira, quando “resolvemos” constituir uma família, e descobrimos que estávamos “grávidos”, e gerando uma vida, nossos sentimentos são ambíguos. Existe muita felicidade e muito planejamento. Mas existe um medo gigantesco, um terror supremo. E nós vamos falar mais um pouco sobre isso.

Se você acha que estou muito “à vontade” para conversar a respeito de Não Era Você Que Eu Esperava, tomara que eu me faça entender no decorrer da resenha. Então, seguimos juntos aqui para falar mais sobre a HQ. Essa história é sobre a segunda gravidez do casal Fabien e Patrícia (sua esposa é brasileira, assim como sua filha mais velha, a Louise). Fabien nos conta como foi o início dessa gravidez, de suas preocupações a respeito do bebê ter algum tipo de deficiência, e principalmente à respeito de seus temores e preconceitos. Essa é uma história intimista…

Como iremos descobrir, Não Era Você Que Eu Esperava é sobre sua filha que nasceu com trissomia. É sobre ter uma criança chegando à sua vida, e ela não ser do jeito que você queria, do jeito que ela foi desejada. É saber que falar isso, ou sequer pensar nisso, é algo muito duro, contudo é exatamente assim que as coisas são.

Veremos desta forma como Fabien nunca tinha conseguido lidar com a trissomia (Síndrome de Down) desde sempre. Ele nos mostra isso em ilustrações de quando ele ainda era criança, e também quando sua esposa estava grávida e eles viram uma menina com trissomia. Ele não conseguia ver beleza, nem sentir carinho ou empatia por uma pessoa com essa síndrome. Isso não é se expor completamente?

Teremos muitas páginas contando a respeito do dia-a-dia da família em Não Era Você Que Eu Esperava. O autor não teve pressa em nos contar tudo o que eles viveram. Me ative às trocas de roupas, de estações, de casas e até de país. Viagens e mudanças de empregos. Tudo isso mostra como era a vida da família.

E como Fabien presava muito por certa liberdade de ir e vir, de se mudar quando desse na telha. E o que ter uma criança com necessidade especial causaria em seus “confortos” pessoais. De certa forma, receber um filho que não esperávamos que fosse de tal forma, é em primeira mão um trabalhoso caso de lidar com nosso egoísmo. Pois… “Minha vida nunca mais será a mesma”.

Dessa forma enxergaremos a família Toulmé através da passagem de tempos. Também podemos sentir o “clima” da trama, sentindo a atmosfera que a história vem para causar em nossos ânimos. Fabien fez questão em definir cores para diversos tipos de situações, e esses tons que nos mostram quando eles estão no Brasil ou em climas mais quentes, quando estou na França ou em climas mais frios, e até mesmo quando há conflitos de sentimentos. Esse detalhe na palheta de cores só veio a somar. Recomendo que preste atenção neste fato!

Não Era Você Que Eu Esperava vem trazer à tona um assunto muito sério. Vamos ler aqui a respeito de IDEALIZAÇÃO! Do que nós como futuros pais, esperamos desde já dos nossos futuros filhos. Leremos a respeito de um pai não conseguir lidar ou aceitar sua filha recém-nascida por ela ter trissomia do cromossomo 21.

Isso é algo muito dolorido de se ler, de se imaginar. E acredito que por todo esse peso, o autor consegue “enfiar” no meio dos quadrinhos, algumas tiradas que são ora engraçadas, ora surpreendentes. O que faz tudo mais crível, mais palatável mesmo. Porque a vida real é assim, afinal de contas.

O autor em entrevistas posteriores revela que seu traço é feito por pincel. E eu fiquei bastante admirada. Não fazia ideia. Quando você prestar atenção nos detalhes dessa obra, conseguirá perceber como Fabien é um grande artista, e como é notável a qualidade e sobriedade de seu trabalho.

Também ressalto o valor dessa Graphic Novel, onde você poderá buscar distinguir quais foram os conflitos vividos pela família do autor. Quais mudanças nos comportamentos você conseguiu perceber? Elas houveram? Os personagens (reais) evoluíram? Pincelo – com o perdão do trocadilho – a ilustre participação de Louise na vida de Júlia; o bebê que não foi desejado da forma que chegou.

A saber, essa foi a primeira Grafic Novel autobiográfica do autor francês. E finalizo essa parte da resenha sobre Não Era Você Que Eu Esperava, te solicitando que perceba como é emocionante a trajetória desse pai que certamente precisou descobrir o que realmente sentia por sua criança trissômica.

Será que o preconceito, o medo, a indiferença e até o egoísmo de Fabien será transformado em amor? Nem preciso dizer que chorei, que me emocionei e que me vi em algumas situações, porque seria “chover no molhado”. Contudo… Explicarei!

Sou mão de dois filhos. Filipe tem 7 anos, e Adam completa 5 anos no próximo dia 08 de outubro. Minha primeira gestação foi daquele jeito emocionante. Todo casal doido pra ter uma criaturinha para chamar de sua entende bem o que estou falando. Inúmeras fotos do passo a passo da barriga crescendo, os alívios a cada ultrassom nos informando que o bebê estava bem e se desenvolvendo normalmente, projetos inúmeros, enxoval, festa de chá de bebê programada, escolha do local que ele viria a nascer… Tudo nos conformes. E foi lindo, foi do jeito que eu queria. Parto normal, na minha cidade, Belo Horizonte.

Para resumir, com pouco mais de 1 ano e meio as professoras identificaram diferenças no desenvolvimento do Filipe. Ele não “se misturava” com os outros bebês. Vivia em seu cantinho, com os brinquedinhos que escolhia. Se alguém fosse lá tomar o que ele estava na mão, ele ficava indiferente, não reagia.

Ele também não olhava nos olhos, e nem atendia o chamado do seu próprio nome. Então vamos investigar! O que acontece com o Filipe? Bom, para cortar caminho, aos 2 anos os neuropediatras que o atendiam fecharam diagnóstico, e Filipe estava no transtorno do espectro autista (TEA).

Sim, o mundo parece que vai cair na cabeça da gente. Muito choro derramado no travesseiro na calada da noite, muito medo arraigado, muita preocupação com o futuro. Eu sou psicóloga, e eu via quase que desenhado frente aos meus olhos, eu mesma vivendo as fases de luto. E naquele primeiro momento eu estava TOTALMENTE na negação. Hoje eu acho quase engraçado. Mas a Carol de 30 anos temia por esse peso. Esse diagnóstico. Não foi esse filho que eu esperei, que eu idealizei.

Meu filho, meu sonhado bebezinho, ele tinha que ter chegado “perfeito”. Mas, não foi isso que os médicos me entregaram. E daí para frente, foi a luta da aceitação da condição do meu filho, e trabalhar com muito apoio – e total desprendimento do mundo todo ao nosso redor – do meu marido, só ele era capaz de me entregar isso.

Eu sempre amei o Filipe. Desde o ventre, desde sua formação. Não deixei de amá-lo um minuto sequer por ele ser autista. Mas, me senti desprotegida, aterrorizada, me senti muito preocupada com o amanhã, em como a vida dele virá a ser quando ele não tiver mais o pai e a mãe por perto. Enquanto isso senti mil tipos de medo. E confesso, ainda os sinto. Me preocupo também com o Adam. Somos pais. Nossa função é estar preocupados com tudo sobre nossos filhos. Mas, acima de todos os medos, eu sempre senti mil tipos de amor diferentes todos os dias.

Em conclusão, hoje eu gosto de ressaltar, acima de tudo, sempre que posso (e que não posso!), que se me dessem a oportunidade de escolher, eu escolheria o Filipe TODAS AS VEZES. Do jeito que ele é. Então sim. Eu entendi muito bem a “luta” interna de Fabien em Não Era Você Que Eu Esperava. Eu me condoí com suas dores, com seus medos. Vi até mesmo um espelho de mim mesma, talvez, de formas diferentes. E sei que o amor sempre vence! Não enxergue esse pai como um monstro, por ele desnudar sua alma aqui. Pois Fabien evolui não só como pai, ele evolui como pessoa!

 

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Titulo: Não Era Você Que Eu Esperava
Autor: Fabien Toulmé
Ano: 2017
Páginas: 256
Editora: Nemo
Gênero: Graphic Novel, História em Quadrinhos, Auto Ficção
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Onde comprar: AMAZON

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8 Comentários

  • Debora Sapphire
    setembro 21, 2020

    Gostei muito dessa proposta do livro em apresentar uma história baseada na vida real desse autor e desenhista francês e passou parte da sua vida no nordeste brasileiro. Acho atrativas histórias que contam uma realidade nua e crua. Deve mesmo ser uma trajetória emocionante.

  • Ana Claudia
    setembro 20, 2020

    Menina, que proposta interessante essa! Eu sinceramente achei irreverente! Gosto de HQs e essa me surpreendeu no bom sentido. Senti como se fosse um reality show em forma de quadrinhos! Bela indicação! A propósito, não conhecia essa Editora! Vou procurar saber mais de ambos! Bjs

  • Letícia Guedes
    setembro 20, 2020

    Oioi!
    Que leitura incrível e dolorida e engrandecedora essa graphic novel deve ser. Não sou mãe, então certamente não a veria com olhos como os seus, que conseguiu se ver tanto dentro da história. Mas acredito que também tiraria grandes lições dessa leitura, até porque essa foi uma questão que sempre me pus. Na mídia, quando vemos relatos de pais com filhos especiais, sempre vemos frases como “eu o amei desde o começo, nunca o quis diferente”. E eu sempre me perguntava: mas será que é assim mesmo? Tão fácil e direto apesar das inúmeras dificuldades que sabemos haver? Parabéns pela ótima indicação. Abs!

  • Valéria
    setembro 20, 2020

    Oi, Carol. Nossa, bem emotivo teu relato. E acredito que a leitura tenha realmente te impactado, devido a algumas semelhanças com sua trajetória como mãe.
    Bem, particularmente eu não me empolgo com maternidade, seria um tormento me ver grávida. Então, evito esse tipo de leitura, mas não duvido da honestidade do relato do autor, bem como do talento dele em desenhar todo o processo da graphic novel.. deve ser uma obra esplendorosa mesmo .

    Küss

  • Joyce
    setembro 10, 2020

    Amiga, me emocionei demais com sua resenha! Me senti como quando li a HQ pela primeira vez, e confesso que não assimilei as cores com as passagens e perrengues, vou ter que reler!
    Esse seu trecho mexeu demais comigo:
    “De certa forma, receber um filho que não esperávamos que fosse de tal forma, é em primeira mão um trabalhoso caso de lidar com nosso egoísmo. Pois… “Minha vida nunca mais será a mesma”.” Arrasou demais!!!

    • Carol Nery
      Carol Nery
      setembro 13, 2020

      Joy, que bom que gostou. Sei do seu carinho pela obra.
      Eu tô muita apaixonada com o Fabien e já quero tudo dele que trouxerem pro Br.
      Obrigada pelas palavras. Eu fiquei realmente feliz em saber sua opinião sobre o que escrevi.
      Beijão

  • Heloísa
    setembro 10, 2020

    Amiga, que resenha!
    Clap! Clap! Clap!
    Emocionante o paralelo que você tece entre a sua história com o Filipe e a Graphic Novel, e o sentimento da maternidade/paternidade.

    • Carol Nery
      Carol Nery
      setembro 13, 2020

      Helô querida, obrigada pelas palavras.
      Você é uma pessoa que admiro muito, e fico feliz que meu relato somado à resenha, tenha te agradado.
      Muito obrigada pelo carinho de sempre comigo e com meus meninos.