HQ's

MAUS – ART SPIEGELMAN | RESENHA

16 março, 2020 por

Maus, que significa rato em alemão, é um livro que conta a história de Vladek Spiegelman, narrada por ele próprio ao filho. Escrito e ilustrado pelo amplamente premiado autor Art Spiegelman, é um livro no formato de HQ em preto e branco. Por Maus, Art levou o prêmio Pulitzer de Literatura. Originalmente, o livro foi publicado em duas partes separadas: Maus e Maus 2, em 1986 e 1991 respectivamente. Essa edição, porém, traz os dois livros em um único volume. 

Vladek é um judeu polonês sobrevivente do Holocausto e sua história, apesar de retratada de uma forma não muito convencional, é real e extremamente emocionante. E não, não emocionante de uma forma bonita ou que nos faz sentir renovados. A história de Vladek não nos causa nenhuma sensação de esperança após uma tragédia. Muito pelo contrário. 

Ao terminar o Maus de Art Spiegelman, me senti perdida. Por várias vezes, durante a leitura, precisei parar, respirar fundo e me acalmar antes de continuar. Sem a menor sombra de dúvidas, chorei. Chorei muito. Chorei de vergonha, chorei de desespero. Mas principalmente, chorei com a dor que meu peito precisou transbordar. Peço desculpas se parecer piegas ou dramática, mas acho que preciso dizer a verdade nessa resenha. 

“Morrer é fácil. Você deve lutar pela vida.”

Maus - Art Spiegelman

A história contada em Maus, como já mencionei, é a de Vladek. Ele é pai do autor, Art, que lhe pede que conte suas memórias sobre a II Guerra. O livro tem uma pequena cena introdutória e a partir daí, Art já começa a narrar suas entrevistas e sua convivência com o pai. Já idoso, Art ressalta que o pai nunca mais foi o mesmo depois do suicídio da esposa e de um ataque cardíaco. 

E, feliz ou infelizmente, eu preciso dizer: com o passar das páginas, o meu ódio por Artie, como Vladek o chama, só fez crescer. Posteriormente, li um trecho de entrevista em que ele relata que seus quadrinhos nascem de sua raiva e posso dizer que sim, essa afirmação é completa e intensamente verdadeira. Inevitavelmente, a raiva que ele sente de seu pai transparece na forma que age com ele e como até mesmo o retrata.

O que é, em parte, compreensível. Afinal, Vladek tem certos comportamentos e atitudes que são capazes de deixar qualquer um irritado. Mas, lendo todas essas páginas e conhecendo sua história, é difícil não sentir o coração doer. Talvez porque hoje tenhamos uma infinidade de informações, fotos, relatos e dados sobre o Holocausto, aos quais talvez Art não tivesse acesso na época. Talvez por pura falta de empatia. Mas o fato é que é possível compreender as atitudes de Vladek, levando-se em conta seu passado e suas dores. 

“Sim, a vida sempre fica do lado da vida e, de alguma forma, as vítimas são culpadas. Mas não foram as melhores pessoas que sobreviveram, nem as melhores que morreram. Foi aleatório!”

Nascido na Polônia, ele se casou com Anja. Vindo de uma família mais simples que a dela, ele já possuía seu próprio pequeno negócio antes do casamento. Por isso, já tem várias noções de como administrar uma empresa. Assim, o sogro o ajuda a abrir uma fábrica em um local diferente e, por algum tempo, seus negócios prosperam. Ele e Anja têm um filho, Richieu. E pouco depois, a guerra começa a estourar. 

Enquanto tentam de tudo para sobreviver e escapar dos nazistas, é possível entendermos que Vladek e sua família tiveram sorte por algum tempo, justamente por terem uma condição melhor do que várias outras famílias. O dinheiro, as jóias e seus contatos lhes permitiram vantagens em diversos momentos. O que, porém, não significa que as coisas foram fáceis para eles. Digo isso apenas em termos de comparação, porque várias vezes me peguei pensando: se para eles, até certo ponto, foi menos terrível, imagina para quem não tinha nada a oferecer a ninguém?

E, inegavelmente, isso dói fundo na alma. Apesar de eu já ter lido vários livros ambientados na Segunda Guerra, de já ter assistido à palestras feitas por sobreviventes do Holocausto, de já ter lido livros históricos, visto filmes e documentários, nunca fico menos abalada. Sempre fico com uma sensação horrível, uma tristeza profunda. E apesar de ser um tema constantemente falado, reforço: não podemos nunca nos esquecer dos horrores cometidos ali. 

Maus - Art Spiegelman

Portanto, apesar de eu ter lido o Maus de Art Spiegelman muitos e muitos anos após o seu lançamento, ele continua relevante. Ele continua sendo de extrema importância para todos nós. Não à toa, é considerado o livro mais importante de HQ. Apesar de todos os percalços pelos quais passou, o livro foi e é aclamado. 

Chegou até a ser listado como “ficção” pelo Times, pelo fato de Art ter utilizado figuras animais para ilustrar a história; os ratos são os judeus, os gatos são alemães, os cachorros são americanos e os porcos são poloneses. Na ficha técnica do livro no Skoob, inclusive, consta como ficção e, acima de tudo, não posso concordar com isso. Na ficha técnica que coloquei aqui, vocês lerão: NÃO FICÇÃO. É inadmissível que tratemos um retrato fiel, pesquisado, embasado e amplamente verificado como ficção. 

A trajetória de Vladek, Anja, suas famílias e amigos pela Guerra é dolorosa de se ler. Passando por esconderijos, por vários guetos, por várias casas, por Auschwitz I e II, por Dachau, por trens de carga animal, pela Polônia e pela Alemanha… Eu senti tanta dor, tanta vontade de chorar. Tantos sentimentos me sufocaram e me emocionaram. Como tenho absoluta certeza de que aconteceu com cada leitor que passou por essas páginas. 

“Deus não apareceu. Nós estávamos por conta própria.”

Maus - Art Spiegelman

E exatamente por isso a atitude de Art em relação ao pai me incomodou tanto. Sim, Vladek é carregado de problemas e evidentes traumas mal resolvidos. Sem dúvidas foi difícil crescer com ele, perder a mãe da forma como foi… Mas a realidade é que foi muito mais difícil para seus pais perderem tudo. Perderem a família, perderem o filho, perderem qualquer resquício de suas vidas anteriores.

Mas também é possível ver e se emocionar com o carinho de Vladek quanto a Artie. Apesar de todos os seus defeitos, Vladek era, acima de tudo, um sobrevivente. Um sobrevivente tão profundamente marcado pelos horrores vividos que nunca conseguiu relaxar. Nunca conseguiu tirar sua mente do estado de alerta constante e necessidade de poupar dinheiro, de não desperdiçar NUNCA um pedaço de comida que seja. 

Em conclusão, Maus de Art Spiegelman é um livro forte. Capaz de causar emoções, de derramar lágrimas. Capaz de nos fazer analisar nosso comportamento. É um livro que merece cada prêmio, cada glorificação e cada centavo que arrecadou. Um livro sobre não esquecer, carregado de conhecimento, de dores. E, claro, também é um livro sobre o amor. O amor de Vladek por Anja, o amor de Art por seu pai (visível em pequenas atitudes). O amor que ajudou tantos a sobreviverem….

_________________________________________________________________________________________________

FICHA TÉCNICA:

MAUS - ART SPIEGELMANTítulo: Maus – Art Spiegelman
Editora: Quadrinhos na Cia
Número de Páginas: 296
Ano de Publicação: 2005
Gêneros: Não-Ficção, HQ, Comics, Literatura Estrangeira
NOTA: 5/5
Adicione a sua lista do Skoob
Compre usando nosso link da AMAZON

 

veja os posts relacionados

Deixe seu comentário

13 Comentários

  • Lorenna Alencar
    março 23, 2020

    Eu sou louca para ler essa Graphic Novel, já vi ela uma vez na livraria e vi o quanto é linda. Fora que pena sinopse parece ser incrível o que com certeza sia resenha me mostrou ser. Agora quero mais que nunca. Amei.

  • Raphael Martins
    março 23, 2020

    Nunca tive oportunidade de ler, mas é uma graphic novel bem famosa e aclamada. Ultimamente to tentando ler coisas mais leves, por isso não está na minha lista de leitura (para agora), mas sua resenha me deixou com vontade de conferir. Obrigado pela dica <3

  • milca abreu
    março 23, 2020

    ai eu to louca por esse livro faz tempo acho que vou chorar tbm, parece ser emocionante, eu choro fácil com minhas leituras. assim que eu pude =r vou comprar ele, pq sei que vou amar

  • Erika Monteiro
    março 23, 2020

    Oi, tudo bem? Já faz um tempo que vi a indicação desse livro mas na época não me chamou tanta atenção. Acredito que histórias assim sempre são fortes e mexem com nossos sentimentos. Seja tristeza, raiva, comoção, pior ainda quando lembramos que muitos fatos aconteceram de verdade. Triste não? Estou com um livro desse período para ler e já ansiosa. Um abraço, Érika =^.^=

  • Valéria
    março 23, 2020

    É, Maus é uma história que me deixou baqueada… Não canso de ler, indico em sala de aula, já cheguei a usar em aula mesmo, aliado a outros elementos que tenham relação com a segunda guerra…

    Não considero ficção tbm, pois se trata de uma história real, mesmo com os elementos fictícios que ART usou pra retratar os personagens…

    Küss

  • Carol Nery
    Carol Nery
    março 23, 2020

    Hey, Vic
    Eu ganhei essa HQ do meu irmão (que ganhou de uns alunos judeus dele – ele é professor de canto). Daí resolvi ler ano passado. Foi uma coisa de louco. Uma experiência inexplicável e inigualável!
    Ah, gostei muito das analogias das personagens (ratos, porcos, cães). Tudo veio muito a calhar.
    No mais, eu não te julgo e nem te acho clichê em nada. Só fiz chorar!!!!!!

    Beijocas
    Carol!

  • Aruom Fenix
    março 22, 2020

    Que resenha incrível, já tinha ouvido falar varias vezes sobre a obra mas nunca tinha realmente parado para ler uma resenha. Confesso que essa temática mexe muito comigo, por isso muitas vezes evito ler coisas sobre a segunda guerra, mas a sua resenha tocante me deixou curiosa para conhecer esta obra.

    Parabéns pelo seu trabalho

    Bjs Aruom Fênix

    Blog Leituras de Aruom

  • Yasmine Evaristo
    março 22, 2020

    Sem sombra de dúvidas “Mais” é uma das mais belas e tocantes obras já feitas na Literatura. A sensibilidade só autor ao relatar toda a dor da sua família e das demais pessoas judias no período e pós regime nazista é tocante. Até a simplicidade dos seus traços são marcantes. Ao lado de obras como “Angola Janga”, ” Persépolis” e “Watchmen” é uma leitura que sempre que posso indico.

  • Debora Sapphire
    março 22, 2020

    Que diferente esse tipo de narrativa do livro! Acredito que eu nunca tenha lido um livro no formato de HQ em preto e branco ainda. Achei bem bacana saber que por Maus, o autor levou o prêmio Pulitzer de Literatura.
    Esse enredo também intriga o leitor. Essa seria uma grande novidade de leitura pra mim, porque raramente leio algo assim. Então, me deixou bem curiosa para me aventurar nessa obra.

  • Lilian de Souza Farias
    março 22, 2020

    Eu conheço esse quadrinho pelas mãos de alguns alunos, mas infelizmente, não tive a oportunidade de ler. Ser sobrevivente não é fácil porque às vezes, o sobrevivente fica em modo de defesa e é difícil de sair, repetindo padrões que podem ser perturbadores.

  • Leticia Rodrigues
    março 21, 2020

    eu amo esse quadrinho, li ele a alguns anos atrás e amei como o autor criou essa relação entre os animais e os povos envolvidos no nazismo, a simbologia é bem bacana.

  • Caramba! Que resenha forte a sua! E é bem condizente com um livro forte. Ainda em tempos que vivemos, ele se faz um livro super atual e que merece ser passado de geração em geração, como nos História. Eu concordo em gênero, número e grau contigo, ele não deveria ser colocado como ficção, só porque são usados outros animais para retratar os personagens, ele é verdade crua e nua sobre o que aconteceu. A ideia é passar a dor, sofrimento, angústia e raiva, pelas quais as pessoas da época passaram. Um livro assim não merece ser chamado de ficção.
    Bjks!

    Mundinho da Hanna
    Pinterest | Instagram | Skoob

  • Isadora Santos
    março 19, 2020

    Conseguiu me deixar emocionada com sua resenha desse livro que parece ser extremamente doloroso e cheio de amor , achei sua resenha nada mais nada menos do que brilhante, me deu vontade de ler e sentir tudo o que você sentiu com esse livro, chorar tudo o que você chorou com esse livro… livros que retratam a guerra nunca são fáceis, mas essa HQ parece ser algo ‘fora da casinha’ me interessou demais, parabéns pela resenha!

    Bisou bisou Isa do Le Portrait de Isa.